quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Guarani Mbya

Toy Art Guarani Mbya

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
56Guarani MbyaKaiowá, Mbya, ÑandevaTupi-Guarani
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
Argentina6500CTI/Grünberg 2008
Bolivia78359INE/Bolivia 2001
MS,SP,PR,RS,RJ,ES57923Siasi/Sesai 2012
Paraguai41200CTI/Grünberg 2008


Este povo vive em um território que compreende regiões no Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina e se diferencia internamente em diversos grupos muito semelhantes entre si, nos aspectos fundamentais de sua cultura e organizações sociopolíticas, porém, diferentes no modo de falar a língua guarani, de praticar sua religião e distintos no que diz respeito às tecnologias que aplicam na relação com o meio ambiente.

Os mbiás ou embiás (conhecidos pelo etnônimo mbyá ou mbya (pronunciado /mimbiá/ ou /mimbã'á/) na bibliografia acadêmica) são um subgrupo do povo guarani que habita a região meridional da América do Sul, em um amplo território em que se sobrepõem os Estados nacionais paraguaio, brasileiro, argentino e uruguaio. Apesar de se reconhecerem cotidianamente pela forma Mbyá, sua autodenominação ritual é Jeguakava Tenonde Porangue’ í (os primeiros escolhidos para levar o adorno sagrado de plumas ou os primeiros adornados).

Luiz Pagano e Jane - Aldeia Guarani Mbya

Juntamente com os caiouás, os nhandevas, os ava-xiriguanos, os guaraios, os izozeños e os tapietés, devido a proximidade dialetal e ritual, os embiás são considerados, por linguistas e antropólogos, como um sub-grupo dentro da grande etnia guarani.

Pré-Historia

Não são poucos os vestígios arqueológicos que apontam para a presença guarani desde tempos remotos em uma ampla faixa de terra na América do Sul Pré-cabralina.

Não há consenso entre os especialistas quanto à sua chegada à região do cone sul onde foram encontrados na época do descobrimento. Alguns arqueólogos estimam que, entre 3 000 a 5 000 anos atrás, os coletivos proto-guaranis, motivados talvez por um aumento populacional, migraram da região da Bacia Amazônica para o sul, ocupando territórios onde já se encontravam outros grupos humanos. Apesar de apresentarem uma dinâmica de mobilidade própria, os grupos proto-guaranis não eram propriamente nômades que dependiam de atividades de extração e caça, mas possuíam, como base de sua alimentação, uma variedade considerável de sementes, legumes e tubérculos que cultivavam no meio da selva, através da abertura de clareiras por meio de queimadas controladas.

Antigas panelas guaranis utilizadas como urna funerária. Em exposição no Museu Farroupilha.
Os grupos proto-guaranis dos quais descendem os embiás eram também hábeis ceramistas e cesteiros, produzindo toda sorte de objetos que necessitavam para conseguir, preparar e servir a alimentação de que dispunham. Nos sítios arqueológicos proto-guaranis, são raros os vestígios de fibras vegetais, porque não resistem ao tempo. No entanto, as grandes panelas de barro utilizadas como urnas funerárias, os fiadores, pontas de flecha e outros apetrechos de materiais inorgânicos são mais comumente encontrados.

É possível inferir, a partir da localização dos sítios arqueológicos, que os grupos guaranis, em um período anterior ao contato com os europeus, estavam presentes em espaços ambientais que hoje identificamos como domínio da Mata Atlântica, Floresta Ombrófila Densa, Floresta Ombrófila Mista, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Estacional Decidual, entre outras formações vegetais. Em grupos familiares mais ou menos extensos, retiravam destes ambientes tudo o que necessitavam para a sua existência, desde a coleta de frutos e plantas medicinais, passando pela construção de casas e preparação de armadilhas para a caça, bem como a confecção de cestaria e cerâmica e outras peças utilitárias.

Missoes Jesuíticas

Foram conhecidos no século XVIII como habitantes da selva do Mba'everá. Àquela época, habitavam, entre outros pontos, as selvas entre o Rio Acaray e o Rio Monday. Receberam, também, o nome de tarumá e, posteriormente, ficaram também conhecidos como: apyteré, tembekuá (queixos furados), tambeaopé (portadores da tanga), ka'yngua, ka’yguá ou também cainguá (habitantes das matas) e baticola.

Não há consenso entre os antropólogos em torno da ancestralidade dos grupos contemporâneos embiás, nhandevas e caiouás, se seus ancestrais teriam ou não sido aldeados pelos padres jesuítas. Uma das hipóteses aponta para a possibilidade dos embiás e dos caiouás terem resistido à conquista espiritual e à redução nas Missões Jesuíticas, enquanto os Avá katu eté ou Nhandeva serem descendentes dos guaranis que participaram do processo evangelizador levado a cabo pelos jesuítas.[9] . Outra tese considera que nenhum desses grupos teria se submetido ao processo missionário, escolhendo conservar sua independência através de deslocamentos frequentes por terras onde hoje estão o Paraguai, o Brasil e Argentina. A diferença entre eles se daria conforme níveis distintos de manutenção de laços de parentesco e afinidade com grupos guaranis reduzidos durante o período das missões. Esta tese defende, ainda, que muitos desses grupos guaranis missionados sobreviventes teriam ido viver junto aos habitantes da mata no percurso e conclusão da Guerra Guaranítica.

Ambas as possibilidades visam a explicar modificações na cosmologia guarani pela incorporação controlada de elementos de matriz europeia que persistem até os dias de hoje. Entre esses elementos, encontra-se o abandono da antropofagia, a incorporação de elementos da escatologia cristã ao seu xamanismo e, no caso dos embiás e dos nhandevas, a reprodução e a utilização de certos objetos trazidos pelos jesuítas: entre estes, instrumentos musicais como o ravé (rabeca) e o mbaraká (violão).

Guerra do Paraguai

Em 1869, com o fim da Guerra do Paraguai, um clérigo brasileiro se posta em frente a mulheres e idosos indígenas sobreviventes: entre estes, estão alguns guaranis embiás (no canto inferior, à direita).
Uma das populações mais afetadas durante a Guerra do Paraguai, muitos guaranis, entre eles os embiás, foram obrigados a lutar tanto do lado paraguaio quanto do lado brasileiro. Não existem estimativas quanto ao número de guaranis, entre guerreiros e civis, mortos nesta guerra, uma vez que eram classificados como camponeses e soldados pelo estado paraguaio nas políticas de negação étnica, muito comuns à época.

A Guerra do Paraguai é considerada um dos maiores massacres da história das Américas. Os historiadores divergem enormemente a respeito do número de mortos e do tamanho do território perdido pelo Paraguai.[10] Na história oral embiá, existem diversas narrativas em torno da Guerra do Paraguai. Muitas falam das terríveis violências sofrida pelos antepassados, do alistamento obrigatório que levaria os homens aos frontes de batalha e da evasão das regiões onde ocorreu o conflito.

No Paraguai, o censo de 1981 indicou a existência de 5 500 pessoas da etnia embiá. No de 1992, foram registrados 4 744. Para o Foro de Entidades Privadas Indigenistas, em 1995 havia 10 990 representantes da etnia. Essas diferenças se devem à resistência que esta coletividade ameríndia possui aos censos nacionais. Outras estimativas no ano de 2000 os elevam a 12 100 no território paraguaio.

Na região argentina de Misiones, coexistem com eles, nas mesmas comunidades familiares, grupos de Xiripá-guarani (ou Avá katú eté) e Kaiová-guarani (ou Paí Tavyterá). Existem, lá, 74 comunidades (tekoás) e sua população total, aproximada, é de 3 000 pessoas no território argentino. Duas grandes comunidades missioneiras, Fortin Mborore e Yriapú - nas cercanias de Iguazú - concentram mais de seiscentas pessoas, muitas delas vindas do Paraguai e do Brasil.

No Brasil, a população embiá concentra-se nas regiões sul e sudeste, junto às serras atlânticas que do litoral. Existem alguns grupos de pequeno e médio porte em poucas terras indígenas demarcadas continente adentro. É comum também encontrarem-se em acampamentos nas beiras das estradas nos estados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, principalmente junto à BR-101 e à BR-116. Segundo o Instituto Socioambiental, a etnia guarani embiá no Brasil conta com, atualmente, cerca de 8 400 pessoas. Há, também, coletivos do povo embiá originários de uma única família que, após a Guerra do Paraguai, migrou para a Região Norte do Brasil, se estabelecendo nas matas dos estados do Pará e Tocantins e, com o tempo, se dispersando também em pequenos grupos familiares pelo centro-oeste brasileiro;

Há, ainda, um número reduzido da etnia habitando terras no Uruguai, dividido entre a Tekoá Marae´i, nas proximidades de Santiago Vazquez e a Quarta Seção do Departamento de Treinta y Tres.

Atualidade

Atualmente, os embiás vivem em pequenos grupos de quatro ou cinco famílias liderados por um xamã (que denominam karaí ou paí), desde o Rio Apa até o rio Paraná ao sul do Paraguai, principalmente espalhados pelo departamento paraguaio de Guairá. Na província argentina de Misiones e em grupos que habitam áreas esporádicas pelo sul e sudeste do Brasil até o litoral. Não reconhecem fronteiras nacionais e isto se manifesta nas continuas migrações entre estes três países. Nas comunidades de maior tamanho - como as existentes na Argentina - o líder recebe o nome de mburuvixá.

Falam um dialeto guarani que difere do falado no Paraguai, tanto na fonética, quanto na morfologia, na sintaxe e no léxico. O dialeto divide-se ainda em dois sub-dialetos: o tambéopé e o baticola. Vários homens embiás são trilingues, falando o embiá, o guarani paraguaio e o castelhano nos territórios de língua castelhana. Os que moram no Brasil falam, também, o português.

São grupos transumantes, geralmente permanecendo pouco mais de um ou dois anos num mesmo local. Nos locais onde ainda é possível, se alimentam de caça, pesca e coleta. Seus principais cultivos são variedades próprias de milho (avaxí), mandioca (mandió), batata, amendoim (manduí), feijão (kumandá), abóbora (mindain) e melancia (janjau).

Saúde, xamanismo e cura

Devido à destruição paulatina das matas, as práticas embiás usuais de obtenção dos alimentos estão seriamente prejudicadas, levando-os a recorrerem a alimentos industrializados, nem sempre apreciados por eles. O confinamento em áreas pequenas e o desaparecimento dos espaços necessários para o sustento de seu modo de vida tradicional tem feito com que os embiás, no mais das vezes a contragosto, se vejam obrigados a adotar certos aspecto da vida dos juruá (eurodescendentes, brancos, literalmente boca com pelos), acarretando em graves e progressivos males a sua saúde. Estudos epidemiológicos conduzidos na Argentina nos últimos anos demonstraram o surgimento de quadros de desnutrição, principalmente entre as crianças.

Os karaí (Opy'guá ou senhor da Opy) - xamãs rezadores médicos embiás - são os encarregados de curar com as plantas medicinais, influenciar o clima, adivinhar o futuro, propiciar boas caçadas e colheitas, dirigir cantos e danças rituais e descobrir o nome-espírito sagrado das crianças pequenas. Sua função mais importante seria o relato dos mitos de criação, aos quais também se atribuem poder curativo. Existem, entre eles, divisões de acordo a sua idade, experiência e conhecimento: no entanto, estas não são propriamente hierárquicas, mas sim formas de classificações sócio-cosmológicas que lhes são próprias. A medicina tradicional embiá também tem sido impactada com o desmatamento progressivo: muitos xamãs já não encontram mais tão facilmente as ervas que necessitam para os tratamentos. Como consequência, alguns jovens já não possuem mais grandes saberes sobre as plantas medicinais.

A situação em que se encontram cada um dos grupos é diversa. Há grupos nas florestas do Paraguai e no grande Chaco que permanecem relativamente distantes da presença dos eurodescendentes. Por outro lado, na Argentina, existem comunidades que, confinadas em reservas, encontram sua única fonte de alimento na merenda escolar distribuída nas escolas bilíngues. Uns poucos grupos familiares que circulam fora das aldeias e das terras indígenas, tanto na Argentina como no Brasil, vivem exclusivamente da venda de artesanatos, produzidos tendo como referência objetos de sua cultura material e imagens de sua cosmologia.

No Brasil, tem se visto ainda, na última década, nas aldeias maiores, a organização de grupos de cantos e danças de crianças e jovens embiás que se apresentam em certas ocasiões em escolas e universidades. Alguns desses grupos, através de alianças com grupos da sociedade eurocentrada, registraram seus canto em CDs que comercializam junto aos artesanatos como meio de complementar sua renda.

Entenda mais sobre a gramática Guarani-Mbya

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