domingo, 21 de fevereiro de 2016

Barasana

Toy Art Barasana

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
33BarasanaPanenoáTukano

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AM47Siasi/Sesai 2012
Colombia9391998



Os índios que vivem às margens do Rio Uaupés e seus afluentes – Tiquié, Papuri, Querari e outros menores – integram atualmente 17 etnias, muitas das quais vivem também na Colômbia, na mesma bacia fluvial e na bacia do Rio Apapóris (tributário do Japurá), cujo principal afluente é o Rio Pira-Paraná. Esses grupos indígenas falam línguas da família Tukano Oriental (apenas os Tariana têm origem Aruak) e participam de uma ampla rede de trocas, que incluem casamentos, rituais e comércio, compondo um conjunto sócio-cultural definido, comumente chamado de “sistema social do Uaupés/Pira-Paraná”. Este, por sua vez, faz parte de uma área cultural mais ampla, abarcando populações de língua Aruak e Maku. 

Ritual

As festas assumem três formas básicas: caxiris (festas de cerveja), dabukuris ou intercâmbio cerimonial, e os ritos de Yurupari envolvendo flautas e trombetes sagrados. Os caxiris são fundamentalmente ocasiões sociais quando uma comunidade convida os seus vizinhos a dançar e beber caxiri, às vezes como um agradecimento pela sua ajuda na abertura de uma roça ou na construção de uma casa nova, às vezes para marcar a nomeação de uma criança, o casamento de uma mulher, ou a etapa final de iniciação dos meninos, e às vezes somente por divertimento e reforço dos laços sociais. Os convidados são os principais dançarinos, e em troca de suas danças, os anfitriões lhes oferecem grandes quantidades de caxiri preparado pelas suas mulheres.

Acima - maloca com pintura Barasana - a baixo - ritual Barasana
Com cocares de penas e outros ornamentos, os dançarinos dançam a noite inteira em volta do recipiente (cuja forma é semelhante a uma canoa) de caxiri, que constitui o foco central da celebração; é uma questão de honra que todo o caxiri seja consumido antes dos visitantes partirem pela manhã. Há dois tipos de danças, ou relativamente lentas, no caso de danças formais em que os homens se dispõem em uma linha entrecruzada por mulheres, ou danças mais rápidas e menos formais em que cada dançarino dança sozinho, tocando um conjunto de flautas de pã como parte de um coro, e competindo com os outros para atrair a parceira de sua escolha. Entre essas sessões de dança, os anfitriões e convidados se sentam frente a frente e trocam presentes como coca e charutos, enquanto recitam as suas genealogias em cânticos coletivos conduzidos por um especialista. O kumu se senta à parte, soprando encantações sobre cuias de coca, tabaco e ayahuasca; então as oferece aos participantes para protegê-los e permitir aos dançarinos que vejam e experimentem em suas danças as viagens dos primeiros ancestrais e os eventos míticos que os seus cantos e cântico relatam.

Os caxiris podem envolver comunidades de irmãos e cunhados, já os dabukuris são, sobretudo, ocasiões que celebram e reforçam os laços de matrimônio e afinidade. As dádivas são dadas em nome de um homem para seu cunhado ou sogro: no mito barasana da origem do dabukuri, cujos personagens são Yeba Yamira (ver item "Aspectos cosmológicos"), a dádiva era do Yeba para seu sogro Anaconda Peixe. O ritual começa com a chegada dos convidados ao anoitecer. Tratados como estranhos e inimigos potenciais pelos seus anfitriões, eles não entram na maloca, dançando e cantando por iniciativa própria do lado de fora. De manhã, eles desfilam dentro da maloca vestidos com elegância e soprando trombetes de cerâmica ou embaúba. Apresentam suas dádivas aos seus anfitriões e então iniciam uma dança que continuará o dia inteiro e a noite também. Os anfitriões se mantém distantes, continuam lhes servindo caxiri, mas enquanto o dia vai se passando, eles se misturam cada vez mais com os convidados, dançando e cantando junto com eles, quebrando assim as barreiras que foram estabelecidas, de forma dramática, no começo do ritual. Pela manhã, quando a dança termina, convidados e anfitriões comem em uma enorme refeição comunal, como se fossem uma comunidade única e integrada.

Esses intercâmbios têm uma dupla lógica e movimento: a curto prazo, os convidados dançam e oferecem peixe ou carne em troca do caxiri fornecido pelos anfitriões; a longo prazo, as comunidades trocam um tipo de produto por outro - peixe por carne ou carne por peixe - e alternam os papéis de anfitrião e convidado. Ambos os casos estão relacionados a matrimônio, o primeiro refletindo a troca de carne ou peixe por produtos de mandioca (o beiju e o caxiri) entre marido e mulher; o segundo refletindo a troca de diferentes tipos de mulheres entre os grupos ligados por inter-casamentos. Em termos cosmológicos, essas trocas estão intimamente ligadas aos ciclos de procriação e à disponibilidade sazonal de espécies de peixes e animais. As danças remetem não apenas às dramatizações e movimentos relativos a peixes e pássaros migrantes, como garantem a fertilidade continuada da natureza e a disponibilidade de espécies das quais dependem.

Os rituais envolvendo os instrumentos musicais sagrados de Yurupari são a expressão mais plena da vida religiosa dos índios, pois englobam e sintetizam vários temas-chave: ancestralidade, descendência e identidade grupal, sexo e reprodução, relações entre homens e mulheres, crescimento e amadurecimento, morte, regeneração e integração do ciclo de vida humano com o tempo cósmico. Em relação de complementariedade com os dabukuris, esses rituais são concernentes à identidade masculina e às relações intra-grupais em oposição ao casamento e às relações inter-grupais; do mesmo modo, dizem respeito à fertilidade das árvores e plantas em oposição aos ciclos de vida dos animais.

As flautas e os trombetes de tronco de palmeira pertencentes a cada grupo são uma entidade ao mesmo tempo única e múltipla: o ancestral do grupo e seus ossos aos pares, que são também seus filhos; e os ancestrais dos clãs componentes do grupo. Quando os instrumentos estão juntos e são tocados, o ancestral volta à vida, de modo que aqueles que os tocam assumem as identidades dos ancestrais clânicos e entram em contato direto com seus respectivos pais (originários). Esse processo anula a separação vigente entre passado e presente, mortos e vivos, ancestrais e descendentes, restabelecendo a ordem primordial dos mitos de origem. Os ritos normalmente envolvem um clã ou o segmento de um clã, que age como um grupo isolado e assim pode estabelecer a sua identidade enquanto unidade coletiva indiferenciada em contraposição ao mundo de fora, mas segmentada internamente por uma hierarquia ordenada.

Os instrumentos Yurupari somente podem ser vistos e manuseados pelos homens adultos. De acordo com os mitos, originalmente eram as mulheres quem possuíram as flautas enquanto os homens se encarregavam do processamento da mandioca e outras tarefas femininas. Os mitos acrescentam outro detalhe importante: quando as mulheres tinham a posse das flautas, os homens menstruavam e, quando tiraram as flautas delas, fizeram com que as mulheres menstruassem. Esses mitos, e os rituais que os dramatizam, podem ser entendidos como um discurso complexo e ambíguo sobre os respectivos poderes e capacidades de homens e mulheres, tal como aquele que se refere aos poderes xamânicos femininos, já mencionados. Isso implica que os órgãos reprodutivos e as capacidades reprodutivas complementares de homens e mulheres, isto é: as suas "flautas", são simultaneamente idênticas e opostas, iguais e desiguais, invertidas e equivalentes.

Baniwa

Toy Art Baniwa

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
31BaniwaBaniva, Baniua, Curipaco, WalimanaiAruak

U
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AM6243Siasi/Sesai 2012
Colombia70002000
Venezuela2408INE 2001



Os Baniwa vivem na fronteira do Brasil com a Colômbia e Venezuela, em aldeias localizadas às margens do Rio Içana e seus afluentes Cuiari, Aiairi e Cubate, além de comunidades no Alto Rio Negro/Guainía e nos centros urbanos de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos (AM). Já os Kuripako, que falam um dialeto da língua baniwa, vivem na Colômbia e no Alto Içana (Brasil).

Ambas etnias aparentadas são exímias na confecção de cestaria de arumã, cuja arte milenar lhes foi ensinada pelos heróis criadores e que hoje vem sendo comercializada com o mercado brasileiro. Recentemente, têm ainda se destacado pela participação ativa no movimento indígena da região. Esta corresponde a um complexo cultural de 22 etnias indígenas diferentes, mas articuladas em uma rede de trocas e em grande medida identificadas no que diz respeito à organização social, cultura material e visão de mundo.

Arara Shawãdawa

Toy Art Arara Shawãdawa

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
19Arara ShawãdanaArara do Acre, ShawanauaPano

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AC545Siasi/Sesai 2012



Assim como os demais grupos indígenas no Acre, os Arara Shawãdawa sofreram os efeitos das correrias e do sistema de produção dos seringais a partir das últimas décadas do século XIX, tendo sido explorados, expropriados e cerceados em sua reprodução física e cultural. Nos últimos anos eles têm se empenhado em reverter esse processo, por meio da revalorização de sua língua e tradições, bem como da reivindicação de seus direitos territoriais junto ao Estado brasileiro. Conseguiram a ampliação de sua terra, porém até hoje ela não foi homologada pela presidência da República.

A região atualmente ocupada pelos Arara era território dos grupos Pano e Aruak desde o período pré-cabralino, mas a partir de meados do século XIX passou a ser ocupada também por exploradores e comerciantes vindos de Belém, Manaus e de centros urbanos localizados ao longo do rio Solimões (Aquino & Iglesias, 1999). Entretanto, a exploração e ocupação efetiva da região do Alto Juruá ocorreu apenas nas duas últimas décadas do século XIX, após vários embates com os grupos indígenas locais. Neste período, a região foi povoada principalmente por migrantes oriundos do nordeste brasileiro, os quais, fugindo da seca de 1877, estabeleceram várias colocações e estradas de seringa com o intuito de extrair o látex da Hevea brasiliensis.

Em fins da última década do século XIX, o Alto Juruá já estava povoado por brasileiros, quando peruanos “caucheiros”, explorando o caucho (Castilloa ellastica) e outros produtos florestais ocuparam a região. A ocupação dos caucheiros peruanos foi itinerante e de curta duração, encerrando-se no início do século XX, enquanto a dos nordestinos foi maciça e duradoura (Castello Branco, 1930: 640).

Conforme consta na história oral dos Arara, e nas fontes historiográficas sobre o Alto Juruá, somente no início do século XX o grupo entrou em contato com agentes da sociedade nacional. No ano de 1905, quando estava sendo aberta uma estrada que ligava Cocamera, no Tarauacá, a Cruzeiro do Sul, Felizardo Cerqueira e Ângelo Ferreira conseguiram, juntamente com índios Yawanawa, Rununawa e Iskunawa, contatar os Arara que estavam localizados na região do igarapé Forquilha, afluente da margem esquerda do Riozinho da Liberdade (Tastevin, 1926: 49). Nesse período, os Arara que habitavam próximos a esse igarapé residiam com índios Rununawa, sendo todos liderados pelo célebre tuxaua Tescon, quem era casado com a filha de um tuxaua Arara.

Referências a Tescon liderando os Arara são uma constante nas fontes escritas sobre o Alto Juruá, como a do tenente do exército Luiz Sombra, que em 1907 manteve contato com os “xauánauás (araras)” no Riozinho da Liberdade. Nesse mesmo ano, o engenheiro Nunes de Oliveira visitou malocas de vários índios na região, encontrando-se com Tescon nas proximidades do igarapé Forquilha. Em 1911, Tescon e os demais indígenas por ele liderados permaneciam no Riozinho da Liberdade quando o engenheiro Máximo Linhares, como ajudante do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN), percorreu os vales dos rios Juruá e Tarauacá. Máximo Linhares encontrou Arara, Ararapinas, Contanauás, Caxinauás, Jaminauás e Tuxinauás no rio Humaitá, afluente do alto rio Muru; Caxinauás, Jaminauás, Curinas, Catuquinas, Aninauás, Ararauás e Capanauás no Alto “Embira” (Envira); e, malocas de Caxinauás e Araras, na cabeceira do Forquilha (Castello Branco, 1950: 19-23).

Depois de 1912 esteve no Alto Juruá o padre francês Constantino Tastevin, quem relatou as constantes guerras intertribais travadas pelos Arara no início do século XX, além de ter feito uma distinção entre os Arara do Tauari e os do Forquilha, dando a entender estarem os Arara divididos em mais de um grupo, ou em diferentes aldeias de um mesmo grupo. Ainda nos relatos de Tastevin, nota-se as migrações empreendidas pelos Arara ao longo dos rios Tejo, Bagé, Liberdade e Amahuaca (Riozinho Cruzeiro do Vale), sendo possível constatar o combate que resultou na morte de Tescon devido a um conflito com os Arara (Tastevin, 1928: 208-209).

Em 1914, Tescon foi assassinado por índios Arara, resultando na dispersão do grupo. De acordo com a memória Arara, devido a Tescon ter batido em sua esposa Arara, associado com ameaças de Tescon contra os parentes de sua esposa, levou estes últimos a empreenderem uma guerra contra o grupo de Tescon na região do Riozinho da Liberdade, resultando na morte dele. Depois desse confronto, várias outras guerras ocorreram por parte dos índios liderados por Tescon, com o intuito de vingar sua morte, o que levou os Arara a migrarem para as proximidades dos rios Bagé, Tejo, Gregório e Riozinho Cruzeiro do Vale. Os Arara se estabeleceram nas margens do Riozinho Cruzeiro do Vale e do rio Valparaíso provavelmente após a morte de Tescon, em 1914, quando realizaram várias migrações, até serem localizados na década de 1920 nos seringais Cruzeiro do Vale e Humaitá. Mesmo estando a região dividida em seringais, o grupo não se mantinha fixo em uma única localidade, pois continuavam se deslocando pelos rios Valparaíso, Riozinho Cruzeiro do Vale, Riozinho da Liberdade e Bagé.

Nesse período, uma parte dos Arara, também denominados na historiografia por Ararauás e Ararapinas, encontrava-se residindo nas margens dos rios Humaitá, afluente do Muru, do Turunaia, do Tauari e do Embira (atual Envira). Entretanto, não é possível afirmar com base nas informações orais e escritas que esses Arara uniram-se posteriormente àqueles que residiram no igarapé Forquilha. De acordo com a memória oral dos Arara eles estiveram na região do Riozinho da Liberdade e depois de várias migrações estabeleceram-se no Riozinho Cruzeiro do Vale. Durante essas migrações, muitas foram as guerras intertribais travadas pelos Arara, as quais acabaram após a inserção dos Arara na empresa seringalista.

Para ter os Arara como mão-de-obra, os “patrões” patrocinaram várias “correrias”, utilizando alguns dos “antigos” (ancestrais) Arara como agentes do processo de inserção do grupo nas atividades produtivas dos seringais. Estes antigos encontram-se fortemente presentes na memória Arara, e são referências da identidade do grupo e do território imemorialmente ocupado. As informações relativas aos “antigos”, em geral, estão vinculadas às correrias, às guerras intertribais, ao parentesco, à organização social, aos costumes tradicionais, às práticas de secessão e às migrações do grupo por um vasto território que compreendia regiões da bacia dos rios Liberdade, Gregório, Bagé, Cruzeiro do Vale, Tejo, Humaitá e Envira.

Ao longo da segunda metade do século XX, os Arara estiveram sob o julgo dos patrões, realizando constantes migrações em busca de melhores condições de vida pelos seringais da região incidentes em seu antigo território, entre eles o Valparaíso, o Russas, o Nilo, o Humaitá e o Concórdia. Devido a doenças e a represálias dos patrões, alguns Arara que residiam próximos ao rio Bajé migraram, nas décadas de 1970-80, para a região do Riozinho Cruzeiro do Vale e do rio Valparaíso, onde encontravam-se várias famílias Arara. Nesse período, passaram a reivindicar seus direitos territoriais e conseguiram que, em 1985, fosse identificada e delimitada a Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá (para informações, veja ao lado em Terras habitadas).

Após garantirem uma parte do seu território, diversas famílias que estavam sob o jugo dos patrões, espalhadas pelas colocações dos rios Liberdade e Bagé, preferiram abandonar as colocações para residirem com seus parentes na Terra Indígena, ou em áreas próximas a essa. Quando, em 1994, estiveram na área os antropólogos do GT da Portaria n° 1.204/93 não havia mais nenhuma família Arara no Riozinho da Liberdade, mas existiam várias residindo fora dos limites da Terra Indígena, na região do igarapé Grande, afluente do rio Valparaíso, além de muitas outras na cidade de Cruzeiro do Sul. Com o intuito de inserir uma parcela do território não contemplada anteriormente, os Arara passaram a reivindicar, ao longo da década de 1990, a ampliação da Terra Indígena ocupada pelo grupo, o que somente veio a ser atendido no ano de 2000, com a realização dos estudos antropológicos de identificação e delimitação da terra.

Em 19/12/2001 foi publicadoa no Diário Oficial da União a aprovação dos estudos de identificação da terra pela Funai e, em 04/12/2002, a portaria declaratória do Ministro da Justiça de posse permanente aos índios.

Yawanawá

Toy art Yawanawá

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
235YawanawáIawanawáPano

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
Bolivia6301993
AC541Funasa 2010
Peru3241993





Os iauanauás ou yawanawá são um povo indígena que habita a Área Indígena Rio Gregório, no município de Tarauacá, no Oeste do estado do Acre, no Brasil. São, aproximadamente, 700 pessoas.

O nome "Yawanawá" significa, literalmente, "Povo do Queixada", a Terra Indígena do Rio Gregório foi demarcada na década de 1980. Em 1993, a tribo realizou um acordo comercial com a empresa estadunidense Aveda para o fornecimento de urucum a ser utilizado na fabricação de cosméticos. Graças ao acordo, a tribo teve condições econômicas de resgatar sua cultura tradicional, que estava se perdendo. A Terra Indígena do Rio Gregório foi ampliada para 182 mil hectares em 2007 pela Fundação Nacional do Índio.

Pintura feminina Yawanawá, no festival anual  da aldeia Nova Esperança, na Terra Indígena do Rio Gregório, na fronteira do Acre com o Peru.


As principais atividades produtivas são a caça, pesca e agricultura de subsistência com o plantio de milho, mandioca, arroz e banana principalmente. Os Yawanawá têm se dedicado também à produção de urucum (bixa orellana) destinado à fabricação de cosméticos, à produção de óleos nativos como o de andiroba e à produção artesanal de móveis a partir de madeiras de árvores mortas.

Formação

A formação étnica do povo Yawanawá conta com outros povos (ou clãs) da família linguística Pano (também chamados, de modo genérico, "Náwa"). São eles: Rununáwa ("povo-serpente"), Xawanáwa ("povo-arara"), Saináwa ("povo do grito, da palavra ou da canção"), Uxunáwa ("povo da garça branca"), Escunáwa ("povo do japó") e Catuquina, entre eles denominados Camãnawa ("povo da onça ou do cachorro", dependendo da fonte). Destes povos, os Escunáwa, Catuquina e Xawanáua possuem território próprio, sendo que os Escunáwa históricos passaram a ser denominados Xanenáua (ou Shanenawa) e também, erroneamente, Catuquina. Os demais acabaram sendo absorvidos pelos povos existentes. Entre os Yawanawá, contudo, há conhecimento de quais famílias pertencem a determinado povo (ou clã).

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Tupinambá

Toy Art Tupinambá

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
205Tupinambátupinambátupinambá

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
BA4729Funasa 2009



Os Tupinambá de Olivença vivem na região de Mata Atlântica, no sul da Bahia. Sua área situa-se a 10 quilômetros ao norte da cidade de Ilhéus e se estende da costa marítima da vila de Olivença até a Serra das Trempes e a Serra do Padeiro.

A vila hoje conhecida como Olivença é o local onde, em 1680, foi fundado por missionários jesuítas um aldeamento indígena. Desde então, os Tupinambá residem no território que circunda a vila, nas proximidades do curso de vários rios, entre os quais se destacam os rios Acuípe, Pixixica, Santaninha e Una.

Apesar da longa história de contato, a filiação ameríndia é fundamental para compreendermos a vida social dos Tupinambá de Olivença na atualidade. Não se trata de um resquício histórico remoto, mas de uma marca efetiva na organização social e modo de vida dos Tupinambá que hoje habitam a região. Entre outros aspectos, destaca-se sua organização em pequenos grupos familiares e certos gostos alimentares, como a preferência pela “giroba”, uma bebida fermentada produzida por eles.

Guerreiro tupinambá portando um ivirapema. No chão, a cabeça de um inimigo decapitado.
aquarela de John White

Ainda que os Tupinambá de Olivença se considerem muitas vezes “caboclos” ou mesmo “índios civilizados”, isso nunca significou um abandono de sua condição indígena. O Estado retirou-lhes os direitos indígenas diferenciados a partir do fim do século 19, em função das visões restritivas que os órgãos oficiais tinham a respeito de quem era ou não indígena. Foi somente com a Constituição de 1988 que se criou abertura legislativa para que as solicitações dos Tupinambá de Olivença, e de outros povos, fossem ouvidas e pudessem ter respaldo.

Em 2001, os Tupinambá de Olivença foram reconhecidos oficialmente como indígenas pela Funai. A primeira fase de demarcação do seu território concluiu-se em abril de 2009 com a publicação do resumo do relatório de identificação e delimitação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença.

Tupinikim

Toy Art Tupinikim

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
206Tupinikim
Tupi-Guarani
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
ES2630Funasa 2010



Os tupiniquins, também chamados tupinaquis, topinaquis e tupinanquins, são um grupo indígena brasileiro pertencente à nação tupi. Eles habitavam, por volta do século XVI, duas regiões do litoral do Brasil: o sul do atual estado da Bahia e o litoral do atual estado de São Paulo entre Cananéia e Bertioga, além da zona de campos no topo da serra ao lado desta última região. Foram o grupo indígena com o qual se deparou a esquadra portuguesa de Pedro Álvares Cabral, em 23 de abril de 1500. Atualmente, habitam terras indígenas no município de Aracruz, no norte do estado do Espírito Santo, no Brasil.

Etimologia

Segundo Antenor Nascentes, o termo "tupiniquim" da expressão tupin-i-ki, significando "tupi ao lado, vizinho lateral" (in: Dicionário Etimológico Brasileiro). Silveira Bueno dá sua raiz na expressão tupinã-ki, ou "tribo colateral, o galho dos tupi" (in: Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa). Eduardo de Almeida Navarro sugere a etimologia "os que invocam Tupi", pela junção de Tupi (nome de um personagem mítico ancestral das tribos tupis) e ekyîa ou ikyîa (invocar).

Uso popular de "tupiniquim"

No português coloquial, "tupiniquim" costuma ser usado como sinônimo de "brasileiro".

História

Os tupiniquins tiveram importante participação na colonização portuguesa da região de Santos e Bertioga no século XVI e na fundação da cidade de São Paulo, em 1554, pelos padre jesuíta Manuel da Nóbrega. Eram aliados dos colonizadores portugueses. O pesquisador Carlos Augusto da Rocha Freire consignou que os tupiniquins ocupavam, no século XVI, terras situadas entre o atual município baiano de Camamu e o Rio São Mateus (ou Rio Cricarê), no atual estado do Espírito Santo. Foram catequizados por jesuítas em "Aldeia Nova", sofrendo com pragas exógenas (como a varíola) e endógenas (como as formigas, que lhes destruíram as plantações). Serafim Leite consignara, em História da Companhia de Jesus no Brasil, que o Acampamento dos Reis Magos era, quase todo, composto por tupiniquins.

Em 1610, o padre João Martins obteve, para os nativos, uma sesmaria, mensurada somente em 1760. O principal centro desse território era a vila de Nova Almeida, que, na data de sua demarcação, contava com 3 000 habitantes. Auguste de Saint-Hilaire registra, no início do século XIX, sua existência.[6] Em meados do século XIX, o pintor François-Auguste Biard anotou sua presença em famílias dispersas, junto a imigrantes italianos.
Festa Tupiniquim em Aracruz - ES


Etnias indígenas mais populosas no Leste-Nordeste brasileiro, atualmente
No século XX, o Serviço de Proteção aos Índios instalou, no Espírito Santo meridional, uma de suas zonas de atuação, sendo encontrados, em 1924, alguns tupiniquins.

Situação atual

Sua população, em 1997, estava em volta de 1 386 indivíduos. No passado, falavam a língua tupi litorânea, da família Tupi-Guarani, mas, atualmente, usam apenas o português. Foram tolhidos de suas terras, o que resultou no acampamento em protesto, junto a índios guaranis do Espírito Santo, defronte ao Ministério da Justiça, reivindicando a efetivação da reserva indígena.

Em 28 de agosto de 2007, o governo demarcou as terras reivindicadas pelos tupiniquins, que ficaram acampados em área usada para a plantação de eucaliptos da empresa Aracruz Celulose.

Uru-Eu-Wau-Wau

Toy Art Uru-Eu-Wau-Wau

#Nomes-------------------------------------------------------------Outros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
211Uru-Eu-Wau-WauBocas-negras, Bocas-pretas, Cautários, Sotérios, Cabeça-vermelha, Urupain, Jupaú, Amondawa, Urupain, Parakuara, JurureísTupi-Guarani

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
RO115Funasa 2010


Os Uru-Eu-Wau-Wau (também grafado Uru-eu-uau-uaus), autodenominados Jupaú, constituem um povo indígena falante da língua Kawahib e presente no norte do estado brasileiro de Rondônia, mais precisamente na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau. 

A população da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau é composta por vários grupos -além dos Uru-Eu-Wau-Wau -, tais como os Amondawa e os Urupain, havendo também grupos isolados, como os Parakuara e os Jurureís, assim como dois outros grupos cujos nomes são desconhecidos - um deles no sudoeste, no médio do rio Cautário, e outro no centro da mesma Terra Indígena, no igarapé Água Branca. A denominação "Uru-eu-wau-wau" foi dada aos Jupaú pelos índios Oro Wari'. 

Garoto Uru-Eu-Uaw-Wau caminhando na floresta, usando o característico 'Tupaia' (cinturão feito com cipós e amarrados na cintura). A arara, que aparece junto com a criança, é o animal sagrado desse povo, que acredita, que eles mesmos, sejam descendentes do pássaro resplandecente. As tatuagens faciais característicos dos membros de tribos representam as três linhas circulares faciais da arara-azul. Foto: L. McIntyre


Trata-se de uma população muito jovem, já que os mais velhos morreram nos primeiros contatos com os não índios, nos anos 1980. Muito de suas tradições foram esquecidas, embora ainda pratiquem a caça e a pesca com arco e flecha como seus antepassados. Os primeiros contatos da FUNAI com os Uru-Eu-Wau-Wau foram conduzidos por Apoena Meireles. À época, a população era de mais de 800 índios, que eram essencialmente nômades. Sua quase extinção deveu-se à invasão de suas terras por não índios, que trouxeram consigo doenças como a malária. Houve também muitos assassinatos durante a invasão. Atualmente, a população se estabilizou e começa a se recuperar. Hoje possuem roças fartas para a alimentação e gozam de condições sanitárias mais favoráveis. 

O povo Amondawa, que também vive na Terra Indígena Uru-eu-uau-uau, antigamente andava com os Uru-Eu-Wau-Wau, mas houve desentendimentos, culminado na separação, e os Amondawa constituíram um outro grupo.


Zoró

Toy Art Zoró

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
240ZoróPangyjejMondé

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
MT625Associação Povo Indígena Zoró Pangyjej 2010



Os Zoró, e os demais povos de língua Tupi-Mondé, são habitantes seculares da região noroeste de Mato Grosso e sul de Rondônia. No século XX, progressivamente, este extenso território indígena foi invadido por seringais e empresas de mineração. A inauguração da rodovia Cuiabá-Porto Velho, em 1961, lançou colonizadoras, agropecuárias e posseiros na disputa pelas terras indígenas. Face ao acirramento dos conflitos, organizaram-se várias expedições de “pacificação”. Oficialmente contatados em 1977, os Zoró foram os últimos dos Tupi-Mondé a se aproximar das frentes de expansão regional (veja "Histórico da pacificação"). Os sertanistas da Funai estimavam sua população entre 800 a 1000 pessoas. Um ano depois do contato, este número reduzira-se à metade. A invasão de suas terras por posseiros e madeireiras ganhou força nas décadas seguintes, ocasionando epidemias e depopulação. A retirada dos invasores da área Zoró, no início dos anos noventa, contudo, não interrompeu a extração ilegal de madeira. Nos últimos anos, a Associação Pangyjej (APIZ) vem assumindo iniciativas para a proteção da Terra Indígena Zoró e seus recursos naturais, além de apoio à educação escolar e aos projetos produtivos, como a coleta de castanha.

Wajãpi

Toy Art Wajapi

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
214WajãpiWayapi, Wajapi, OiampiTupi-Guarani

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AP,PA956Siasi/Funasa 2010
Guiana Francesa950Grenand 2009



Wajãpi é o nome utilizado para designar os índios falantes desta língua Tupi que vivem na região delimitada pelos rios Oiapoque, Jari e Araguari, no Amapá. São os mesmos Guaiapi, mencionados na região do baixo rio Xingu, sua área de origem, desde o século XVII.

A partir de novembro de 2014, a Arte Kusiwa da população indígena Wajãpi, do Amapá, começou a estampar selos dos Correios. O lançamento do 'Selo Postal Arte Indígena Kusiwa Wajãpi' aconteceu  na sede do Iphan, em Brasília e ficará em circulação até 31 de dezembro de 2017.

Os Wajãpi do Amapá constituem um grupo remanescente de um povo que já foi muito mais numeroso, subdividido em vários grupos independentes e que a população total foi estimada em cerca de seis mil pessoas no começo do século XIX.

A etnia tem origem em um complexo cultural maior, de tradição e língua tupi-guarani, hoje representado por diversos povos, distribuídos entre vários estados do Brasil e países adjacentes. Até o século XVII, os Wajãpi viviam ao sul do rio Amazonas, numa região próxima da área até hoje ocupada pelos Asurini, Araweté e outros, todos falantes de variantes dessa mesma família linguística.

A Terra onde vivem os Wajãpi, no Amapá, foi demarcada e homologada em 1996, e é uma área muito preservada, onde vivem cerca de 1,1 mil indígenas, em 48 aldeias.

A arte nas tribos

A Arte Kusiwa está vinculada à organização social, com uso adequado da terra indígena e o conhecimento tradicional. Os indígenas usam composições de padrões kusiwa nas costas, outros na face, outros nos braços. A pintura é cotidiana.

Os grafismos também podem ter como suporte cestos, cuias, tecelagem, bordunas e objetos de madeira. Os padrões Kusiwa representam animais, partes do corpo ou objetos e estão carregados de significados e simbolismo. Constituem um sistema de comunicação e uma linguagem gráfica que remete à cosmologia e visão de mundo dos Wajãpi. Para a elaboração das tintas, são utilizadas sementes de urucum, gordura de macaco, suco de jenipapo e resinas perfumadas.

Através dos séculos, os Wajãpi desenvolveram uma linguagem única, formada por componentes gráficos e orais, que reflete sua visão de mundo e constitui um conhecimento específico sobre a vida em comunidade. A Arte Kusiwa faz também referência à criação da humanidade e a diversos mitos Wajãpi.
Selo Postal Wajãpi

Os múltiplos significados nos níveis sociológico, cultural, estético, religioso e metafísico indicam que a importância da Arte Kusiwa extrapola o seu lugar de arte gráfica e, efetivamente, engloba o vasto e complexo sistema que envolve sua maneira específica de compreender, perceber e interagir com o universo.

A Arte Kusiwa
Pintura corporal Wajãpi

Pintura Corporal e Arte Gráfica Wajãpi foi inscrita no Livro de Registro das Formas de Expressão, em 20 de dezembro de 2002, como Patrimônio Cultural do Brasil. No ano seguinte, recebeu da Unesco o título de Obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade.

Pirahã

Toy art Pirahã

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
170PirahãMura PirahãMurá

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AM420Funasa 2010



O povo Pirahã chamou a atenção da comunidade mundial por conta da descoberta que eles desconhecem o conceito de numero, "Eles estão tão afastados da sociedade industrializada moderna quanto se pode imaginar", disse Daniel Everett, pesquisador da Bentley University, em Massachusetts, Estados Unidos. Everett morou com os Pirahã como missionário e, depois, como pesquisador no campo da linguística.

Se auto denominam hiaitsiihi (categoria de seres humanos/corpos diferentes dos brancos e dos demais índios). São conhecidos pelo sistema vasto de nomeação que recebem, diretamente ligado com a cosmologia, sendo que antes mesmo de nascer já recebem um nome, acreditando que esse é o responsável pela formação do corpo, após o nascimento eles passam por diferentes nomeações de seres que habitam camadas superiores e inferiores, os mesmos que são responsáveis pela criação da alma e do destino de cada um, até mesmo dos inimigos de guerra. São descendentes dos Mura e vários fatos históricos os ligam diretamente, é muito difícil falar de um sem falar do outro, sendo que consideram os Pirahã os descendentes modernos dessa civilização. Hoje contam com cerca de 420 indivíduos, de acordo com um senso feito pela FUNAI em 2010.

  Os próprios Pirahã se referem a sua língua como Apaitsiiso (aquilo que sai da cabeça), que é classificada na família linguística Mura. É uma língua tonal, pois pode ser comunicada de várias formas possíveis, como assobios, gritos, entre boca e qualquer forma que a situação pedir. Os gritos são normalmente utilizados para comunicação em viagens marítimas, sendo mais fácil alcançar a outra canoa quando gritam. Os assobios podem ser utilizados na mata, para não trair sua posição. A maioria dos homens entendem o português, mas não o pronunciam bem, utilizando palavras no próprio dialeto para se expressar com os regionais, ao contrário das mulheres, que não entendem e muito menos sabem pronunciar o português.

  Os primeiros contatos com o homem branco é datado apenas em 1920. São retratados como índios pacíficos, mesmo com toda invasão de território que sofreram e todo o abuso que o homem civilizado infringiu a eles. Apesar de todo o contato, eles ainda conseguem manter a cultura tradicional, sem prejuízo dos conhecimentos ancestrais. Os Pirahã estão localizados no Amazonas, mais especificamente nas margens do rio Marmelos, que é de grande importância em relação a ocupação das terras, pois esse rio tem as épocas de cheia e de seca, o que influência diretamente no local ocupado pelos Pirahã. Subindo o Rio Maci encontra-se uma das principais praias de habitação, pois dão acesso aos dois rios. O território dos Pirahã acabam de encontro com o Rio Sepoti. Essa demarcação de terra foi feita em 1994, somando as regiões temos uma marca de aproximadamente 400 mil hectares em um perímetro de 410 quilômetros.

  A organização social deles é feita baseada nas duas épocas climáticas bem delimitadas daquela região. Eles vivem em diversos agrupamentos, em duas áreas diferentes, uma no alto e outra no baixo Maiti, mudando de região e agrupamento dependendo da estação atual. Os diversos agrupamentos feitos nessas duas regiões são distantes uns dos outros, sendo independentes entre si, havendo pouco ou quase nenhum contato entre residentes de um agrupamento com o outro. Todas as relações sociais, como casamentos e rituais são feitas dentro do próprio agrupamento.

  A cosmologia é algo muito interessante e é representada de modo estratigráfico, que são camadas de terra uma encima da outra, produzindo diversos planos paralelos que não tem comunicação um com o outro. Todos os patamares são designados como migi (terra), mas são diferenciados pelas estruturas morfológicas e pelos seres que os habitam. Os próprios Pirahã não sabem dizer quantos patamares existem, mas entram em um consenso que o mínimo de patamares para existir essa cosmologia são cinco. Os seres humanos estão no meio desses patamares e são chamados de ibiisi. Uma das características peculiares desse povo é a nominação, eles recebem nomes desde o ventre até a morte, cada nome representando e sendo responsável por uma das camadas, sendo responsável pela alma, destino em vida e até o destino após a morte de cada ser.

Mulher Pirahã com seus filhos

  Os rituais tem como objetivo o contato com o sobrenatural e são subdivididos em dois grupos: xamanismo e festa, o primeiro é um ritual privilegiado pela sociedade quando o segundo é considerado apenas algo complementar. Com o Xamanismo eles conseguem contato com as camadas superiores e inferiores, conseguindo novas nomeações e contato com os mortos. O objetivo das festas pequenas é fazer barulho para atingir a segunda camada, pois é lá que Igagai se encontra e os Pirahã tem muito medo de não serem ouvidos e encontrados por essa divindade por ser o responsável pela destruição do mundo pelo fato de não conseguir encontrar esse povo. Os rituais normalmente são feitos em noite de lua cheia por estar ligada com Igagai. 

Arara

Toy Art Arara

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
15AraraArara do Pará, UkaragmaKarib

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
PA363Siasi/Sesai 2012



Os Arara ficaram famosos por sua belicosidade e pelos troféus que capturavam dos corpos dos inimigos - cabeças para flautas, colares de dentes e escalpos de face. Mas há muito tempo também que sua facilidade de interação com o mundo exterior, e mesmo para a incorporação de estranhos ao mundo nativo chama atenção para outros aspectos de seu modo de vida. A superposição virtual entre a paixão guerreira e a disposição constante para o estabelecimento de relações solidárias e generosas parece ter sido uma marca de um mundo Arara que hoje cede o passo às relações de contato com o mundo dos brancos.

Um mito de origem do mundo terreno explica o padrão de dispersão territorial que historicamente os Arara mantinham no interflúvio Tapajós-Tocantins.

Originado num cataclismo celeste causado por uma enorme briga entre parentes, o mundo terreno foi o palco de um acordo político entre aqueles que, por serem causadores da tragédia inaugural, foram condenados a viver no chão. A divisão em pequenos subgrupos, independentes e autônomos, mas integrados numa rede de prestação intercomunitária, sobretudo para as temporadas de caça e festas, teria sido estabelecida como uma espécie de pacto a garantir a não repetição dos conflitos que deram origem à vida terrena. Também o etnônimo de que se servem tem relação com o mito de origem: Ukarãngmã - quase que literalmente "povo das araras vermelhas"- é como se denominam, numa referência à participação que aqueles pássaros teriam tido logo após a tragédia que deu origem ao mundo terreno. No mito, foram as araras vermelhas que tentaram levar de volta aos céus muitos dos que de lá caíram.
Etnia Arara - foto Bita Carneiro 1981

Falantes de uma língua da família Karib, os Arara pertencem à mesma sub-família dialetal - também chamada de Arara - que incluía os Apiacá do Tocantins (extintos), os Yaruma (extintos) e os Ikpeng, hoje no Parque Indígena do Xingu, povos que viviam dispersos por um amplo território que abarcava todo o vale do alto e médio Xingu e o rio Iriri. Em termos geográficos, os povos indígenas desta sub-família Arara ocupam uma posição geográfica intermediária em relação às maiores concentrações demográficas de falantes de línguas da família Karib: o maciço das Güianas e os formadores do alto rio Xingu.

Entretanto, a região dos rios Ronuro, Batovi, Culiseu, Culuene (justamente os formadores do rio Xingu, hoje área do Parque Indígena homônimo) é o lugar mais provável da dispersão original dos povos desta sub-família dialetal. Seu deslocamento pela bacia do Xingu parece ter coincidido com um movimento migratório Kayapó, que partiu dos campos do rio Araguaia em meados do século passado e atingiu a região do médio Xingu já no início deste século.

Toda a região entre o Tapajós e o Tocantins (e particularmente o vale do Xingu) parece ter sido um lugar de movimentação constante de grupos indígenas, até o início do segundo quartel deste século, quando levas migratórias oriundas do nordeste brasileiro começam a alterar a dinâmica demográfica da região afetando as populações indígenas já ali instaladas.

Narrativas míticas Arara apontam a margem direita do Xingu como o lugar onde tudo teria começado: a formação do mundo atual, a geração do povo Arara, a dispersão dos subgrupos e o início dos conflitos com os inimigos "tradicionais". Dados históricos confirmam o trânsito dos Arara por entre as duas margens do médio rio Xingu até a fixação na sua margem esquerda, junto ao rio Iriri, depois de cruzarem o Xingu já abaixo da "Volta Grande", por volta de meados do século XIX. Tanto informações históricas - como as referências a conflitos com caçadores e trabalhadores em obras públicas - quanto a memória dos velhos Arara apontam para a região próxima a Altamira, já abaixo da foz do rio Iriri, como o lugar da maior concentração de assentamentos de subgrupos Arara no passado.

Ocupando a região do divisor de águas, entre o oeste Xingu, o leste do Tapajós e o sul do baixo Amazonas desde meados do século XIX, os Arara tinham à sua disposição recursos naturais oriundos da bacia do Xingu e também das águas que correm para o Amazonas.

Já na sua expedição ao Xingu, em 1896, o viajante Henri Coudreau mencionava a existência dos "Araras bravos" -subgrupos então sem qualquer contato com o branco - à esquerda do Xingu, na região entre o rio Curuá (à esquerda do alto rio Iriri) "até não longe do Amazonas". Lugar estratégico de multiplicação das possibilidades de adaptação ecológica e da otimização da utilidade dos recursos diversos que caracterizam as bacias do Xingu e do Amazonas, o divisor de águas permitia a cada grupo local, dependendo de sua localização particular, diferenças sutis quanto ao padrão de utilização de matérias-primas desigualmente distribuídas no território (as tabocas para flechas, as palhas para trançados e cestarias, e a maior ou menor ocorrência das palmeiras de inajá para a extração de uma bebida típica, etc). Ao mesmo tempo, o divisor de águas dava aos Arara o acesso a territórios de caça diferenciados e, por isso, mais produtivos em função das diferenças entre as estações de seca e chuva durante o ano.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Kamayurá

Toy Art Kamayurá

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
80KamayuráKamayuráTupí-Guaraní

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
MT467Ipeax 2011



Os camaiurás (também kamaiurás ou kamayurás) constituem uma etnia indígena brasileira. Habitantes do Parque Indígena do Xingu, às margens da zona de confluência entre dois importantes rios da microbacia xinguana, os camaiurás pertencem ao grupo étnico e linguístico tupi-guarani, estando inseridos na zona cultural do Alto Xingu.

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Os camaiurás possuem um sistema tradicional caracterizado pela heterogeneidade, fruto do intenso processo de matrimônio intertribal e dos enérgicos laços de coesão que mantêm com outras sociedades indígenas do mesmo espaço geográfico.

Entre os indígenas do grupo, vigora um sistema de organização civil peculiar, caracterizado por um único complexo de imensas ocas comunitárias circularmente dispostas ao redor de um terreiro público. Tal espaço, formado a partir da convergência de quatro vias principais, destina-se à celebração dos ritos e tradições referentes à cosmologia do povo. As habitações, primordialmente constituídas por taquaras e palha, podem chegar a trinta metros de comprimento e abrigar várias famílias, segundo a ancestralidade que possuam.

A sociedade, embora rigidamente patriarcal, não menospreza o papel feminino, encarregando as mulheres da tutela dos filhos, manutenção da ordem doméstica, plantio e colheita das raízes comestíveis e preparação dos alimentos, enquanto compete ao homem a obtenção protéica e a limpeza da roça na qual será plantada a mandioca.

Localização

À altura do primeiro contato não indígena, liderado pelo etnólogo alemão Karl von den Steinen, em 1886, os camaiurás encontravam-se em estágio final de sedentarização, assentados nas proximidades da lagoa de Ipavu, onde permanecem até hoje. Segundo relatos tradicionais, amplamente aceitos entre os indígenas, o povo viria do Wawitsa, localizado na zona mais setentrional do parque. A região, onde desembocam os principais afluentes da bacia do Xingu, possui espaço de destaque na cosmologia do grupo étnico.

Organização Fisica

As estruturas habitacionais camaiurá possuem influências insignes do estilo arquitetônico alto xinguano, podendo atingir até trinta metros de extensão e dez metros de altura. Com uma estrutura de madeira e taquaras majoritariamente revestidas de sapê ou folhas de palmeira, as ocas gozam de estatuto coletivo, não apresentando quaisquer tipos de divisões internas. Marginalmente ao centro da habitação, de onde se projeta uma única coluna de madeira, aglomeram-se as famílias do clã, enquanto que os ambientes mais internos são destinados à estocagem do alimento e à manutenção da fogueira.

A aldeia, por sua vez, constitui um único núcleo de povoamento, formada de uma praça (língua camaiurá: hoka´yterip) central em cujo entorno se erguem as palhoças, numa distribuição circular. Nuclear à hoka´yterip, ergue-se a casa das flautas, onde se acondicionam as flautas utilizadas em rituais xamânicos. O acesso a tal estrutura, bem como a utilização das flautas, é restrito aos homens da aldeia, imputando às mulheres que descumprem tal proibição a pena de estupro coletivo.

Casa antropomorfa Kamayurá

A casa é típica da etnia, que vive no Xingu. Ela consiste em uma estrutura oval de 8 metros de largura, 12 de comprimento e 6 de altura, com três pilares centrais. A oca já era construída há muitas décadas como parte da tradição dos Kamayurás e Yawalapitis, mas para a construção desta oca, em específico, um projeto foi criado por Aiupu Kamayurá, que é arquiteto e ministra algumas aulas da disciplina “Construção do Saber”, na Universidade de Brasília, UnB.

Casa Antropomorfa Kamayurá - as partes da casa são diretamente relacionadas com as partes do corpo

Anuiá, que é filho de Aiupu, conta que para fazer uma oca desse porte são necessários 13 homens, que vão trabalhar durante cerca de 15 dias. “Mesmo com o atraso de três dias por causa do material, acho que vamos conseguir terminar a oca a tempo”, diz Anuiá. Na aldeia Yawalapiti no Xingu existe uma oca principal, chamada por eles de casa grande. Esse espaço é usado para dormir, comer e confraternizar. Essa oca tem 12 metros de largura, 30 metros de comprimento e 10 metros de altura e comporta cerca de oito famílias.

Segundo Anuiá, estão sendo utilizados bambus, pregos, madeira de eucalipto, palha e arame na construção desta oca. São cerca de 48 tocos de eucalipto, três troncos maiores, além de mais de 13 mil palhas para a cobertura. Nas casas feitas na aldeia do Xingu, os Yawalapiti usam outros materiais, como imbira (uma espécie de amarra) e sapé (uma palha específica encontrada por lá).

O irmão de Anuiá, Wally, está aprendendo com o pai um pouco sobre arquitetura e explicou como é a estrutura da oca e as etapas da construção. Segundo ele a base começou a ser feita no sábado e consiste nos três pilares centrais, os 48 tocos em volta e os troncos mais finos de eucalipto, que  vão até o topo. Com a chegada dos materiais, as mulheres ajudaram a descascar as madeiras para continuar a construção.

Depois dessa base, os troncos mais finos são amarrados às chamadas “costelas” da oca, que sustentam a palha e também servem para amarrar as redes, quando ficar pronta. São no total quatro ou cinco costelas horizontais que unem todos os eucaliptos, dando à oca o formato oval. Quanto mais alta a costela, menor ela é. No final, é feito o acabamento da estrutura e depois as palhas são trançadas, de baixo para cima.

Trabalho

O trabalho começa cedo, às 7h30 da manhã. Eles param para o almoço e um pequeno descanso e, à tarde, retornam ao trabalho. Na construção da oca, o trabalho das mulheres é diferente do feito pelos homens. Elas ajudam descascando os troncos e fazendo a comida. Os homens trabalham diretamente com a construção, levantando toda a estrutura da casa.

Ao entardecer, quando o sol desce, eles encerram o trabalho e se preparam para as atividades da noite. Por volta de oito horas, os Kamayurás jantam e, sob o céu estrelado, realizam seus cantos e rituais. 

Hábitos culturais

A admissão do jovem indígena na atmosfera adulta exige um período de clausura assistida, que, geralmente, inicia-se em virtude dos primeiros caracteres da puberdade. Durante o ciclo, os adolescentes são isolados numa estrutura habitacional específica, onde têm o contato social restrito à presença do pais e avós. Os que guardam tal parentesco, responsabilizam-se pela instrução produtiva do indígena, dando ênfase especial às atividades referentes ao sexo do adolescente e o modo de realizá-las. À ocasião, os garotos são educados sobre a prática do huka-huka, uma arte marcial ritualística frequentemente associada às festividades cosmológicas do povo.

Huka - Huka 


Embora, para as adolescentes, o início da reclusão esteja rigidamente relacionado à menstruação, para os entes masculinos requer o consenso mútuo entre seus pais. O processo de instrução prolonga-se por tempo indeterminado, e, não obstante a permanência feminina raramente se estenda por muito mais de um ano, os garotos podem espaçarem-se enclausurados por períodos até cinco vezes maiores, intercalados por breves acessos de liberdade. Durante a ocasião, as garotas têm seus joelhos amarrados por cordas fibrosas, de forma que a panturrilha se torne mais robusta pelo acúmulo de líquidos. De igual modo, são privadas de cortar o cabelo, fazendo com que, ao fim do rito, as longas madeixas da franja encubram parte de suas faces. Assim que a extensão capilar das adolescentes atinge a altura do queixo, estas são liberadas da clausura.

A duração média do rito se relaciona ao status hereditário que acompanha o jovem, de forma que um maior espaço recluso implica, proporcionalmente, um maior poder e importância entre os indígenas da aldeia. Ao fim da clausura, é dado um nome definitivo ao jovem, que vem a substituir o nome que recebeu em virtude do seu nascimento. O período marca, de mesmo modo, a aptidão aos ritos matrimoniais.

Preenchendo um espaço cultural notável, o infanticídio é, frequentemente, associado ao sistema cultural do povo, embora não possuam exclusividade na realização da prática. Os filhos de mãe solteira, possuidores de malformação congênita e gêmeos, são os principais alvos deste ritual, que, embora seja bastante enraizado no contexto de tradições do povo, gera divergências entre os próprios membros da aldeia. Os indígenas recém-nascidos, ao enquadrarem-se em qualquer dos motivos supracitados, são, geralmente, soterrados ainda vivos, embora também possam serem executados por afogamento. Atualmente, algo em torno de trinta crianças indígenas são mortas pelos camaiurás todos os anos, não obstante a FUNAI ofereça serviços de adoção das crianças rejeitadas.

Jogos e atividades lúdicas

O repertório lúdico dos indígenas camaiurá, caracterizado pela insigne diversidade de expressões performativas, apresenta-se sob a forma de brincadeiras e de jogos que gozam de notável popularidade entre os integrantes do grupo. Tais atividades, especialmente praticadas pelas crianças e homens da tribo, perfazem parte importante da vida cotidiana do povo, podendo, casualmente, envolver instrumentos específicos ao fim. Alguns destes utensílios apresentam mecanismos singulares, a exemplo de um curioso brinquedo infantil, que, produzido a partir de taquaras e fios de juta, atira um frágil jato d'água sob pressão.

Mojarutap Myrytsiowit: a brincadeira da cama de gato, como é conhecida em português, consiste na produção de figuras diversas utilizando-se de dois cordões fibrosos enrolados entre os dedos. As formas resultantes, geralmente geométricas ou antropomórficas, constituem um dos mais notáveis exemplos de produção criativa dos camaiurás, possuindo clara influência da cosmologia tradicional do povo.

Jawari: usando uma espécie de zarabatana, especialmente produzida para este fim, um grupo de competidores lançam artefatos pontudos em direção de uma cerca de varas previamente organizadas. Detrás da cerca, enfileiram-se os demais brincantes, de forma que esta funcione como escudo contra as lanças arremessadas pelos competidores. A medida que as lanças atingem os paus que formam uma parede pouco firme, os índios que estavam originalmente atrás desta parede devem desviar-se das setas, sem, contudo, moverem os pés.

Sociedade

A sociedade camaiurá organiza-se em hierarquias estamentárias bem definidas, caracterizadas pelo forte patriarcalismo e, geralmente, transmitidas pela hereditariedade. O chefe tribal, o cacique, representa o status máximo atingível dentro dos limites da aldeia, servindo aos papéis de mediador e regulador de conflitos entre os demais indígenas. O Pajé encarregado dos ritos xamânicos, por sua vez, concentra poderes políticos minimizados, não obstante traga consigo grande prestígio e apreço entre os integrantes da tribo. Em certos casos, um único indígena pode concentrar poderes místicos e políticos, o que aumenta ainda mais o renome do indivíduo.

Trajes femininos Kamayurá

Habitam em ocas familiares, que, usualmente, orbitam em torno de um grupo de irmãos que podem ou não estarem acompanhados por primos e ascendentes paralelos. O líder do espaço doméstico, conhecido como dono da casa (camaiurá: morerekwat), é o encarregado da distribuição dos afazeres cotidianos entre os clãs satélites. Existe, entre os integrantes da aldeia, uma forte tradição poligâmica, de modo que um elevado número de esposas indica, proporcionalmente, um maior status social. Ao marido, a aquisição de uma nova esposa exige, além da possibilidade de mantê-las em condições confortáveis, a permissão das já existentes.

Tradicionalmente, os jovens recém-casados devem residir por um período pré-estabelecido de tempo junto aos sogros, realizando favores em agradecimento à cessão da filha. Cumprido o acordo, o casal pode escolher em qual residência se estabelecer, que em geral é a casa de origem do marido.