sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Aikanã

Toy art Aikanã

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
1AikanãMassacá, Tubarão, Columbiara, Mundé, Huari, AikanáAikaná
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
RO328Siasi/Sesai 2012

A Terra Indígena em que hoje habita a maioria dos Aikanã não corresponde ao seu território tradicional (veja a lista de "Terras Habitadas" no menu à direita). Foram levados para lá pelo órgão indigenista em 1970, juntamente com outros dois povos indígenas. Dada a pouca fertilidade do solo, tiravam seu sustento da seringa, mas, devido à queda no preço desse produto, hoje encontram sérias dificuldades em sua reprodução física e cultural. Longe de se resignarem com essa situação, os Aikanã atualmente desenvolvem projetos de valorização cultural e procuram manter viva a língua por meio da formação escolar bilíngüe.
Comemoração da festa da menina moça na aldeia PIN Rio do Ouro, próximo a cidade de Chupinguaia/RO, num resgate da tradição da cultura Aikanã,que ha muito tempo não acontecia. Organizada pela Associação Massaka, tendo como membro as etnias Aikanã, Latundê e Kwaza. da terras indígena Tubarão Latundê

 Localização e demografia

Aikanã é o nome de um dos cerca de quarenta povos indígenas que habitam o estado de Rondônia, principalmente na conhecida região do Guaporé, nas chamadas ‘terras baixas’ da Amazônia. O Rio Guaporé é o principal divisor entre as fronteiras desse estado com a Bolívia.

Em 2005, a maioria dos Aikanã viviam em três aldeias na Terra Indígena Tubarão-Latundê, a eles designada pelo Incra em 1970. Essa área, de terreno arenoso e corroído pela erosão, fica no sudeste do estado de Rondônia, a cerca de 180 km da cidade de Vilhena e em torno de 100 km da fronteira do Brasil com a Bolívia. Os rios mais próximos são o Chupinguaia e o Pimenta Bueno, mas o acesso a eles é grandemente prejudicado. Há ainda muitos Aikanã vivendo em cidades próximas, principalmente Vilhena.

No primeiro contato feito com os Aikanã por esta pesquisadora, em dezembro de 1988, havia um total de 85 indivíduos. Em 2005, os Aikanã somavam cerca de 180 pessoas.
Os Aikanã vivem em três aldeias na Terra Indígena Tubarão-Latundê

História

Segundo informações dadas pelos próprios Aikanã, até à época de sua transferência, eles habitavam ricas terras nas proximidades do Tanaru, um dos rios menores da região, a oeste do Rio Pimenta Bueno.

Ao serem removidos para a atual Terra Indígena, foram levados com eles dois outros povos, ambos de número bastante reduzido, os Koazá (também grafado Kwaza), então conhecidos como Arara, e os Latundê. Vale ressaltar que estes eram povos diferentes, cada um trazendo sua cultura e falando sua própria língua. Em histórias de seus antepassados, os Aikanã descrevem os Koazá como ferozes guerreiros, perigosos feiticeiros e seus inimigos ferrenhos.

Segundo o antropólogo e pesquisador Price (1981), em 1940 o Serviço de Proteção aos Índios abriu um posto de atendimento em Igarapé Cascata, um afluente do Pimenta Bueno, e para lá foram levados vários grupos indígenas, dentre eles os Aikanã. Aí, então, sarampo e fortes gripes causaram a morte de um grande número de indivíduos, deixando esses grupos sensivelmente reduzidos. Tais fatos são confirmados pelos Aikanã mais antigos.

Ao que parece, os primeiros contatos mais estreitos de que se tem notícia entre os Aikanã e a população não indígena foram no início dos anos 1940, por meio do engenheiro geólogo Vitor Dequech, a quem tive a oportunidade de conhecer na década de 1990. Com uma equipe preparada para pesquisa de minérios enviada pelo General Rondon, entre 1941 e 1943, Dequech comandou a Expedição Urucumacuan, que percorreu a região em busca de possíveis jazidas de ouro no rio Pimenta Bueno e seus afluentes. Naquele período, manteve freqüentes contatos com os índios da região, inclusive os Aikanã – por ele referidos como “Massacá”, e documentou, com detalhes, todos os contatos e atividades que desenvolveu durante sua viagem. Este contato está registrado em antigos números do Jornal Alto Madeira, publicado naqueles anos em Porto Velho.

 Nome

Eles se auto-denominam Aikanã e chamam sua língua pelo mesmo nome. No entanto, são referidos por outros nomes na literatura existente. A referência mais antiga a eles feita com este nome é de Becker-Donner (1955:275-343, apud Cestmír Loukotka, 1968:163) em que os Aikanã são chamados de “Masaca ou Aicana”. Outro registro interessante é de Erland Nordenskiöld (apud Voort 2000), de 1915. De acordo com Voort, este etnógrafo foi o primeiro pesquisador a fotografar e a registrar a primeira lista de palavras da língua dos Aikanã, aos quais ele chamou de ‘Huari’. Outros nomes que este povo recebeu foram Corumbiara, Kasupá, Mundé e, por fim, Tubarão (Rodrigues, 1986:94).

Apesar das palavras Mundé e Mondé serem comumente usadas como nomes próprios masculino entre os Aikanã, eles não atribuem significado especial a este vocábulo. Existe um outro nome, Winzankyi, mencionado pelo ex-cacique Luíz Aikanã, que também se referiria ao povo Aikanã. Porém, não há consenso entre eles sobre tal denominação.

Embora o nome deste povo tenha sido grafado na literatura como ‘Aicana’, ‘Aikana’ ou ‘Aikaná’, a pronúncia dos próprios falantes é com a última vogal nasalizada: ‘Aikanã’.

A respeito das denominações dos Aikanã, observe-se que Huari não deve ser confundido com Wari (ou Orowari), que diz respeito aos Pacaás-novos, da família Txapakura. Veja-se tambem que, apesar da semelhança no registro dos nomes Mundé e Mondé, tais termos não estão aqui associados à família linguística Mondé, do Troco Tupi.

Lingua Aikanã

Em Aikanã, língua isolada de Rondônia, a expressão do tempo futuro verbal obrigatoriamente envolve dois marcadores pessoais no verbo, que concordam gramaticalmente em número com o sujeito do verbo, mas não necessariamente em pessoa. no entanto, ainda que essa concordância não ocorra no nível gramatical, será demonstrado que os marcadores concordam em pessoa no nível discursivo. Esse tipo de construção, semelhante a construções modais e temporais em certas línguas vizinhas, tem uma base cognitiva concreta na gramática e na semântica da língua, envolvendo citação fictícia.

na primeira seção do artigo, serão brevemente descritos o contexto geográfico e étnico do povo Aikanã, a sua história pós-contato, a história da documentação e do estudo da língua, e também as fontes bibliográficas relevantes. A última parte representa um pequeno esboço preliminar da língua. nas seções dois e três, serão discutidas a construção do futuro em Aikanã, as hipóteses sobre a sua origem e construções parecidas em línguas da região e de outras partes do mundo. A última seção apresenta uma conclusão.

Aikanã é uma língua indígena de Rondônia, falada por aproximadamente 175 das 200 pessoas que se identificam etnicamente como Aikanã. Ainda não foi possível comprovar qualquer relacionamento genealógico com outras línguas. Consequentemente, Aikanã deve ser considerada como geneticamente ‘isolada’ (Vasconcelos, 2002; van der Voort, 2005). Mesmo que, pelo baixo número de falantes, a língua esteja seriamente ameaçada de extinção, é ainda falada pela maioria do povo e também transferida para as gerações mais novas. Se a autoestima do povo melhorar, o reforço de programas educacionais modernos for garantido e a sociedade envolvente mostrar respeito ao modo de vida e ao habitat dos Aikanã, a sua língua pode continuar viável.

O território tradicional dos Aikanã, nas cabeceiras do rio Pimenta Bueno, abrangia uma parte considerável do sudeste do estado, e os vizinhos tradicionais eram os Kanoê e Kwazá (também de línguas isoladas), Salamãi (Tupí, Mondé), Mekens e Wayoró (Tupí, Tuparí), Kepkiriwat (Tupí, extinto) e Latundê (nambikwára do norte). Provavelmente, houve contatos esporádicos com povos das cabeceiras do rio Branco também, como os Tuparí (Tupí, Tuparí), Arikapú e djeoromitxí (Macro-Jê, Jabutí).

Os Aikanã são conhecidos por nomes diferentes: Aikanã, Massacá, Kassupá, Huarí, Corumbiara, Mondé, Tubarão e há ainda outras designações. Porém, a autodenominação é geralmente Aikanã; por serem descendentes de certos subgrupos históricos, também se autodenominam Kasupa, Masaka ou Munde. As esparsas amostras da língua registradas sob esses nomes sempre revelam o Aikanã. A primeira menção aos Aikanã foi feita nas obras da Comissão Rondon: Rondon e Faria (1948) apresentam um mapa desenhado com base em informações dadas por um cacique Kepkiriwat em 1913, onde os Aikanã aparecem sob o nome Uapuruta, que representa o subgrupo antigo dos Waykuruta1. O primeiro registro do povo Aikanã, com fotografias e uma amostra da língua nativa, foi feito em 1914, pelo etnógrafo sueco barão Erland nordenskiöld. no seu livro de 1915, nordenskiöld descreve seu encontro com o povo Huarí nas cabeceiras do rio Corumbiara. O etnônimo Huarí lhes foi dado pelo (hoje extinto) povo Pauserna. Tanto os nomes pessoais quanto as 69 palavras dos ‘Huarí’ que foram publicados por nordenskiöld são praticamente idênticos àqueles dos Aikanã de hoje.

Provavelmente, os Aikanã tiveram contato com não índios antes da breve visita de nordenskiöld, mas as grandes mudanças culturais vieram logo depois, com a entrada do seringalista Américo Casara (Albert, 1964), que os empregou na sua indústria de borracha, poaia e outros produtos nativos da região. Ao que tudo indica, os Aikanã se davam relativamente bem com os não índios e prestavam também sempre bons serviços nas obras da Comissão Rondon, nos anos 1910; na Expedição Urucumacuan, nos anos 1940 (dequech, 1988-1993); na construção da BR- 364, nos anos 1960; e até hoje, em outras iniciativas do governo, atuando como membros de equipes indigenistas nas frentes de atração Massaco, Omeré e Tanarú, em Rondônia.

desde1973,amaioriadosAikanã(maisoumenos200indivíduos)estáreunidanaTerraIndígenaTubarão-Latundê (demarcada em 1983), perto de Chupinguaia, no sudeste de Rondônia. nessa área, os Aikanã convivem com uma parte dos últimos representantes dos povos Kwazá e Salamãi, e com os últimos Latundê. Também moram algumas famílias mistas de Aikanã e Kwazá na Terra Indígena Kwazá do rio São Pedro, que faz parte do território tradicional dos Kwazá. Além disso, há representantes ou descendentes dos Aikanã em cidades como Chupinguaia, Vilhena, Pimenta Bueno e Porto Velho. Um dos aspectos desastrosos do contato com os não índios foi a dizimação dos Aikanã, especialmente por doenças infecto-contagiosas, contra as quais não tinham resistência. Além disso, a perda de suas terras mais férteis e a aculturação forçada pelos agentes da cultura ocidental (madeireiros, missionários, funcionários do governo etc.) levaram à diminuição da transmissão da cultura indígena tradicional.

Historia de Pesquisa Linguistica

no começo do século XX, entre os anos 1920 e 1940, várias pessoas interessadas registraram amostras das línguas da região, inclusive do Aikanã; o anexo do relatório de Estanislau Zack (1943), funcionário do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), deve ser especialmente mencionado aqui2. nos anos 1950, alguns etnógrafos estrangeiros documentaram partes da língua e das tradições orais dos Aikanã, entre os quais Etta Becker-donner (1955) e Wanda Hanke (1956). nos anos 1960, os missionários Willem Bontkes (1968) e Wilbur Pickering (1968) fizeram pequenos vocabulários da língua3. Preparando a demarcação da sua área indígena, antropólogos da Fundação nacional do Índio (FUnAI) investigaram a situação histórico- cultural dos remanescentes Aikanã4. Somente nos anos 1980 linguistas tomaram iniciativas sérias para estudar a língua Aikanã. Em 1984, Harvey Carlson esteve por dois meses entre esse povo, com a intenção de fazer um estudo abrangente da língua. A pesquisa não foi continuada, mas Carlson, que faleceu em 1994, deixou uma coleção de gravações em fitas e notas de campo na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos, que foi a base de um estudo preliminar de aspectos da língua5. nos anos 1990, a linguista brasileira Ione Vasconcelos fez um estudo da língua, que resultou em alguns artigos (Vasconcelos, 1996, 2005) e uma tese doutoral (Vasconcelos, 2002). Atualmente, várias pessoas, inclusive o presente autor, estão envolvidos em documentação e estudos abrangentes da língua e da cultura dos Aikanã.

A Lingua Aikanã

Com base em pares mínimos encontrados, pode-se supor que o sistema fonológico da língua abrange pelo menos dez vogais: /a, e, i, o, u, ü, ã, ẽ, ĩ, ũ/. neste artigo, será usada uma ortografia fonêmica prática. Os valores fonéticos dos símbolos não óbvios, conforme o International Phonetic Alphabet, são: /a/ [a], mas antes de [i], o [a] é sempre pronunciado como[ɨ]ou[ə];/e/[ε];/o/[ɔ];/ü/[y],eàsvezes[ø],/ã/[ã],masantesde[i]épronunciadocomo[ɨ]̃ ou[ə̃].

O sistema de consoantes contém 16 fonemas: /p, b, t, d, k, ʔ, h, ts, tx, m, n, ñ, r, w, z, y/. no início da palavra, o /ts/ é frequentemente pronunciado como [s], mas entre vogais é frequentemente [ts], com alguma variação livre com [s]. O /tx/ é geralmente [tʃ], mas [ʃ] foi observado também. O /ñ/ é [ɲ] ou [j]̃ . O /z/ é normalmente pronunciado como a fricativa [ð], e às vezes como laminal [z], e pode ser nasalizado entre vogais nasais, assemelhando-se a [n]. O /k/ às vezes recebe palatalização [kj] antes de [e]. O /y/ é pronunciado normalmente como [j], mas antes do [i] e [ø] é pronunciado como [ʒ].
A estrutura básica de sílabas é (C)(G)V(G). O acento principal recai geralmente na penúltima ou antepenúltima sílaba, mas existem alguns pares mínimos para acento.

Aikanã tem três classes principais de palavras: substantivos, verbos e advérbios, e é uma língua de grande complexidade morfológica; a maioria dos morfemas presos são sufixos de vários tipos. Os verbos são obrigatoriamente flexionados para sujeito, mas a terceira pessoa singular tem marcação zero. Os morfemas flexionais de pessoa não parecem ter uma relação etimológica muito forte com os pronomes pessoais ou possessivos, como mostra a Tabela 1.



A Tabela 1 está relativamente simplificada, pois existem talvez dez classes verbais diferentes de declinação e há ainda várias formas irregulares. As motivações semânticas e funcionais para todas essas classes ainda não estão bem entendidas e merecem uma pesquisa mais aprofundada. A língua também distingue morfologicamente vários modos, como declarativo, interrogativo e imperativo.
O uso de pronomes não é obrigatório e um verbo flexionado para pessoa e modo pode representar uma oração completa. Em orações complexas, cláusulas (co)subordinadas tendem a preceder a cláusula principal. nas cláusulas cossubordinadas, a marcação de referência trocada é obrigatória, indicando se o sujeito da cláusula seguinte será igual ou diferente.

Além de morfologia flexional, há várias categorias derivacionais. na língua, existe um sistema abrangente de classificadores. Também há morfemas direcionais, nominalizadores, morfemas que modificam a valência verbal, além de vários outros morfemas derivacionais. Substantivos não têm flexão obrigatória, e a maior parte da complexidade morfológica do Aikanã reside no verbo. Porém, substantivos podem ser morfologicamente bastante complexos devido à alta produtividade de nominalização.
Mesmo que não tenha sido possível comprovar uma relação genética com outras línguas (van der Voort, 2005), Aikanã é estruturalmente similar às duas línguas isoladas vizinhas, Kanoê e Kwazá, em muitos aspectos. Isso provavelmente deve-se à difusão areal característica da região (Crevels e van der Voort, 2008).

Marcação em tempo futuro dos Aikanã

Em Aikanã, a distinção básica na marcação de tempo é entre futuro e não futuro. O não futuro abrange os tempos de eventos no presente e no passado, e não é marcado morfologicamente. Os exemplos seguintes mostram a conjugação do verbo hari- ‘tomar banho’ no não futuro:

(1) hari-ka-ẽ banhar-1sg-dec
‘Tomei/Tomo um banho’ (4) hari-txa-ẽ
banhar-1pl-dec ‘Tomamos um banho’

(2) hari-me-ẽ banhar-2sg-dec
‘Tomas/Tomaste um banho’ (5) hari-mia-ẽ
banhar-2pl-dec ‘Tomais/Tomastes um banho’

(3) hari-ẽ banhar-dec7
‘Toma/Tomou um banho’ (6) hari-dukari-ẽ
banhar-3pl-dec ‘Tomam/Tomaram um banho’

O tempo futuro é marcado no verbo por uma combinação de flexão e derivação. no tempo futuro, o morfema derivacional -re- ‘FUTURO’ é inserido antes do morfema de pessoa (se houver uma). Além disso, o morfema de futuro é sempre precedido por um morfema de primeira pessoa8. Para facilitar o entendimento da construção, vale a pena comparar os paradigmas verbais completos. dos exemplos que vimos acima, as formas respectivas no tempo futuro são:

(7) hari-ka-re-ka-ẽ banhar-1sg-FUT-1sg-dec
‘Vou tomar um banho’ (10) hari-txa-re-txa-ẽ
banhar-1pl-FUT-1pl-dec ‘Vamos tomar um banho’

(8) hari-ka-re-me-ẽ banhar-1sg-FUT-2sg-dec
‘Você vai tomar um banho’ (11) hari-txa-re-mia-ẽ
banhar-1pl-FUT-2pl-dec ‘Vocês vão tomar um banho’
(9) hari-ka-re-ẽ banhar-1sg-FUT-dec

‘Ele vai tomar um banho’ (12) hari-txa-re-dukari-ẽ
banhar-1pl-FUT-3pl-dec ‘Eles vão tomar um banho’

nesses exemplos, então, independentemente da pessoa do sujeito, o tempo futuro exige um morfema adicional de primeira pessoa. Parece que há concordância entre esta primeira pessoa e a pessoa do sujeito com respeito a número:

no futuro de verbos, sujeitos singulares exigem marcação adicional de -ka- ‘primeira pessoa singular’ e sujeitos plurais exigem marcação adicional de -txa- ‘primeira pessoa plural’.

O uso de marcação adicional de primeira pessoa no tempo futuro parece redundante, pois o tempo futuro já é marcado pelo elemento -re- e o verbo já tem marcação de sujeito. É pouco provável que os elementos adicionais -ka- e -txa- fossem morfemas diferentes de marcadores de pessoa, mas, coincidentemente, homófonos a eles. Argumentos contra tal coincidência são a concordância sistemática com o número do sujeito e o fato de que isso exigiria não somente um, mas dois morfemas coincidentemente homófonos. Também não é provável que os elementos adicionados fizessem parte integral de elementos hipotéticos *-kare- e *-txare-9, sejam eles morfemas fossilizados de primeira pessoa ou não.

Tudo indica que os elementos adicionais no tempo futuro -ka- e -txa- são marcadores de primeira pessoa. na introdução deste artigo, foram mencionados paradigmas de flexão alternativos para diferentes classes verbais de declinação (ver Tabela 1). A expressão do tempo futuro em classes alternativas confirma e complica a análise. nota- se, por exemplo, o verbo hüʔa- ‘ser bom’, que é de uma declinação alternativa; no tempo não futuro, morfemas alternativos de pessoa são usados:

(13) hüʔa-di-ẽ bom-1sg-dec ‘Eu sou bom’
(16) hüʔa-txi-ẽ bom-1pl-dec
‘nós somos bons’
(14) hüʔa-me-ẽ bom-2sg-dec ‘Você é bom’
(17) hüʔa-meaza-ẽ bom-2pl-dec
‘Vocês são bons’
(15) hüʔa-ẽ bom-dec
‘Ele é bom’
(18) hüʔa-dukari-ẽ
bom-3pl-dec ‘Eles são bons’

no tempo futuro, os morfemas adicionais de primeira pessoa são também de declinação alternativa. Porém, surpreendentemente, os morfemas da declinação básica são usados para a parte da flexão própria do verbo:

(19) hüʔa-di-re-ka-ẽ bom-1sg-FUT-1sg-dec
‘Vou ser bom’
(22) hüʔa-txi-re-txa-ẽ
bom-1pl-FUT-2pl-dec ‘nós vamos ser bons’
(20) hüʔa-di-re-me-ẽ bom-1sg-FUT-2sg-dec
‘Você vai ser bom’
(23) hüʔa-txi-re-meaza-ẽ
bom-1pl-FUT-2pl-dec ‘Vocês vão ser bons’
(21) hüʔa-di-re-ẽ bom-1sg-FUT-dec
‘Ele vai ser bom’
(24) hüʔa-txi-re-dukari-ẽ
bom-1pl-FUT-3pl-dec ‘Eles vão ser bons’

A situação é similar em outras classes verbais. Compare, por exemplo, os tempos (não futuro à esquerda, futuro à direita) na classe que envolve prefixos:

(25) n-ãyüma-ẽ (26) 1sg-cheio-dec
‘Estou cheio’
(29) h-ãyüma-za-ẽ (30)
h-ãyüma-ẽ
2-cheio-dec ‘Estás cheio’
(27) ãyüma-ẽ (28) cheio-dec
ts-ãyüma-ẽ
1pl-cheio-dec ‘Estamos cheios’
n-ãyüma-re-me-ẽ
1sg-cheio-FUT-2sg-dec ‘Vais estar cheio’
ts-ãyüma-re-dukari-ẽ
1pl-cheio-FUT-3pl-dec ‘Vão estar cheios’
ura-tsa-ẽ
rir-1pl-dec ‘Estamos rindo’
ura-da-re-me-ẽ
rir-1sg-FUT-2sg-dec ‘Tu vais rir’
ura-tsa-re-dukari-ẽ
rir-1pl-FUT-3pl-dec ‘Eles vão rir’
2-cheio-pl-dec ‘Vocês estão cheios’
(33) n-ãyüma-re-ẽ 1sg-cheio-FUT-dec
ãyüma-dukari-ẽ (31) cheio-3pl-dec
‘Estão cheios’
Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 8, n. 2, p. 359-377, maio-ago. 2013
(34)
ts-ãyüma-re-txa-ẽ
‘Está cheio’ n-ãyüma-re-ka-ẽ (32)
1sg-cheio-FUT-1sg-dec ‘Vou estar cheio’
(35) ts-ãyüma-re-mia-ẽ (36) 1pl-cheio-FUT-1pl-dec 1pl-cheio-FUT-2pl-dec
‘Vai estar cheio’

Compare também a situação com verbos como ura- ‘rir’, que em Aikanã é reflexivo:

(37) ura-da-ẽ (38) rir-1sg-dec
‘Estou rindo’
(41) ura-(h)aza-ẽ (42)
rir-2pl-dec
‘Vocês estão rindo’
(45) ura-da-re-ẽ (46) rir-1sg-FUT-dec
‘Ele vai rir’
ura-a-i (39) rir-2sg-inT
‘Estás rindo?’
ura-ʔadukari-ẽ (43) rir-3pl-dec
‘Estão rindo’
ura-tsa-re-txa-ẽ (47) rir-1pl-FUT-1pl-dec
‘nós vamos rir’
ura-ʔa-ẽ (40) rir-3sg-dec
‘Está rindo’
ura-da-re-ka-ẽ (44) rir-1sg-FUT-1sg-dec
‘Eu vou rir’
ura-tsa-re-mia-ẽ (48) rir-1pl-FUT-2pl-dec
‘Vocês vão rir’
‘Vamos estar cheios’ ‘Vocês vão estar cheios’

A distribuição das flexões não básicas em tempos verbais diferentes implica várias coisas. Em primeiro lugar, serve de evidência para afirmar que os elementos que parecem morfemas redundantes de primeira pessoa realmente são morfemas de primeira pessoa; do contrário, teríamos que supor que existem ainda mais morfemas de tempo futuro além de *-kare- e *-tsare-, a saber: *-dire- e *-txire-; *n-re- e *ts-re-, entre outros. É pouco provável que exista tal quantidade de morfemas diferentes com formas parecidas para a mesma função.

Além disso, a distribuição da flexão alternativa em tempos verbais diferentes leva-nos a entender o seguinte sobre o sistema de flexão pessoal em Aikanã. Primeiramente, no tempo não futuro, o morfema de pessoa expressa três categorias gramaticais:

I pessoa do argumento referenciado (primeira, segunda, terceira);

II número do argumento (singular, plural);

III classe de declinação verbal (básica, alternativa etc.).

no tempo futuro, há mais uma quarta categoria expressa: tempo. nesse caso, o morfema de pessoa supostamente redundante (a primeira flexão) contribui para a expressão de:

II número do argumento (singular, plural);

III classe de declinação verbal (básica, alternativa etc.);

IV tempo (futuro, futuro remoto).

Consequentemente, no tempo futuro, a flexão própria do verbo, ou seja, a segunda ocorrência do morfema pessoal, é neutra com relação à classe verbal (pois é sempre uma forma básica), mas que expressa:

I pessoa do argumento referenciado (primeira, segunda, terceira);

II número do argumento (singular, plural).

Então, no tempo futuro, os dois morfemas de pessoa concordam entre si com relação ao número do argumento nuclear (sujeito ou objeto), mas somente o segundo corresponde também à pessoa do argumento nuclear.

Futuro Remoto

Além do futuro básico, existe outro morfema em Aikanã, -ta- ‘FUTR’, que expressa o futuro remoto. Este morfema ocorre no mesmo tipo de construção que -re- ‘FUT’ e ocupa a mesma posição dentro da palavra. O verbo huhu- ‘estar com vergonha’, que é um dos que exige flexões pessoais alternativas, serve para ilustrar o morfema do futuro remoto:

(49) huhu-di-ẽ (50) vergonha-1sg-dec
‘Estou com vergonha’
(53) huhu-mea-ẽ (54) vergonha-2pl-dec
‘Vocês estão com vergonha’
(57) huhu-di-ta-ẽ (58) vergonha-1sg-FUTR-dec
‘Vai estar com vergonha’
huhu-me-ẽ (51) huhu-ẽ (52) huhu-txi-ẽ vergonha-2sg-dec vergonha-dec vergonha-1pl-dec
‘Estás com vergonha’ ‘Está com vergonha’ ‘Estamos com vergonha’
huhu-dukari-ẽ (55) huhu-di-ta-ka-ẽ (56) huhu-di-ta-me-ẽ vergonha-3pl-dec vergonha-1sg-FUTR-1sg-dec vergonha-1sg-FUTR-2sg-dec ‘Estão com vergonha’ ‘Vou estar com vergonha’ ‘Vais estar com vergonha’
huhu-txi-ta-txa-ẽ (59) huhu-txi-ta-mia-ẽ (60) huhu-txi-ta-dukari-ẽ vergonha-1pl-FUTR-1pl-dec vergonha-1pl-FUTR-2pl-dec vergonha-1pl-FUTR-3pl-dec ‘Vamos estar com vergonha’ ‘Vocês vão estar com vergonha’ ‘Vão estar com vergonha’

A Origem da Construção Futura em Aikanã

Tendo identificado os elementos acrescidos a -re-‘FUT’ ou -ta- ‘FUTR’ como morfemas de primeira pessoa singular e plural, a próxima questão é: como explicar a ocorrência destes morfemas pessoais adicionais? Seriam ornamentos redundantes, vestígios de processos no desenvolvimento histórico da língua, hoje desconhecidos? Ou é ainda possível interpretar a construção sincronicamente? Perguntando aos falantes nativos sobre isso, eles não oferecem outra explicação a não ser:

 “É assim mesmo; a nossa língua é muito diferente do português”. Como os primeiros documentos da língua foram escritos há menos de cem anos, sabemos muito pouco sobre a história do Aikanã. E não está muito claro se, a partir do Aikanã contemporâneo, existe uma maneira de entender a construção. Porém, o fenômeno de dupla marcação de pessoa em certos tempos e modalidades também existe, e faz sentido, em outras línguas, inclusive algumas línguas do sul de Rondônia, como Kwazá e Wari’.

A Construção Citativa em Kwazá

na língua Kwazá, uma língua vizinha com 25 falantes, a marcação recursiva de pessoa é característica para citação de fala (van der Voort, 2002, 2009). Em Kwazá, quase toda citação de fala é direta e envolve tanto a perspectiva da pessoa falante quanto da pessoa que faz a citação, sendo expressada no verbo por morfemas pessoais. A construção citativa de Kwazá é ilustrada pelos seguintes exemplos10:

(61) kukuihɨ-̃da-ki doente-1sg-dec
‘Estive/estou doente’
(64) kukuihɨ-̃da-ki=da-ki doente-1sg-dec=1sg-dec
‘Falo/falei que estive/estou doente’
(62) kukuihɨ-̃xa-re=da-ki doente-2-inT=1sg-dec
‘Perguntei se você está doente’ (liT: “Eu falei: ‘Você está doente?’”)
(65) kukuihɨ-̃xa-ki=xa-ki doente-2-dec=2-dec
‘Você fala que eu estou doente’ (liT: “Você fala: ‘Você está doente’”)
(63) tokoiri-da-ki=Ø-tsε cansar-1sg-dec=3-dec
‘Elai fala que elai está cansada’ (liT: “Ela fala: ‘Estou cansada’”)
(66) tokoiri-Ø-ki=Ø-tsε cansar-3-dec=3-dec
‘Elai fala que elaj está cansada’ (liT: “Ela fala: ‘Ela está cansada’”)11

A construção citativa em Kwazá não envolve um verbo ‘dizer’. Pode-se imaginar que isso existia historicamente e que mais tarde tal verbo foi omitido, enquanto as flexões de pessoa e modo foram preservadas, só que em uma segunda camada flexional cliticizada ao verbo que, por sua vez, já era flexionado. A estrutura da construção citativa pode ser representada na seguinte maneira:

(67) [[verbo-pessOa-mOdO]=pessOa-mOdO] evento citado evento de citação
A construção citativa do Kwazá não é usada somente para citação de fala, mas também para comunicar modalidades, como desiderativo, dubitativo, preventivo e até um tipo de tempo futuro. A expressão do tempo futuro canônico em Kwazá é diferente de Aikanã, e envolve um morfema só, -na- ‘FUT’:

(68) ε-xa-re ir-2-inT
‘Você foi/está indo embora?’
(69) ε-nã-xa-re ir-FUT-2-inT

‘Você vai/ quer ir embora?’

Fala fictícia fossilizada: o tempo futuro em Aikanã
Existe uma maneira alternativa de expressar o futuro, envolvendo o modo volitivo, encaixado numa construção citativa interrogativa12:

(70)ε-da-mɨ=̃xa-re ir-1sg-vOl=2-inT
‘Você está indo embora?’

É possível considerar este exemplo como citativo, interpretando-se literalmente: “Você falou: ‘Eu vou embora!’?”. Porém, é mais provável que se faça esta pergunta a alguém que mostre sinais de estar querendo ir embora, mas que não necessariamente falou εdamɨ̃ ‘Vou-me embora!’. A mesma construção é usada também com sujeitos que não têm fala humana, como animais:
(71)tãlo-nã-tsε (72)tãlo-da-mɨ=̃tsε raiva-FUT-dec raiva-1sg-vOl=dec ‘Vai ficar/está ficando bravo!’ ‘Está ficando bravo!’

Os exemplos tratam da situação na qual o falante que faz a citação avisa ser perigoso se aproximar de um cachorro, o que dá para perceber, por exemplo, porque o cachorro está rosnando ou está mostrando os dentes. Apesar de cachorros não falarem, o exemplo (72) significa literalmente: “Ele falou: ‘Eu vou ficar bravo!’”. Os seguintes exemplos mostram que, na construção citativa, nem é exigido que o sujeito seja animado:

(73)awe-nã-tsε (74)awe-da-mɨ=̃tsε chover-FUT-dec chover-1sg-vOl=dec ‘Vai chover’ ‘Está querendo chover’

Processos inanimados, como ‘chover’, nunca se anunciam por meio de fala direta, mas, mesmo assim, são comumente representados desta maneira nas estruturas gramaticais de Kwazá. Então, gramaticalmente, os exemplos mostram citação de fala, mas pragmaticamente não é necessário que alguma coisa tenha sido dita. de fato, exemplos como (74) sugerem que nessa combinação os morfemas flexionais da primeira pessoa e do volitivo estão perdendo os seus valores pessoal e modal, sendoreanalisados,fossilizando-sejuntosparaviraremumsómorfemaderivacional:-damɨ-̃ ‘querer/futuroimediato’13.

Como foi visto mais acima, a construção citativa em Kwazá é muito produtiva na fala direta, e pode envolver qualquer pessoa e qualquer modo. Mas a construção se espalhou na gramática, assumindo funções não claramente citativas, como os últimos exemplos mostraram. Isso provavelmente levou ao surgimento de novos morfemas de modalidade, resultantes de antigos morfemas de modo.
Outro caso de desgramaticalização em andamento parece ser o morfema flexional modal exortativo -ni:

(75) kawe kui-ni
já beber- exh
‘deixa ele tomar café!’
Provavelmente, a construção citativa levou ao surgimento de um novo morfema derivacional com valor final (aqui
chamado ‘causacional’) -nĩ:
(77) kurakura ja-dɨ-da-ki ũi-nĩ-da-ta
galinha comer-caU-1sg-dec deitar-caUs-1sg-csO
‘Estou dando comida às galinhas para elas dormirem (logo)’
(liT: “Estou dando comida às galinhas, falando: ‘deixa elas dormirem!’”)
Em Kwazá, o elemento derivacional -heta- ‘desideRaTivO’ nunca ocorre no final do verbo, posição canônica dos morfemas de modo. Porém, é possível que -heta- tenha sido um morfema de modo numa fase anterior da língua, o que é sugerido pela dupla marcação de pessoa:
(78) txa kui-da-heta-xa-re
chá beber-1sg-desi-2-inT
‘Você está com vontade de tomar chá?’ (liT: “Vocêi quer: ‘Eui tomo chá?’”)

Provavelmente, o morfema *-heta perdeu sua produtividade como flexão de modo e, consequentemente, sua posição final, mas o seu encaixamento numa estrutura citativa com dupla marcação de pessoa foi preservado e é ainda produtivo. O morfema -heta- ocorre somente em construções de dupla marcação de pessoa e, mesmo que não seja (mais) um morfema de modo, as construções em que ocorre fazem sentido somente se interpretadas como citativas.

Consequências para a Explicação da Natureza  do Futuro em Aikanã

Vimos que em Kwazá há uma construção gramaticalmente citativa que não é necessariamente usada para citação literal de fala. Além de citação própria, a construção citativa contribui para a expressão de outras funções gramaticais, como futuro imediato, final/causal e desiderativo. nestas funções, a citação de fala pode ser considerada como uma metáfora para intenções, desejos, pensamentos etc. Esse fenômeno é encontrado em muitas línguas do mundo e é chamado de citação fictícia, ou interação fictícia em literatura recente (Pascual, 2002, 2006). Observe o seguinte exemplo do português:

(79) Ele se achava o máximo e agiu tipo: ‘Sou o melhor’.
(76) ja kui-ni=da-ki
já beber- exh=1sg-dec
‘Já deixei beber’ (liT: “Já falei: ‘deixa ele beber!’”)
369

Fala fictícia fossilizada: o tempo futuro em Aikanã nas línguas indo-europeias como português, inglês, holandês e outras, a interação fictícia geralmente é uma maneira considerada informal para expressar reflexões e intenções14.

Ela representa uma alternativa às construções mais formais que expressam evidencialidade, finalidade, condicionalidade etc., por meio de cláusulas subordinadas e conjunções ou advérbios dedicados. Uma perífrase mais formal do exemplo anterior pode ser:
(80) Ele se achava excelente e pareceu pensar que era o melhor.

nessas línguas, a citação fictícia pertence aos registros informais e não é característica, por exemplo, da língua escrita. Em várias línguas indígenas de outras partes do mundo, citação fictícia não tem esta conotação informal e tende a ser gramaticalizada como uma ou, às vezes, a única maneira de expressar certas modalidades e tempos15. É o caso de Kwazá e, aparentemente, também de Aikanã.
Para citação de fala, existem em Aikanã construções sintáticas que envolvem o verbo ‘falar’ e um complemento nominalizado, ou uma sentença justaposta, expressando a citação. Estas construções não servem para indicar outras modalidades metaforicamente. Porém, a dupla marcação de pessoa que caracteriza a construção do tempo futuro em Aikanã somente faz sentido se for interpretada literalmente como citativa. Então, o significado original do exemplo (8), hari-ka-re-me-ẽ ‘Tu vais tomar um banho’, deve ser entendido literalmente como “Tu falaste: ‘Tomarei um banho’”. note que a interpretação citativa não é muito produtiva em Aikanã; não há encaixamento da perspectiva de outras pessoas além da primeira, nem de modos diferentes. A construção serve somente para tempo futuro, o que explica que a dupla marcação de pessoa envolve somente aqueles morfemas da primeira pessoa como morfemas adicionais.

Tempo Futuro em Citação em Wari

Construções similares às de Aikanã e Kwazá foram atestadas em Wari’, uma língua da família Txapakura com aproximadamente 2.000 falantes no oeste de Rondônia. Em Wari’, ambos o tempo futuro e a citação de fala direta envolvem uma construção citativa produtiva. Os seguintes exemplos ilustram que a construção citativa em Wari’ tem estas duas interpretações:

(81) mao ta’ ma? (Everett e Kern, 1997, p. 321) ir.sg 1sg.RF 2sg.Rp/p
‘Você vai?’
(liT: “‘Eu vou’, você (fala)?”)
14 A tradução do exemplo (74) mostra que até o futuro imediato de processos inanimados pode ser expresso em português por meio de interação fictícia.
15 de fato, a hipótese de Esther Pascual, apresentada em conferência no Cognitive Science Colloquium (Case Western Research University, Ohio, Estados Unidos, 16 abr. 2011), e Pascual e de Vries, no Sociolinguistics Symposium 17 (Vrije Universiteit e Meertens Instituut, Amsterdam, Países Baixos, 3 abr. 2008), considera a existência de uma conexão entre a produtividade de citação fictícia gramaticalizada em muitas línguas não indo-europeias e o fato de essas línguas nunca terem desenvolvido uma tradição de escrever. Como foi sugerido por Masayoshi Shibatani (comunicação pessoal), pode-se imaginar que a citação fictícia é uma operação cognitivamente menos complicada, envolvendo um jogo de perspectivas mais concreto, como se fosse uma pequena peça de teatro, enquanto as construções formais encontradas nas línguas escritas são mais elaboradas gramaticalmente e levam mais tempo para serem processadas.

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 8, n. 2, p. 359-377, maio-ago. 2013
(82) mama’ xi’ nana hwijima’ (Everett e Kern, 1997, p. 321) ir.pl 1pl.incl.RF 3pl.Rp crianças
‘As crianças vão’
(liT: “‘nós vamos’, as crianças (falam)”)
Esta construção foi discutida como “construção de estado intencional” em Everett (2008).

Análises Anteriores do Futuro em Aikanã

Becker-donner (1955) e Hanke (1956) foram as primeiras pesquisadoras que tentaram analisar um pouco a flexão verbal de Aikanã. Elas observaram que os verbos em Aikanã não pareciam obedecer a regras, e que mereciam pesquisa de campo aprofundada. Algumas décadas mais tarde, outras pesquisadoras conseguiram entender parcialmente o mecanismo que caracteriza a construção do futuro nesta língua.

O futuro em Aikanã foi investigado por Pamela Morgan (1993), cujos dados eram baseados nas notas de campo de Harvey Carlson (ver Introdução). Morgan identificou a dupla marcação de pessoa, mas não conseguiu entender o mecanismo responsável com base nos dados disponíveis, que eram esparsos e não suficientemente analisados16.

Em seu artigo preliminar sobre marcadores de pessoa, Vasconcelos (1996) não identifica a dupla marcação de pessoa, mas hipotetizou corretamente que tempo futuro e outras modalidades, como intenção e desejo, estão relacionados. na sua tese doutoral, Vasconcelos (2002) tampouco identificou a dupla marcação de pessoa e postulou que os elementos adicionais faziam parte integral de vários morfemas segmentáveis diferentes de futuro: *-ka-re-, *-txa-re- etc. no entanto, ela notou que esses morfemas não somente contribuem à marcação de tempo futuro, mas também indicam o número do sujeito do verbo.

depois de achar uma solução para um quebra-cabeça como este, fica mais fácil apontar falhas em análises anteriores. no entanto, trata-se de um fenômeno que deixa o pesquisador quase cego, mesmo que todos os ingredientes da solução estejam bem à frente dos olhos. no meu caso, foi o tipólogo nick Evans (comunicação pessoal) quem me sugeriu o mecanismo citativo em Aikanã, apesar de eu já ter descoberto o mesmo mecanismo em Kwazá e entendido aquele em Wari’. A partir do que sabemos hoje, as descobertas das linguistas Morgan e Vasconcelos, quando tomadas em conjunto, chegam a constituir a explicação da construção.

Origens Possíveis para o Futuro em Aikanã

O tempo futuro em Aikanã é expresso por meio de uma construção gramatical, digamos, um tanto esquisita para a língua. Vimos que se trata de uma construção citativa, que, aliás, não é usada para citação própria, ao contrário do que se podia esperar. de fato, consegui entender a maneira de expressar o tempo futuro em Aikanã somente por meio de outras línguas, nas quais construções citativas abrangem também a expressão de várias modalidades e processos mentais. A próxima questão é: de onde vem esta construção em Aikanã?

Há várias possibilidades. Uma explicação seria que numa fase anterior da língua, que não foi documentada, havia uma construção para citação própria de fala direta. Esta construção era também usada para outras modalidades,
16 MORGAn, Pamela. Some comments on the future markers. In: HInTOn, Leanne (Org.). Aikanã Modules: a class report on the fieldnotes of Harvey Carlson, 1993 [datilografado]. Universidade da Califórnia, Berkeley.
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Fala fictícia fossilizada: o tempo futuro em Aikanã
inclusive para intencionalidade, que acabou gramaticalizada para indicar tempo futuro. Quando a construção original perdeu sua produtividade original e foi substituída por outras construções, ela continuou a ser usada para o tempo futuro. dessa maneira, a expressão do tempo futuro representa um vestígio de uma construção anterior com uso mais abrangente. não temos evidência clara para tal hipótese17.

É conspícuo que na língua vizinha Kwazá a mesma construção seja muito produtiva. Ambas, Aikanã e Kwazá, são consideradas línguas isoladas, porém existem similaridades marcantes entre as duas. Se Aikanã e Kwazá fossem relacionadas geneticamente como membros de uma família muito antiga, isso explicaria talvez a existência da construção citativa em Aikanã. Infelizmente, para esta hipótese, relacionada à anterior, tampouco existe evidência suficiente.

Outra possibilidade seria que Aikanã adotou a construção citativa por meio de contato com outras línguas. Mesmo que não haja muitos empréstimos lexicais para identificar contatos diretos entre línguas específicas, tradições antigas de contato em uma região podem levar ao espalhamento de traços gramaticais, independente das possíveis fronteiras genéticas entre as línguas envolvidas. Esse tipo de ‘difusão areal’ foi originalmente associado com a região balcânica e foi identificado depois em várias outras partes do mundo, como no noroeste da América do norte, na Índia, no noroeste da Amazônia e, recentemente, na região do Guaporé. Em Crevels e van der Voort (2008), foi levantada a hipótese de que a região do vale dos rios Guaporé e Mamoré pode representar uma área linguística na qual vários traços gramaticais se espalharam, por exemplo, tipos específicos de classificadores, morfemas de valência verbal, expressões possessivas etc., apesar de as línguas pertencerem a famílias diferentes.

Citação fictícia provavelmente é um traço gramatical que caracteriza uma subárea linguística que inclui Aikanã e Kwazá. Outras semelhanças tipológicas entre Aikanã e Kwazá parecem confirmar a existência de uma antiga ligação entre as duas línguas, que são vizinhas desde tempos imemoriais. Esta subárea inclui também a língua isolada Kanoê, apesar de ela não possuir uma construção citativa similar18. Há menos evidência para a inclusão das línguas Txapakura em tal área linguística, mas a semelhança da construção citativa em Wari’ pode implicar isso, como também foi sugerido por Everett (2008, p. 386). É importante notar que há similaridades nas construções citativas nessas três línguas, não somente nos planos funcionais, semânticos e estruturais, mas também com respeito à forma concreta: em todas elas, as construções envolvem a ausência de um verbo ‘falar’.
Uma última explicação possível é que o surgimento de uma construção citativa para expressar outras modalidades representa uma tendência mais universal em processos de gramaticalização. na seção seguinte, serão mencionados alguns casos de citação fictícia gramaticalizada em outras partes do mundo.

outRAs línGuAs
A gramaticalização da construção citativa como padrão para a expressão de outras modalidades e processos mentais (por exemplo, intenções e pensamentos) não está limitada às línguas amazônicas. na língua andina Quechua, por exemplo, o fenômeno foi atestado por Adelaar (1990). nesta língua, o verbo ‘falar’ é também usado para expressar processos ou estados mentais como se fossem citações de fala direta:

17 Há dados de Aikanã que sugerem a existência de construções de citação fictícia para expressar outras modalidades, mas a análise está com ambiguidades e exige pesquisa adicional de campo.
18 Apesar de Kanoê ter fenômenos curiosos envolvendo marcação recorrente de pessoa (Bacelar, 2004).
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(83) Mana-chu-s ri-sak ri-sak-chu-s ñi-k ina-s ayni-kacha-rka-n. não-inT-hRs ir-1sg.FUT ir-1sg.FUT-inT-hRs falar-nOmz assim-hRs responder-hesiT-pass-3sg
‘Ele hesitou em dar uma resposta, como se estivesse indeciso se deveria ir ou não’
(liT: “Estava demorando para responder como se fosse dizendo: ‘Será que eu não vou ou vou?’”) (Adelaar, 1990, p. 5)

Apesar do uso do verbo ñi- ‘falar’, este é um exemplo de citação fictícia porque, de acordo com o próprio conteúdo da sentença, o estado de hesitação mental na decisão pelo sujeito não foi expresso verbalmente. Adelaar (1990) acrescenta que citação fictícia é atestada também em outras línguas andinas, como Aymara e Mapuche, sugerindo difusão areal do fenômeno.
Citação fictícia está tampouco limitada às Américas. Em várias línguas da família Trans nova Guiné, intenções são obrigatoriamente expressas em construções citativas, como em Wambon:
(84) oi takhimo-p ne-mbel-o ka-tmbo porco comprar-1sg.inTen falar-seq.si-cOORd ir-3sg.pass ‘Ele foi comprar um porco’ (de Vries e de Vries-Wiersma, 1992)
(liT: “Ele falou: ‘Vou comprar um porco’”)
na língua Hua, condicionais são expressos obrigatoriamente numa sequência discursiva de pergunta e resposta:

(85) e-si-ve baigu-e vir-3sg.FUT-inT ficar-1sg
‘Se ele vem, eu vou ficar’ (liT: ‘Ele vai vir? Eu fico’) (Haiman, 1978, p. 570)
A construção citativa fictícia é também atestada em outras línguas Trans nova Guiné, como Usan (Reesink, 1993). de Vries (1990) sugeriu que entre as línguas dani e Awyu provavelmente há difusão areal de citação fictícia.

Em línguas australianas, a citação fictícia foi também atestada. na língua Warrwa (nyulnyul), o verbo ‘falar’ expressa também intenções não verbalizadas:

(86) ngul ka-na-ngka-ma-ngany ø-ji-na-yarri-yina marlu arpão 1.nOm.FUT-TR-FUT-colocar-apl 3.min.nOm-falar-imp-seq-3.min.Obl não ‘Ele tentou arpoar (o bicho), mas falhou’ (McGregor, 2007, p. 35)
na língua Kuuk Thaayorre (Pama-nyunga), o verbo ‘falar’ significa também ‘pensar’ e ‘conhecer’, mesmo para não humanos19:
(87) nhul yik-r thatr=okun ranth-in ngaathirr wun ele.nOm falar-pas.pFv sapo=dUb buraco-daT ainda deitar.npas ‘Ele (o cachorro) pensou que o sapo ainda podia estar no buraco’
(liT: “Ele (o cachorro) falou: ‘O sapo ainda podia estar no buraco’”) (Gaby, 2006, p. 539)
19 note-se a similaridade neste aspecto com o exemplo (72) de Kwazá.
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Fala fictícia fossilizada: o tempo futuro em Aikanã
McGregor (2007, p. 38) sugere que construções baseadas em citação fictícia se espalharam na região Kimberley por difusão areal. Igualmente, citação fictícia na expressão de intencionalidade foi atestada em línguas africanas. Veja o seguinte
exemplo da língua Shona (Bantu):
(88) ma-kudo aka-ti ti-dye mabarwe ndoku-furwa
6-babuíno 6:pas.Rem -qv 1pl-comer:sUb milho cOns-ser.baleado ‘Os babuínos tentaram comer o milho, mas foram baleados’
(liT: “Os babuínos falaram/pensaram: ‘Vamos comer o milho!’, e foram baleados”) (Hannan, 1984, p. 646)
na obra monumental de Güldemann (2008), gramaticalização e difusão areal de construções citativas para expressar categorias modais, temporais e aspectuais são discutidas e ilustradas pelo continente inteiro.
A gramaticalização de citação fictícia parece ter uma distribuição universal, pois construções baseadas nesse fenômeno têm surgido independentemente em todos os continentes discutidos aqui. Além disso, vale a pena notar que em todas as regiões atestou-se a difusão areal dessas construções.

Consideerações Finais

A construção gramaticalmente citativa não é necessariamente para citação literal de fala. Além de citação própria, a construção citativa é usada em muitas línguas para expressar categorias modais e temporais, como reflexão, intenção, desiderativo, finalidade, incoativo, futuro, entre outras funções gramaticais. Em línguas como Aikanã e Kwazá, a construção citativa envolvendo recursão de flexão pessoal não é utilizada essencialmente para indicar quem foi o falante, mas para mostrar a perspectiva de que o evento está apresentado.

Pode-se perguntar se a construção de futuro em Aikanã foi interpretada como citativa em algum momento no passado. não há indicações de que, na história da língua, os elementos -re- ‘fut’ e -ta- ‘rfut’ tenham funcionado como morfemas finais de modo, igual a -ẽ ‘dec’ e -i ‘int’. Isso pode indicar que a construção de futuro representa um padrão baseado num modelo disponível em línguas vizinhas. Prováveis contatos antigos, pelo menos entre os Aikanã e Kwazá, podem ter contribuído para o espalhamento areal da construção citativa. É verdade que tais construções surgiram independentemente em outras regiões, o que sugere uma tendência mais universal. Porém, difusão areal de tais construções entre as línguas locais foi atestada dentro de todas essas regiões, o que parece também a melhor explicação para a construção em Aikanã.

Este artigo representa um primeiro levantamento das questões envolvidas na construção citativa em Aikanã. É possível que trabalho de campo dedicado a tais questões leve a novas descobertas e a um melhor entendimento da construção e do seu desenvolvimento em Aikanã.

Agradecimentos 

Os dados das línguas Aikanã e Kwazá vêm do meu próprio trabalho de campo. Agradeço às comunidades Aikanã e Kwazá, pela hospitalidade de sempre. Agradeço mais especificamente aos meus professores Mário, Raimunda, Manoel e dalvino, pelo ensino das suas línguas nativas. Agradeço também a Ana Paula Brandão, nick Evans, Esther Pascual, Masayoshi Shibatani e Lourens de Vries, pelo intercâmbio sobre o assunto de citação fictícia. Agradeço à Gessiane Picanço e ao avaliador anônimo do Boletim pelos comentários e pelas correções. Agradeço à Organização
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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 8, n. 2, p. 359-377, maio-ago. 2013
neerlandesa de Pesquisa Científica (nWO) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (FAPESPA), pelo apoio financeiro aos meus projetos de pesquisa, dos quais este artigo é um dos resultados; à FUnAI e ao Conselho nacional de desenvolvimento Científico e Tecnológico (CnPq), pelas autorizações e licenças concedidas. Os meus professores e colegas citados neste artigo não necessariamente concordam com as minhas interpretações. A responsabilidade pelo conteúdo deste artigo é só minha.

Abreviaturas

apl aplicativo nOmz c consoante npas caU causativo Obl caUs causacional pas.pFv cOns consecutivo pas.Rem cOORd coordenador pass csO cossubordinativo pl
daT dativo qv dec declarativo RF desi desiderativo Rp/p dUb dubitativo seq exh exortativo sg FUT futuro si FUTR futuro remoto sUb g glide TR hesiT hesitação v hRs de outiva (hearsay) vOl imp imperativo 1O incl inclusivo 2sg inF infinitivo 3pl inT interrogativo 6 inTen intencional = liT literal - min minimal . nOm nominativo
nominalizador não passado oblíquo
passado perfectivo passado remoto passado
plural
verbo quotativo
modo real futuro
modo real passado/presente sequencial
singular
sujeito idêntico
subjuntivo
transitivador
vogal
volitivo
1a pessoa objeto
2a pessoa singular
3a pessoa plural
classe nominal
fronteira de clítico
fronteira morfológica fronteira semântica

A escola

Existe hoje uma escola em cada uma das três aldeias, mantidas pela prefeitura de Vilhena, com professores Aikanã e não-Aikanã. A Profa. Luzia Aikanã, com a assessoria desta pesquisadora, começou o ensino da língua materna em 1992. Desde então, a professora tem participado de vários encontros pedagógicos direcionados para a educação escolar planejada para os povos indígenas da região de Rondônia.

O Aikanã ainda é uma língua não classificada. Até agora não foi possível determinar seu relacionamento genético com outras línguas indígenas brasileiras, mesmo aquelas faladas pelos vizinhos na região do Guaporé. Todos os Aikanã falam o português e alguns falam o Koazá. Mas existem alguns que só falam o português. Um dado interessante é que em duas aldeias os alunos estão sendo alfabetizados, também, em sua língua materna. No entanto, esta é uma língua ameaçada de extinção.

Os filhos dos casamentos com pessoas que não falam Aikanã tendem a falar a língua nacional, o que constitui um elemento de pressão para o abandono da própria língua. Além disso, aqueles que saem de suas aldeias em busca de melhoria de condições de vida são também obrigados a falar a língua portuguesa.

Uma análise segmental da fonologia desta língua mostra que ela tem dezesseis consoantes e dez vogais, das quais seis são orais e quatro nasais. Dentre as características morfológicas incomuns exibidas pelo Aikanã, destacam-se os classificadores. Estes são morfemas encaixados dentro de uma construção verbal com a finalidade de fornecer informações sobre aspectos semânticos do argumento do verbo, como por exemplo, tamanho, forma, consistência e outras que tais.

 Aspectos culturais

Um interessante mito mencionado pelos Aikanã é o do Kiantô. Trata-se de uma grande cobra com as cores do arco-íris. Segundo este mito, assim como existe um reino na Terra com todos os seus habitantes, existe também o reino das águas com seus próprios habitantes, presidido pelo Kiantô.

Outro mito é o do “Dia em que o sol morreu” (ya imeen). Nesse dia, as pessoas que não estiverem em suas próprias casas podem ser atacadas pelos espíritos da floresta. A ‘morte do sol (ya)’ ocorre quando há um eclipse total: ‘o sol morre e o mundo fica todo escuro’.

Atualmente, é extremamente raro algum tipo de celebração entre os Aikanã. Em uma festa que assisti, fizeram chicha, cantaram suas músicas e, em local reservado, escondido das mulheres, os homens tocaram suas músicas em grandes flautas de bambu.

O Aikanã mais antigo do grupo tem mais de 80 anos e produz arcos e flechas tradicionais destinados a várias finalidades. Segundo ele, flecha para alvejar pessoas, flecha para alvejar animais maiores e menores, dentro e fora d’água. Os artesanatos fabricados e vendidos hoje são brincos, pulseiras, colares, bolsas, anéis e alguns objetos de madeira.

 Notas sobre as fontes

Os trabalhos mais recentes produzidos sobre o povo e a língua Aikanã constituem duas teses de Doutorado. A primeira, defendida em 2000 por Hein van der Voort, é sobre o povo e a língua Kwaza, mas devido à proximidade geográfica e às relações familiares entre os dois grupos, esta tese apresenta informações substanciais sobre o povo Aikanã e sua história. A segunda tese foi defendida por esta autora em 2002 e trata, mais precisamente, da fonologia e da morfologia da língua Aikanã. É, também, notável o trabalho do engenheiro Vitor Dequech, que gentilmente concedeu ao pesquisador Hein van der Voort e a mim algumas entrevistas. Seu trabalho, com expectativa de publicação, será de grande interesse para todos os estudiosos dos povos indígenas da região do Guaporé e sua história.

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