sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Kĩsêdjê ou Suyá

Toy Art Suyá ou Kĩsêdjê


#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
111KĩsêdjêSuyá Kĩsêdjê
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
MT330Unifesp 2010


Os Suiás (Suyás ou Kĩsêdjê) são um grupo indígena que habita o estado brasileiro de Mato Grosso, mais precisamente a Terra Indígena Wawi e Norte do Parque Indígena do Xingu.

Os Suyás, também chamados de Kisêdjês,  constituem o único grupo de língua Jê que habita o Parque Indígena do Xingu. Mas desde sua chegada na região (provavelmente na segunda metade do século XIX), seu contato com outros povos xinguanos e, principalmente, com aqueles da chamada área cultural do Alto Xingu, ocasionou a incorporação de muitos costumes e tecnologias alheias. Entretanto, jamais abriram mão de sua singularidade cultural, cujo principal emblema pode ser reconhecido num estilo particular de canto ritual, expressão máxima das individualidades e do modo de ser da sociedade Kisêdjê. Até algumas décadas atrás, outro marco diferencial do grupo eram os grandes discos labiais e auriculares que, mais do que ornamentos, apontavam a importância do cantar e do ouvir para esse povo.

Muitos aspectos da organização social e ritual dos Kĩsêdjê foram modificados após do ataque à aldeia pelos Juruna e seringueiros. A baixa demográfica, o intenso contato com os índios do Alto Xingu e a morte de grande parte dos velhos logo após a "pacificação" proporcionaram modificações profundas. Apesar disso, é relevante relatar a sociedade e sua cosmologia antes desses eventos, já que o modo de pensar Kĩsêdjê e muitos desses aspectos sócio-culturais continuam até o presente.

Os Kĩsêdjê vivem em aldeias circulares, com casas em torno de praça aberta onde ficam uma ou mais "casas dos homens". No passado eram predominantemente uxorilocais, isto é: o homem, quando casa, vai viver com a família da mulher. Depois da iniciação, o homem não devia voltar a morar na casa dos pais nem comer com a irmã porque só casais, amantes ou grupos do mesmo sexo comem juntos. O homem também não deve abraçara irmã, já que tal ato equivale a um início de relação sexual. Mas um homem pode cantar para a irmã sem nem mesmo ir à sua casa.

A pessoa, na concepção Kĩsêdjê, possui três componentes: o corpo físico, que resulta do sêmen do pai desenvolvido pela mãe; a identidade social, transmitida através de uma série de nomes do irmão da mãe para o filho desta (e da irmã do pai para a filha deste); e o que pode ser chamado "alma", única a cada objeto físico e essencial ao ser humano, já que sem ela, a pessoa adoece e morre.

Os Kĩsêdjê são muito tolerantes com as crianças, não esperando que elas ouçam-compreedam-falem ou se comportem bem. Contudo, na época da puberdade espera-se que saibam ouvir as instruções e exortações de seus pais e chefes, agindo corretamente. Aproximadamente nessa idade, os Kĩsêdjê são considerados "sem vergonha" (añi mbai kidi) se não observam as normas relativas à atividade sexual, à distribuição de comida e propriedade e às restrições de alimentação e de atividade.
Para um homem, as classes de idade são marcadas por elaboradas cerimônias de iniciação que enfatizam o rompimento dos laços com a moradia natal e a transferência do menino, primeiro para a casa dos homens (como sikendúyi) e posteriormente para a residência de sua esposa (como henkra), onde vive com ela e com sua família depois de ter gerado um filho.
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Para as mulheres, existem menos classes de idade e menos elaboração cerimonial. Na puberdade, há mulheres que ficam um período em resguardo dentro da casa, costume incorporado do Alto Xingu. Depois da puberdade, a mulher continua a viver em sua casa materna,. Quando nasce o primeiro filho, delimita sua própria área de dormir dentro da casa e seu marido vem morar com ela. Tornam-se uma unidade doméstica separada dentro da unidade residencial maior, que é composta pelos pais da mulher, por suas irmãs solteiras e casadas com seus maridos e filhos, bem como por seus irmãos não iniciados. A não ser que algo incomum aconteça, o casal continua dormindo junto na mesma área doméstica até a velhice. Finalmente são enterrados em covas separadas na casa em que viveram.
Uma mulher é caracterizada por sua capacidade de gerar filhos durante seus primeiros anos produtivos. Como um homem, ela começa com pouca autoridade doméstica e esta aumenta à medida que sua mãe envelhece e que tem mais filhos. Com o início da menopausa seu status muda, ganhando em certos aspectos e perdendo em outros. Mas as velhas normalmente não se tornam tão dependentes como os homens velhos. Estão intimamente envolvidas nas atividades domésticas de suas filhas e ainda podem executar muitas das tarefas femininas, em ritmo mais lento. As velhas são respeitadas por sua sabedoria e são consultadas pelos mais jovens.
Depois de terem um filho, tanto o homem quanto a mulher são classificados como henkra; quando têm muitos filhos são hen tumu ("já velho ou maduro") ou hen kwi ngédi ("já se tornou velho"); quando seus filhos se casam e têm muitos netos, tornam-se wikényi. As diferenças entre os membros das classes de idade hen kra e hen tumu são uma questão de grau, sendo que os últimos têm uma participação mais ativa na vida política. Mas não há rito de passagem para marcar a mudança de uma classe para a outra; e homens mais decididos agirão como hen tumu mais cedo do que os mais tímidos. Há na tradição Kĩsêdjê, entretanto, uma separação nítida entre o hen tumu e o wikényi, marcada por um rito de passagem e por mudanças dramáticas de comportamento.
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Assim sendo, os ritos de passagem entre os Kĩsêdjê podem ser vistos como uma ritualização da transferência de um homem de sua residência natal para a casa de seus afins. Os wikényi masculinos completam essa passagem: pertencem totalmente à residência de sua esposa. A totalidade de sua integração é revelada pelas diferenças entre a cerimônia de iniciação dos wikényi e as outras cerimônias de iniciação: o wikényi muda seus ornamentos, o estilo de cantar, deixa de caçar em determinadas festas e passa a receber comida dos mais jovens.
Enquanto os jovens iniciados são considerados como expressão máxima da idéia de masculinidade e auto-controle, o comportamento dos idosos é o oposto, caracterizado pelo humor, a descontração e a obscenidade. Assim como não se exige muito moralmente das crianças, aos velhos da sociedade Kĩsêdjê também cabe um papel social distinto.. Eles atuam como palhaços nos rituais. Também são responsáveis por eventuais cenas de humor ao final da tarde, quando provocam risadas nos mais jovens.
Homens e mulheres que têm muitos netos são candidatos ao rito de passagem que antecede sua transformação em wikényi. As mulheres só se tornam wikényi depois da menopausa. No passado, quase todos os velhos Kĩsêdjê se tornavam wikényi. Mas por um período os massacres realizados pelos inimigos e epidemias pós-contato reduziram drasticamente o número de pessoas com idade necessária para tal rito. Desde então, passou a ser rara a realização desse tipo de cerimônia. No inicio do século XXI, porém, voltaram a ser ouvidos os gritos dos velhos nas cerimônias.

A maioria das cerimônias enfatiza as relações entre um homem e suas irmãs reais ou classificatórias e sua mãe, acima de outros tipos de laço, como os com a esposa, cunhados e sogros. Durante os rituais, ele dá comida a suas irmãs e delas recebe comida. Dá seu nome ao filho de sua irmã e sua filha recebe o nome de uma de suas irmãs. Irmãos e irmãs são, assim, parentes importantes nas cerimônias. Os homens Kĩsêdjê cantam para suas irmãs, mas não canções de amor e sim akia, canção de auto-afirmação individual para aquelas que estão social e espacialmente distantes em razão da uxorilocalidade.

Quando um Kĩsêdjê pinta o seu corpo para uma festa de origem Kĩsêdjê (e não do Alto Xingu), o estilo da pintura é determinado pelo seu nome. Em última análise, todos os membros de um grupo de pessoas com o mesmo nome pintam-se da mesma maneira. A associação do nome com as metades cerimoniais, sua posição numa fila de dançarinos e o ngere que canta também são determinados pelo seu nome. Quando se pintam para realizar festas de origem alto-xinguana, a pintura é mais individualizada.

No que diz respeito ao poder político, os homens de mais prestígio na aldeia são os líderes dirigentes de facções políticas e os especialistas em cerimônias. Os Kĩsêdjê dizem que dois dos deveres essenciais de um líder político são coordenar o esforço grupal e resolver disputas através da oratória. Quando eles acabam de falar, espera-se que todos na aldeia "tenham ouvido tudo" (mbai wha). A autoridade dos especialistas em rituais vem da sua sabedoria e memória para cantos. A liderança geralmente é herdada na linha patrilinear, de modo que os filhos de um líder são líderes em potencial. Os homens que são "donos" de festas aprendidas com o Alto Xingu também herdam este direito patrilinearmente. As filhas de um líder político também têm um status notável, são ativas e suas opiniões são respeitadas pelas outras mulheres.

O Povo

Desde o início de 1990 os Kĩsêdjê lutaram pela reconquista de parte de seu território tradicional, que foi homologado em 1998 e denominado Terra Indígena Wawi. Lá instalaram sua principal emais populosa aldeia, Ngôjhwêrê, que era uma antiga aldeia onde uma parte do grupo vivia nos anos 50, quando foram contatados por Cláudio e Orlando Villas-Bôas. Como as terras que reconquistaram estavam deterioradas pelo desmatamento provocado pelos fazendeiros, os Kĩsêdje estão desenvolvendo um trabalho de recuperação dessas terras, plantando frutas como o pequi e mangaba, além de outros recursos naturais preciosos para suas práticas culturais e sua alimentação.


Associação Indigena Kĩsêdje



O povo Kĩsêdje criou uma associação própria, a Associação Kĩsêdje, através da qual organizam seus projetos ambientais, culturais e políticos. Um desses projetos envolve o registro audiovisual das histórias e cantos junto às pessoas mais velhas de suas aldeias.

Em parceria com o Banco do Brasil e a AIK, Rawiri Suya, da aldeia Ngôjhwêrê-Wawi em Querência-MT, produz um documentário sobre a própria lingua, na qual entre outras cenas, relata o mito e festa de Amtô.

"Hy, hen wa anhi mã wa tumbaj nhihwet itha kh n ne wi khôt mbaj to. Nhyry ra ra wa ma hry ro anhirii, nenhy ke, kot ku anhithon watáhwên itha arak amu wakhwaje khãm tho watáhwên ndo the. Ithaje hwet ri, kham na wa thore nhyry ra mun, nihaj aji nhindo mã aji khwaje mã pa ire aj anhingkhráktá ro hw sosok ne, kharo ngren ne, nhyry mã khwa itumbaji".

Kawiri Suvá, idioma Kisêdje, Ngôjhwêrê-Wa- wi, Mato Grosso

O que Kawiri explica em idioma Kĩsêdje é "Estou gostando muito de parti cipar desse projeto. Ele mostra o caminho, e como podemos con- tinuar esse trabalho na comunidade. Com tudo isso, tenho essa noção: documentar as nossas tradições para o futuro das nossas gerações".

Amtô


Membro da etnia Kisêdjê vestido para celebrar a festa do rato - Amtô

O povo Kisêdjê celebra a festa Amtô após 10 anos de interrupção – por conta da luta pela recuperação de seu território ancestral – Trata-se de um ritual no qual o povo conta a historia de como um rato ensinou o povo a fazer o beijo de milho.


Gisele Bündchen com pintura Kisêdjê


Em setembro de 2006 a top model brasileira Gisele Bündschen visitou a aldeia dos Kĩsêdjê, "Vi de perto o problema que eles têm por causa da poluição das águas", conta Gisele. Ao desembarcar foi recebida pelo cacique Kuiussy Suyá e pelas integrantes da aldeia, que consideraram a presença da dela um motivo digno de comemoração.
Gisele Bündschen na tribo Kĩsêdjê

Muitas delas se embelezaram e lado a lado, todas foram para uma das malocas, onde o maquiador Daniel Hernandez começou a cuidar do look de Gisele sob os olhares curiosos. Cabelos preparados, coube às mulheres da tribo terminarem a pintura da tribo. Grafismos tradicionais, destinados às mulheres que se destacam na comunidade por sua beleza. Gisele completou o look com braçadeira de penas de arara, saiote de algodão tingido com urucum e colares de coco da palmeira tucum. Depois de concluir o trabalho, ela conheceu um pouco mais da vida na aldeia. Vestiu a camiseta do Y Ikatu Xingu e ganhou do professor Tempty cartilha da língua Kisêdjê, falada pela tribo.

Parte do resultado das vendas das sandálias Grendene, usadas por Gisele, foi revertida para o projeto Y Katu Xingu (salve a água boa do Xingu), nos últimos quinze anos a devastação mais que dobrou de tamanho e as nascentes estão secando. O projeto que tem como objetivo chamar a atenção para a devastação da cabeceira do rio Xingu e a consequente efeito nocivo as tribos da reserva.

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