sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Tapirapé

Toy Art Tapirapé

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
185Tapirapé
Tupi-Guarani
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
MT, TO655Funasa 2010


Os tapirapés são um grupo indígena brasileiro que habita as áreas indígenas Tapirapé/Karajá e Urubu Branco, no nordeste do estado do Mato Grosso, e o Parque do Araguaia, na ilha do Bananal, no estado do Tocantins.

"Tapirapé" é um termo de origem tupi que significa, literalmente, "caminho de anta" (tapi'ira, anta + apé, caminho). Era o nome pelo qual os indígenas chamavam a Via Láctea.

Os Tapirapé constituem um povo Tupi-Guarani habitante da região da serra do Urubu Branco, no Mato Grosso. Em decorrência do contato com as frentes de expansão, a partir de meados do século XX, sofreram intensa depopulação, período em que estreitaram suas relações com grupos Karajá, até então seus inimigos. Depois de terem seu território tradicional ocupado por fazendas de agropecuária, na década de 1990 conseguiram reconhecimento oficial de duas TIs, sendo uma delas coabitada pelos Karajá. Mas na TI Urubu Branco ainda enfrentam problemas fundiários, em razão de invasões de fazendeiros e garimpeiros.

Uma aldeia Tapirapé é composta por casas dispostas em círculo ao redor da Casa dos Homens, a takara. Até a década de 1950 as casas eram habitadas por famílias extensas. Uma família Tapirapé, idealmente, se compõe de um grupo de mulheres aparentadas (mãe, filhas e netas), representando duas a três gerações. Atualmente, no entanto, a família extensa perde importância e a família nuclear (o casal e seus filhos) é o grupo doméstico mais comum. A família nuclear, como se deduz através das mudanças ocorridas em sua terminologia de parentesco, é também a mais estável unidade de parentesco atual.

Além do parentesco, outro importante princípio organizativo da sociedade Tapirapé são as chamadas “sociedades de pássaros” ou, simplesmente wyra. Exclusivamente masculinas, tais sociedades são divididas em duas grandes “metades”, que por sua vez são compostas por grupos de idade: de homens mais velhos, homens maduros e jovens. Um homem liga-se à “sociedade de pássaro” de seu pai e à medida que cresce vai passando ao outro grupo de sua própria metade. As wyra atuam competitivamente como grupos de caça, de trabalhos cerimoniais, de canto, em tarefas agrícolas, construção de casas etc.

Assim, as wyra dividem a população masculina em duas metades, sendo cada metade dividida em três classes de idade. Wagley (1988) se refere a essas metades como sendo formadas por “pássaros brancos” e “papagaios”, organizadas da seguinte maneira:



Pássaros Brancos Faixa Etária Papagaios
wrachinga Jovens:10 – 16 anos wrankura
wranchingió Homens maduros: 16 – 35 anos anancha
wranchingó Homens mais velhos: 35-55 anos tanawe
 Extraído de Wagley, 1988: 117


Outro princípio organizativo da sociedade Tapirapé são os “grupos de comer”, tataopawa. Como seu próprio nome indica, reúnem-se para o consumo de alimentos e atualmente têm função basicamente cerimonial. Até o final da década de 1940, no entanto, atuavam como reguladores, reunindo-se para a distribuição e consumo de alimentos (Wagley, 1977: 15). São grupos de consumo de alimentos (da roça, caça, coleta, pesca etc.) intermediários entre a aldeia e o grupo doméstico. Os “grupos de comer” constituem laços que unem pessoas de casas diferentes, formando uma única unidade social. A transmissão ao “grupo de comer” específico se faz de modo que os filhos pertencem ao grupo do pai e as filhas ao da mãe. Wagley cita oito grupos de tataopawa (aqui registrados segundo sua grafia original):

Tataopawa - “Grupos de Comer” -
Amirapé (os primeiros)
Maniutawera (os da mandioca)
Awaiku (os da mandioca doce)
Tawaupera (os da aldeia)
Chakanepera (os do jacaré)
Chanetawa (os da nossa aldeia)
Pananiwana (os do rio)
Kawano (os da vespa)
Extraído de Wagley, 1988: 128



A importância econômica das “sociedades de pássaros” e dos “grupos de comer” por seu papel na produção e consumo de alimentos é fundamental. A ela se soma sua importância na vida cerimonial do grupo. Através de uma alegre e antiga rivalidade, as “sociedades de pássaros” atuam competitivamente.

Uma aldeia Tapirapé, idealmente, deveria ter uma população suficiente para prover de membros as “sociedades de pássaros” e os “grupos de comer”. Sem essas unidades presentes, a atividade econômica e a vida cerimonial não poderiam operar (Wagley, 1988: 135). Apesar da sobrevivência de formas de produção comunais, basicamente através das wyra, pode-se dizer que estas têm assumido cada vez mais funções rituais e religiosas.

Chefia

Politicamente, a sociedade Tapirapé é extremamente igualitária. Os líderes das diversas casas da aldeia mantém contato diário, através de reuniões noturnas dos homens no pátio da takara. Lá são discutidas todas as questões que digam respeito à comunidade. As principais funções do “cacique”, atualmente, dizem respeito à administração de alguns bens da comunidade, como a caderneta de poupança, a lancha voadeira e o gado. Estabelece também, em nome da comunidade, contato com terceiros, sejam índios ou não. O detentor da chefia formal não faz mais do que referendar decisões discutidas à exaustão pelo coletivo dos homens. Não existe, entre os Tapirapé, a figura de uma liderança forte, o “cacique” ou “capitão”, que se impõe aos demais apoiados em seu segmento residencial.

As atuais lideranças são indivíduos jovens, entre 30 e 40 anos, que falam bem o português, sabem ler e escrever, além de serem surpreendentemente bem informados a respeito do noticiário nacional que acompanham através do rádio. Conquistaram papel de destaque durante o processo de enfrentamento com a Funai e fazendas durante as décadas de 70 e 80. São lideranças testadas e aprovadas pela comunidade no desgastante processo de negociação que lhes garantiu uma terra mínima para viverem em solo matogrossense, evitando seu despejo para a ilha do Bananal. Constituem um perfil de liderança que contrasta com os antigos “caciques”: senhores na terceira idade, com domínio muito limitado do português e que não sabem ler nem escrever mas que tem sólido prestígio ritual e excelente domínio da cultura tradicional e história, e que apoiavam-se, politicamente, na força de seus respectivos segmentos residenciais.

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