domingo, 10 de abril de 2016

Kaingang

Toy Art Kaingang

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
75KaingangGuayanás
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
PR, RS, SC, SP33064Funasa 2009

Os caingangues, Kainguangs, kaingang, kanhgág, guainás, coroados, bugres, botocudos,[2] camés ou xoclengues são um povo indígena do Brasil. Sua língua, a língua caingangue, pertence à família linguística jê, a qual, por sua vez, pertence ao tronco linguístico macro-jê. Sua cultura desenvolveu-se à sombra dos pinheirais (Araucaria brasiliensis). Há pelo menos dois séculos, sua extensão territorial compreende a zona entre o Rio Tietê (São Paulo) e o rio Ijuí (nordeste do Rio Grande do Sul). No século XIX, seus domínios se estendiam para oeste, até San Pedro, na província argentina de Misiones.

Atualmente, os caingangues ocupam cerca de 300 áreas reduzidas, distribuídas sobre seu antigo território, nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil. Sua população é de aproximadamente 33.064 pessoas. Os caingangues estão entre os cinco povos indígenas mais numerosos no Brasil atualmente. Na literatura internacional, o termo "caingangues" tem designado o povo que, na literatura de língua portuguesa, é chamado "xoclengue" (que hoje se autodenominam laklãnõ). Os xoclengues foram descritos por Jules Henry (1941: Jungle People: A Kaingáng Tribe of the Highlands of Brazil), pesquisador que esteve entre eles no início da década de 1930, no leste de Santa Catarina. Por isso, o que se costuma referir na literatura internacional como característica da cultura caingangue é, na verdade, característica da cultura xoclengue, segundo a descrição de Jules Henry.

As formas aportuguesadas "caingangue" e "xoklengue" são menos comuns nas publicações antropológicas e etnográficas. Especialmente a partir de uma convenção elaborada pela 1a Reunião Brasileira de Antropologia, em 1953, os usos mais correntes são Kaingang, Xokleng, caigangues e kanhgág.

Terras Indigenas Kaingang
Os caingangues ocuparam, historicamente, um vastíssimo território, não completamente contíguo, mais ou menos correspondendo à expansão maior das florestas de pinheirais, o que significa: vastas regiões do Paraná e Santa Catarina, a região do sul-sudoeste paulista, o planalto rio-grandense e parte de Misiones, na Argentina. Seus parentes próximos, os xoclengues, parecem ter preferido os campos entremeados dos pinheirais, mas também ocuparam regiões quase marginais à zona das araucárias. Os únicos grupos caingangues fora daquele ecossistema são os caingangues paulistas, cujo estabelecimento na região entre o rio Tietê e o rio do Peixe já foi apontado, por alguns autores, como posterior à do Paraná, e feita por grupos que transpuseram o rio Paranapanema.

Ocupando região tão ampla, em incontáveis grupos ou aldeias de população média em torno de 150 a duzentas pessoas (se são válidos os dados que temos para meados do século XIX), embora às vezes articulados por uma lideranças regionais, os caingangues seriam alvo de diferentes momentos de expansão das fronteiras econômicas brasileiras. Alguns grupos caingangues e xoclengues teriam sido convertidos por missões jesuítas no oeste do Paraná e no norte rio-grandense nas primeiras décadas do século XVII, mas não por muito tempo. Depois desse período, apenas no final do século XVIII foram atingidos por frentes de exploração militar, na região de Guarapuava, no atual estado brasileiro do Paraná, onde, em 1812, se iniciaram os primeiros contatos permanentes de um grupo caingangue com uma comunidade de língua portuguesa.

À mesma época, os territórios xoclengues dos campos de Lages eram alvo de ocupação e, também ali, moveu-se guerra aos índios. A economia pastoril, que levou à ocupação militar de Guarapuava, avançaria, no final da década de 1830, para a região dos Campos de Palmas e, pouco depois, o Campo Erê, os Campos de São João e os Campos Novos; finalmente, a partir dos meados da década de 1840, para a região norte do Rio Grande do Sul (Campos de Nonoai e, na sequência, Campos de Guarita e Campos do Erechim). A região norte do Paraná foi ocupada, também militarmente, apenas na segunda metade do século XIX. Nessa época, começou a ser utilizado o termo "kaingang" para se referir ao grupo: o termo foi cunhado em 1882 pelo coronel Telêmaco Borba, que expulsou esses índios de suas terras. O termo significava "morador do mato", de caa (mato) e ingang (morador).

O início do século XX assistiu à demarcação de boa parte das terras indígenas dos caingangues. Isso não impediu, no entanto, que elas rapidamente começassem a ser cobiçadas, invadidas, dilapidadas e griladas. O oeste do estado de São Paulo, com o avanço do cultivo do café, foi alvo da penetração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil na primeira década do século XX, quando o recém-criado Serviço de Proteção ao Índio foi responsável pela chamada "pacificação" dos caingangues. Ainda nos anos 1920, o Serviço de Proteção ao Índio mantinha, no norte paranaense, um "posto de atração" para os caingangues ditos "arredios". No Paraná, o primeiro conflito aconteceu já nos anos 1920, obrigando a uma mudança em delimitações originalmente feitas pelo estado e também criando uma demanda judicial que terminou desfavorável aos índios no caso das terras que possuíam em São Jerônimo.

No final dos anos 1940, o governador Moisés Lupion, em acordo com burocratas do Serviço de Proteção ao Índio, roubou diversas áreas indígenas. Em Santa Catarina, os maiores esbulhos deram-se também nos anos 1940. Não por acaso, no Paraná e em Santa Catarina estiveram envolvidas terras ricas em pinheirais, no imediato pós-Segunda Guerra Mundial - o que gerou um surto madeireiro e, igualmente, um surto de expansão agrícola. No Rio Grande do Sul, o próprio estado começou a tomar terras antes demarcadas aos índios, já nos anos 1940, mas principalmente nos anos 1960.

Essa história de esbulho é acompanhada pela ocupação, também, de toda a cercania das terras indígenas por imigrantes e descendentes de imigrantes, pequenos proprietários e fazendeiros. A presença cada vez mais maciça de brancos nas proximidades de suas terras e - a partir das invasões e de arrendamentos promovidos pelo Serviço de Proteção ao Índio - dentro das próprias áreas foi fator importante de compulsão contra a permanência de tradições e práticas culturais indígenas, incluída a língua, além de casamentos interétnicos.

No caso específico do estado de São Paulo, além da depopulação violenta, verdadeiramente genocida, sofrida pelos caingangues (de algo em torno de 1 200 na primeira década do século, eram menos de duzentos, já "aldeados" pelo governo, antes do final da década seguinte), a partir dos anos 1940 suas áreas sofreram a introdução de indivíduos e famílias das mais diferentes etnias, por conta da política do Serviço de Proteção ao Índio de fazer, naquelas áreas indígenas, algo como "colônias penais". Índios do nordeste, do leste, do Mato Grosso do Sul e do norte do Brasil eram para lá levados e, lá, contraíam casamento. O resultado das uniões interétnicas foram famílias em que se usava sempre o português como língua franca e em que os filhos se tornavam falantes nativos dessa língua.

Cultura

Cada aldeia caingangue se divide em duas metades chamadas kaiurukré e kamé (ou, usando a escrita da própria língua: Kanhru e Kamẽ). Os membros de cada metade só podem se casar com os membros da outra metade. Os filhos ou filhas sempre pertencerão à metade (ou à marca) do pai.

Casas Subterrâneas 

Nos últimos cinquenta anos, os arqueólogos estiveram empenhados em estudar a trajetória dos Xokleng e os Kaingang, distribuídos na savanas tropicais do Brasil Central (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, do Paraná e de São Paulo), através de pesquisa em sítios com seus assentamentos, artefatos, fontes de subsistência e materiais usados em rituais.

O sítio de Rincão dos Albinos

O sítio de São José do Cerrito, localizado no Rincão dos Albinos, possui 107 ‘casas sub- terrâneas’, é considerado o maior sítio com este tipo de estruturas no Planalto Meridional e, sem dúvida, é o melhor lugar para discutir a formação de casas subterrâneas no Sul do Brasil (Fig. 1).
Casas subterrâneas da etnia Kaingang 0 Fig. 1. Localização dos sítios antigos relacionados no texto.Fig. 2. O conjunto de ‘casas subterrâneas’ a que se refere o texto (SC-CL-70 de Reis, 2007).
No alto esporão da borda de uma chapada, com aproximadamente 1200 m de altitude, Maria José Reis (2007) localizou um conjunto de 104 casas subterrâneas e 10 montículos, que dividiu em dois sítios, o SC-CL-70 com 36 (hoje 39) estruturas e o SC-CL-71 com 68 estruturas subterrâneas e os 10 montículos. Os dois sítios de Reis talvez não distem 100 m um do outro e formam, na realidade, um assentamento único, disposto ao longo de um pequeno banhado de altura que dá origem a um fluxo de água. Numa visão aérea o espaço aparece como uma clareira alongada coberta por vegetação herbácea em meio a uma alta mata com araucária (Fig. 7, foto de cima), hoje empobrecida pela retirada dos troncos maiores e a presença de gado. Ao pé da íngreme encos- ta pela qual se tem acesso ao sítio, distando uns 500 m dele, um arroio com bastante água, ora serpenteia na planície que criou, ora ace- lera o curso em rápidos entre pequenos blocos rochosos. O fluxo de água, ao longo do qual estão as estruturas, desemboca neste arroio.

Na margem esquerda desse fluxo, numa extensão de uns 100 m e distando 30 a 60 m da água, se encontram as 68 casas subterrâneas e os 10 montículos, que, segundo Reis, ocupa- riam uma superfície de 19.511 m2. Nenhuma estrutura anelar. As casas subterrâneas estão representadas por suas depressões centrais e seus aterros niveladores. Podemos classificar estas casas em grandes (depressões com 6 a 8 m de diâmetro), médias (5 a 5,5 m de diâmetro) e pequenas (4 m de diâmetro ou menos); as profundidades variam de 1,1 e 0,6 m. Das casas desta margem, tomando como referência suas depressões centrais, 12 (17,64%) são considera- das grandes, 29 (42,64%) médias, 27 (39,70%) pequenas. Os montículos, de funcionalidade ainda desconhecida, têm formas circulares
ou alongadas, com extensões de 2,5 a 5,0 m e alturas menores que 1 m.

Na margem direita, frente a estas, e manten- do igual distância da água, encontram-se outras 39 casas, num espaço não maior que 50 por 80 m, ou 4.000 m2. Destas, são consideradas gran- des 9 (23,07%), médias 8 (20,51%), pequenas 22 (56,41%). Nenhum montículo, nem estrutu- ra anelar. Este conjunto, mais bem conservado, foi escolhido para uma primeira compreensão do grande assentamento (Fig. 2).

Pintura Corporal Kaingang

Segundo relato oral dos Kaingang os primeiros de seu povo chegaram acompanhados da velha (uma anciã imortal). Ela saiu de um buraco da terra; e logo em seguida chegaram os Kaingang.

A tradição dos Kaingang conta que os primeiros desta nação saíram do chão (...) saíram em dois grupos, chefiados por dois irmãos por nome Kañeru e Kamé, sendo que aquele saiu primeiro. Cada um já trouxe um número de gente de ambos os sexos. Dizem que Kañeru e sua gente toda eram de corpo fino, peludo, pés pequenos, ligeiros tanto nos seus movimentos, como nas suas resoluções, cheios de iniciativa, mas de pouca persistência. Kamé e os seus companheiros, ao contrário, eram de corpo grosso, pés grandes e vagarosos nos seus movimentos e resoluções." (Nimuendajú Apud VEIGA, 1994, p.60). Os primeiros fizeram tudo: criaram os bichos e as cobras e mandaram as cobras picarem os outros seres. Criaram as plantas, as serras e os campos. Fizeram tudo." (Hanke, 1950:137)

Esta é a explicação mítica para o surgimento desta cultura e a figura da 'Mãe Universal' é o símbolo da vida, da fertilidade, renovando-se continuamente e no seu sentido espiritual do amor criador e infinito.

Por terem sido criados pelos "pais fundadores" Kamé e Kairu, todos os seres da natureza pertenceriam às duas metades, com exceção da terra, do céu, da água e do fogo.

Todos ainda manifestam sua descendência ou pelo seu temperamento ou pelos traços físicos ou pela pintura a que pertence o clã Kañeru é malhado, o que pertence ao clã Kamé é riscado. Os Kaingang reconhecem essas pintas tanto no couro dos animais, como nas penas dos passarinhos, como também na casca, nas folhas, ou na madeira das plantas. Das duas qualidades da onça pintada, o acanguçu é Kañeru, e por isso ela vai também adiante na piracema. O dourado é Kamé. O pinheiro é Kañeru, o Cedro é Kamé, etc. (Nimuendajú, [1913:59] 1993:60)

Os mitos revelam que são dois os elementos fundamentais da organização social Kaingang: a divisão em metades e as festas. Sua sociedade é dual dividida em metades exogâmicas, personificadas nos heróis míticos Kamé e Kairu,que se opõe e complementam.

Cada metade possui uma pintura corporal distinta. A metade Kamé possui pintura de riscos e a Kairu, círculos.(ver figura 1)

Entre os Kaingang da Terra Indígena de Apucaraninha, as pinturas que apresentam riscos são por eles denominadas de reoio e as de círculos de recutú. De acordo com esta divisão é que se dão os casamentos. Segundo a tradição, Reoio casa-se com Recutú, os filhos pintam-se de acordo com a pintura corporal do pai (risco ou bolinha).

No sistema Kaingang, a filiação a uma metade é definida patrilateralmente, ou seja, os filhos de ambos os sexos vão pertencer à metade do pai e não de sua mãe. Este procedimento continuo é que vai estabelecer o caráter patrilinear da sociedade Kaingang.

Seguindo este padrão, os filhos (as) pertencem à mesma seção de seu pai e devem casar repetindo o padrão de aliança contraído por seu pai. Neste sentido filhos e filhas devem casar com a mesma metade de onde veio a sua mãe.


#Nome da Pintura
Motivoidentificação
1Ra téi



Metade Kamé

Com um risco
2Ra taktéi



Metade Kamé

Com dois riscos
3Nhétkymby



Metade Kamé

Traços curvos nos cantos da boca
4Ra ror



Metade Kaîru

Com um ponto
5Ra róng ror


Metade Kaîru

Com três pontos 
6Ra ndor  

   



Metade Kaîru

Com círculos
FIGURA 1 - Acervo Pessoal de Kimiye Tommasino.
Pinturas corporais cerimoniais dos Kaingang - Representação das duas metades ciânicas da origem do povo Kaingang


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