Você já passou por uma placa como “Avenida Jacutinga” e pensou: mas afinal, o que é uma jacutinga?
Nome estranho, quase inventado… mas não é.
A jacutinga é uma ave brasileira rara e elegante, cientificamente chamada Aburria jacutinga, conhecida pela plumagem escura contrastando com detalhes brancos e um curioso “topete” claro. E é justamente esse tipo de nome — meio misterioso, meio poético — que revela uma camada escondida da cidade: ruas que carregam histórias da fauna e da cultura indígena, mesmo quando a gente nem percebe.
Há algo de curioso em caminhar por Moema, Saúde e Indianópolis: os nomes das ruas parecem contar uma história silenciosa, como se o bairro tivesse sido organizado a partir de uma memória indígena e natural. E, de certo modo, foi exatamente isso que aconteceu.
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Fernando Arens Júnior e o parcelamento das terras de Moema e Indinópolis |
No início do século XX, quando essa região ainda era pouco urbanizada, o engenheiro e loteador Fernando Arens Júnior iniciou o parcelamento das terras. Não se tratava apenas de abrir ruas e vender lotes. Havia uma intenção estética e até simbólica: dar identidade ao bairro. Em uma São Paulo que crescia rapidamente, nomear ruas era também uma forma de construir imaginário.
Arens Júnior optou por algo bastante característico da época: o uso de referências indígenas. Esse gesto dialogava com um movimento cultural mais amplo, o indianismo, que via no indígena uma espécie de origem poética do Brasil. Não era uma representação fiel das culturas indígenas reais, mas uma idealização que atravessava literatura, arte e, nesse caso, o urbanismo.
Assim surgiram ruas como Alameda dos Nhambiquaras, Alameda dos Jurupis e Alameda dos Tupiniquins, evocando diferentes povos indígenas brasileiros. Esses nomes não estavam ali por acaso: criavam uma atmosfera, uma identidade que diferenciava o bairro de outros loteamentos da cidade.
Com o tempo, uma divisão curiosa e bem conhecida se consolidou. Em Moema, a região com nomes de pássaros, a maioria em língua indígena, com ruas como Ibijaú, Jacutinga, Gaivota e Rouxinol. Em Indianópolis, a área com nomes predominantemente indígenas como Ceci e Peri, e por fim o bairro da Saúde/Planalto Paulista, que recebeu muitos nomes de personagens específicos da literatura, principalmente do período romântico indígena brasileiro (Peri, Ceci, Poti, Itagiba). Essa particularidade confere aos bairros uma espécie de lógica poética: natureza e cultura lado a lado, fauna, personágens e povos indígenas compartilhando o mapa urbano.
Há ainda uma camada irônica nessa história. O próprio nome Indianópolis não vem diretamente das línguas indígenas brasileiras, mas de uma inspiração estrangeira, provavelmente ligada a “Indianápolis”, nos Estados Unidos. Ou seja, o bairro mistura referências locais e globais, tradição e modernidade, numa composição bastante típica da São Paulo do século XX.
Mas esses bairros não foram os primeiros a homenagear nossos povos ancestrais. Perdizes, embora tenha ganhado esse nome por causa do 'quintal' de Joaquim Alves Fidelis, que criava essas aves barulhentas em 1850, transformou-se em um verdadeiro mapa vivo da nossa história indígena.
A tradição começou em 1897 com a Rua Turiassu e não parou mais. Diferente de outros bairros que nomeiam ruas de forma aleatória, Perdizes se tornou um refúgio para nomes de nações e figuras emblemáticas. Ao caminhar por lá, você atravessa o território de tribos como os Apiacás, Apinajés e Cherentes, ou presta respeito a nomes fundamentais como Aimberê (líder da Confederação dos Tamoios) e Bartira (filha de Tibiriçá).
A história de Perdizes guarda curiosidades que vão além de seus nomes indígenas, o bairro nasceu literalmente no Largo Padre Péricles, onde ficava a chácara do criador das aves que deram nome à região. Com o tempo, o antigo caminho chamado Rua Tabor transformou-se na movimentada Cardoso de Almeida, enquanto o batismo da Rua Turiassu, em 1897, deu início ao projeto de transformar o bairro em um memorial vivo, consolidado em 1916 com a oficialização de vias como Traipu, Itapicuru e Caetés.
No fim das contas, essas ruas não são apenas endereços. Elas são vestígios de um momento em que a cidade tentava inventar a si mesma, recorrendo a símbolos que julgava representar o Brasil.
Toponímia do Bairro
A toponímia de Moema e Indianópolis revela um encontro curioso entre imaginação urbana e ecos de uma paisagem mais antiga. No início do século XX, quando a região foi loteada, buscou-se criar uma identidade “brasileira” por meio de nomes de origem indígena, ainda que nem sempre com rigor linguístico. Nesse processo, cursos d’água locais tiveram papel silencioso, mas decisivo. O antigo córrego Uberabinha, hoje canalizado e praticamente invisível, atravessava a área onde se estruturaram várias dessas ruas, deixando vestígios não apenas no relevo, mas também na escolha dos nomes.
O próprio “Uberabinha” já carrega essa camada de interpretação: uma forma aportuguesada que combina a leitura de “Uberaba” com o diminutivo português “-inha”, enquanto sua raiz tupi costuma ser associada a y (água) + beraba (que brilha), isto é, “água brilhante”. É plausível que parte da toponímia tenha se alimentado também da memória oral dos moradores, incluindo referências à fauna local. Nomes como “Arapanés” ou “Aratãs” podem refletir essa tradição difusa, possivelmente ligada a crustáceos de água doce, de coloração avermelhada, observados nos cursos d’água da região. Mais do que um sistema preciso, trata-se de um mosaico onde língua, paisagem e imaginação se misturam, produzindo uma cartografia simbólica que ainda hoje marca o bairro.
Glossário das ruas
Abaixo você encontrará o significado de algumas ruas em Moema e Indianápolis, bem como de bairros e alguns municípios vizinhos interessantes.
Os nomes apresentados neste glossário devem ser entendidos dentro de seu contexto histórico. Os responsáveis pelo loteamento da região, como Fernando Arens Júnior, não eram etnógrafos ou linguistas, mas agentes do urbanismo em um momento de rápida expansão da cidade. Nesse sentido, a escolha de nomes indígenas para ruas e alamedas não seguiu necessariamente critérios acadêmicos rigorosos. Tratava-se, antes, de um gesto de criação de identidade urbana, influenciado pelo imaginário cultural da época, pelo indianismo e por referências disponíveis em registros muitas vezes imprecisos ou adaptados. Assim, embora muitos desses nomes tenham origem em povos, línguas e elementos reais das culturas indígenas brasileiras, eles podem apresentar variações, simplificações ou até distorções em relação às formas originais. Este glossário busca iluminar possíveis significados e conexões, sem pretender estabelecer equivalências definitivas, reconhecendo que a cidade também é feita de interpretações, camadas e reinvenções simbólicas. |
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Aicás. (ou Aikás), alameda de Moema, nome indígena para um boto, alinhado ao padrão de etnônimos adotado no loteamento de Indianópolis por Fernando Arens Júnior. Pode derivar de registros antigos de povos indígenas, com grafia variável. Há também uso amazônico em que “aicá” designa cetáceos de rios amazônicos, mas essa acepção é secundária no contexto do bairro. A origem exata permanece incerta, possivelmente resultado de adaptação de termos indígenas no início do século XX, possível etnia indígena.
Aimberé. rua do Bairro de Perdizes (veja Aimorés)
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| Placa de rua Aimoré representando povos indígenas. |
Aimorés. rua do Bom Retiro, povo indígena histórico do Brasil, (Aimoré = “inimigo feroz”, segundo registros coloniais). Aimbirés, aimborés ou Botocudos - "Aimoré" é um termo do Tupi Antigo que designa uma espécie de macaco, eram uma etnia indígena brasileira que habitava o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo nos séculos XVI e XVII. Ao contrário da maioria dos povos indígenas que habitavam o litoral brasileiro no século XVI, não falavam a língua Tupi. Relatos sugerem que eram 30 000 indivíduos.
Anapurus. alameda de Moema, topônimo de origem tupi. Deriva de anapuru, registrado em fontes coloniais como nome de ave, possivelmente um psitacídeo (família dos papagaios), conforme ocorre em cronistas como Cardim e Gândavo. No uso toponímico paulistano, segue o padrão adotado na urbanização de Moema e Indianópolis, que incorporou termos indígenas de fauna, flora e etnônimos sem rigor etnográfico estrito. Registra-se também em dicionários modernos de tupi, como o de Eduardo Navarro, mantendo o sentido de denominação zoológica, embora com incerteza quanto à identificação precisa da espécie.
Angatuba. (1908) – A criação desse topônimo foi uma tentativa de traduzir parcialmente o nome da Freguesia do Espírito Santo da Boa Vista, existente desde 1872. Talvez seu criador quisesse traduzir algo como Lugar do Espírito (Santo). O nome em questão, porém, poderia significar, em Língua Geral Paulista, Ocorrência do Espírito, Ajuntamento de Espíritos. Se a intenção do nomeador foi criar um nome em Tupi Antigo, foi desrespeitada uma regra de composição nesta língua e o nome deveria ter sido Anduba e não Angatuba.
Apinajés. rua de Perdizes, é atualmente a forma com os quais se designam e são designados pelos demais grupos Timbira e por seus vizinhos regionais. No vocábulo Timbira Oriental, povo indígena do Tocantins, Apinajé = grupo Jê)
Arapanés. alameda de Moema, topônimo de provável origem tupi. Possivelmente derivado de ara (“dia”, “tempo”, cf. Eduardo Navarro) + panema (“imprestável”, “sem rendimento”), com o sentido de “tempo improdutivo” ou “dia ruim para caça e pesca”. Forma não atestada diretamente nos léxicos clássicos, sugerindo adaptação toponímica moderna.
Arapeí. (1944) – Tal nome figura na obra de Theodoro Sampaio já mencionada: “Arapehy s.c. Arabé-y, o rio das baratinhas, dos lambaris” (p. 198). Com efeito, conforme as informações históricas que o IBGE fornece sobre tal município, foi criado um 1891 um distrito com o nome de Alambari, subordinado ao município de Bananal. Tal distrito foi extinto em 1892 e seu território foi anexado ao município de Bananal. Em 1944, é novamente criado o distrito, então com a denominação de Arapeí, também subordinado àquele município mencionado.
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| Placa de rua Aratãs representando um cristáceo de água doce. |
Aratãs. avenida, Aratãs. alameda, topônimo de provável origem tupi. Forma não atestada diretamente nos léxicos clássicos, possivelmente relacionada a termos como aratu, que designa crustáceos. Por extensão ou adaptação popular, pode ter sido associada a pequenos crustáceos de água doce, da família Sesarmidae, de coloração avermelhada, conhecidos na tradição local como Aratu (Aratus pisonii).
Batuíra. rua do Sacomã, ave típica do Brasil (nome de origem tupi). Batuíras são pequenas aves limícolas da família Charadriidae, comuns em praias, manguezais e áreas úmidas do Brasil. A batuíra-de-bando (Charadrius semipalmatus)
Bororós. rua, povo indígena do Brasil Central. Conhecidos como Bororo Oriental ou Orarimogodógu e chamados também de Coroados ou Parrudos. Com trezentos anos de contato, os Bororo podem ser tidos como um dos povos indígenas vivos mais pesquisados, habitam a região do planalto central no Estado de Mato Grosso, distribuídos em cinco Terras Indígenas já demarcadas: Jarudore, Meruri, Tadarimana, Tereza Cristina e Perigara.
Buritama. (1927) – A forma correta seria, em Tupi Antigo, Buriretama. O segundo elemento da composição está indevidamente reduzido.
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| Placa de rua Caetés representando povos indígenas. |
Caetés. rua do bairro das Perdizes, povo indígena histórico do Nordeste. Etnia que ficou famosa por terem atacado e comido o Bispo Sardinha, episódio que ficou famoso com o manifesto antropofagico da Semana de 22, Kaa-etê em Tupi-Antigo significa "gente da mata", viviam no território que compreende o intervalo do rio São Francisco até a ilha de Itamaracá, Recife e Olinda faziam parte desse território.
Caiabu. (1944) – Tal nome teve por fonte, certamente, a obra de Sampaio, que, na p. 212, escreve o seguinte: “CAIABÚ corr. CAÁ-YBÚ, a fonte ou olho d’água da mata”. Ora, tal etimologia, em Guarani, é correta, mas nada indica que fosse essa a intenção do nomeador ao criar o nome Caiabu.
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| Placa de rua Cajaíba representando um cajueiro. |
Cajaiba. rua das Perduzes, seu nome vem do tupi akaîá (ou kaîá), que designa a cajazeira, uma árvore frondosa cujos frutos eram muito apreciados desde o período colonial, conforme registrado por cronistas como Marcgrave e D'Abbeville. kaîá'yba (acaiaba) refere-se ao cajueiro (Anacardium occidentale), o que mostra como o sufixo -yba (árvore) era comum para diferenciar o fruto da planta. É importante destacar que 'yba' aparece com frequência em tupi para diversas denominações e composições com palavras. Seu significado principal é origem, princípio, começo, mas também cabo, galho ou ramos, como os de uma árvore, e pode ainda significar 'parte inferior'.
Cajobi. (1913) – O IBGE informa que tal nome seria a tradução do antigo nome do distrito de paz de Monte Verde, o que é incorreto. É possível que a etimologia dada pelo IBGE esteja equivocada e que a intenção do nomeador tenha sido outra. Com efeito, tal nome poderia provir de cajubi, cajubim da língua geral meridional, designações comuns de certas aves galiformes, cracídeas.
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| Índios Carijó, gravura de Ulrich Schmidl, 1559. |
Carijós. alameda, povo indígena do litoral brasileiro. Foi o povo nativo carijó da aldeia de Cotia (Acotia) ou aldeamento de Massiambu, com suas características particulares, que possibilitou a instalação dos primeiros habitantes brancos naIlha de Santa Catarina. A gênese da colonização e ocupação catarinense tem nesse fato o marco inicial de sua história, pois os nativos acolheram os primeiros viajantes europeus em suas aldeias, forneceram alimentos, moradia, segurança e estabeleceram acordos de troca e abastecimento dos navios espanhóis e portugueses, talvez tenha sido a primeira etnia a ter aprendido com os Portugueses a domesticação de animais, como galinhas para o abate ou produção de ovos.
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| O índio Peri salva Cecí do fogo durante um ataque dos Aimorés. Ilustração com base na pintura de "O Guarani". Sala principal do Teatro Amazonas, 1897 - Domenico de Angelis. |
Ceci. avenida do bairro da Saúde, Ceci é um nome comumente associado a duas figuras distintas na cultura brasileira: Cecília, a protagonista clássica de O Guarani de José de Alencar, que representa a idealização da mulher europeia amada pelo indígena Peri, e Ceci, a benzedeira vivida por Luci Pereira na novela Velho Chico.
Chibarás. Avenida de Moema, a explicação mais aceita no contexto urbano de São Paulo é que o nome homenageia os Chibarás, que seriam um grupo ou subdivisão indígena de tronco linguístico não especificado (possivelmente relacionado aos povos do litoral ou do interior paulista). Como Arens Júnior utilizou nomes de diversas nações (como Nhambiquaras e Maracatins), "Chibarás" segue essa lógica de reconhecimento étnico. Algumas fontes sugerem que o termo pode ser uma corrupção ou variação de nomes de tribos conhecidas em outras regiões, como os Chibchas (da Colômbia) ou grupos menores do Brasil central, adaptados para a fonética local.
Guatás. alameda do bairro da Saúde, do tupi güatá (v. intr.), “andar, caminhar; passar; seguir; deslocar-se; passear” (cf. Anchieta, Poemas; Arte de Gramática). O termo designa movimento contínuo ou percurso, podendo referir-se tanto ao caminhar quanto ao trânsito por caminhos, rios ou mares. Na toponímia, sugere ideia de via, passagem ou percurso, mais do que referência a fauna ou etnônimo. Provável aplicação como nome evocativo de caminho ou lugar de circulação.
Iacanga. (1909) – Pretendeu-se, aqui, traduzir com tal nome “cabeceira de rio”. Não há nenhum fundamento para isso, pois o termo akanga, do Tupi Antigo, não inclui tal sentido. Segundo o IBGE, Theodoro Sampaio teria dado a tal nome a etimologia de “nascente d’água”, o que não tem fundamento.
Ibijaú. Rua de Moema, bairro da zona sul de São Paulo, cujo nome remete ao grande urutau, ave do gênero Nyctibius, especialmente a espécie Nyctibius grandis, conhecida por sua camuflagem e hábito noturno. A via integra um conjunto de ruas da região que evocam elementos da fauna brasileira, compondo uma identidade toponímica ligada à natureza. Situa-se próxima ao curso do Ribeirão Uberaba, que em trechos urbanizados sofre com problemas recorrentes de drenagem. No cruzamento com a Rua Gaivotas, historicamente ocorrem pontos de alagamento em períodos de chuvas intensas.
Em resposta, a área vem passando por intervenções de infraestrutura, incluindo a implantação de um reservatório de retenção de águas pluviais, com o objetivo de reduzir enchentes e melhorar o escoamento. A Rua Ibijau representa, assim, um ponto onde natureza, memória e desafios urbanos se encontram no cotidiano de Moema.
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| Placa de rua Inhambu representando uma ave. |
Inhambu. avenida de Moema, Crypturellus parvirostris, popularmente conhecido como inhambu-chororó, ou inambu-chororó, lambu, nambu-pé-roxo, lambu-pé-encarnado, inambuzinho, perdiz, xororó, inhambu-xororó, inambu-xororó, nambu-xororó, nhambu-xororó, inamu-xororó e sururina[5] (em inglês, small-billed tinamou), é a menor espécie do seu gênero, medindo cerca de 19 centímetros. É uma ave de vasta distribuição geográfica no Brasil, habitando campos sujos, capoeiras, plantações e divisas de pastos. Terrícola, alimenta-se de sementes. No Brasil, ocorre nas regiões Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Sudeste, e no Norte em parte do Estado do Amazonas.
Iraés. alameda de Moema, do tupi eíra (s.), “abelha” (cf. Eduardo Navarro), com forma plural aportuguesada. O termo relaciona-se ao conjunto de designações indígenas para abelhas nativas, especialmente as sem ferrão (meliponídeos), amplamente conhecidas e nomeadas na tradição tupi. Por extensão toponímica, pode evocar abundância desses insetos na região ou referência simbólica à fauna local, ou ainda, eira-y, o riacho das abelhas.
Jacutinga. (veja foto no início desta matéria) avenida de Moema, também chamada jacuapeti, jacupará e peru-do-mato, é uma ave da família dos cracídeos que habita as florestas virgens das regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. Mede cerca de 75 cm, alimenta-se de frutos e bagas; sendo, até as décadas de 1950 e 1960, relativamente comum nesse habitat.
Jaguaribe. Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho, do Ceará, abolicionista. Deixou vários escritos como o “Clima da Província de São Paulo”. Jaguaribe ou Jaguarype, quer dizer rio das onças.
Jamaris. avenida de Moema, Jamari é o afluente do rio Madeira que possui a maior quantidade de dados arqueológicos. A história de grupos indígenas nessa drenagem começa há mais de 8 mil anos e dura até os dias de hoje, uma vez que no alto e médio curso do rio residem grupos Tupi.
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| Alameda dos Jurupis, referência ao Îurupari |
Jauaperi. alameda de Moema, povo extinto, localizado no início do século XX, que habitava as margens do rio Jauaperi, afluente da margem esquerda do rio Negro.
Jurupis. alameda de Moema, do tupi îurupary (s.), entidade mítica do imaginário indígena, frequentemente associada a espírito maligno, interdito ritual ou força temida; nos textos missionários, também interpretado como “demônio” (cf. Anchieta, Catecismo; D’Abbeville; sistematizado por Eduardo Navarro). Ex.: Eresykyfpe Anhanga, Taguatôa, Kurupira, iurupari kofpó te'õ abá supé? — “Invocaste o Anhanga, o Taguaíba, o Curupira, o Jurupari ou a morte para alguém?”; Efpe'a îurupari kó 'ara suí — “Afasta o Jurupari deste mundo...”.
A forma Jurupis representa adaptação toponímica e pluralização aportuguesada, sem registro direto no tupi clássico. O radical îurupary gerou derivados na tradição brasileira, como jurupáripindá (“anzol do Jurupari”), nome de peixe, e jurupáripiruba (planta medicinal amazônica). Também comparece em topônimos amazônicos.
Na toponímia, o nome evoca o universo mítico-religioso indígena, com possíveis conotações de interdito, temor ou força espiritual.
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| Placa de avenida Juriti representando uma ave. |
Juriti. avenida de Moema, é uma ave columbiforme da família Columbidae. Conhecida também como pu-pu (Rio Grande do Sul). Imortalizada na Canção de Waldemar Henrique:
Juriti, Juriti, Juriti
Teu gemido me faz tanto bem
Juriti, Juriti, Juriti
Como tu, vivo eu triste também
[…]
Maracatins. alameda de Moema. Do tupi maraká (s.), “maracá; chocalho ritual indígena”, instrumento sonoro utilizado em cerimônias religiosas e guerreiras para marcar o compasso das danças e invocações (cf. Anchieta, Catecismo; D’Abbeville; Sousa; sistematizado por Eduardo Navarro). A forma Maracatins apresenta adaptação toponímica e pluralização aportuguesada, possivelmente com sufixação secundária, sem correspondência direta documentada no tupi clássico.
O vocábulo maraká possui amplo campo derivativo e simbólico. Registra-se itá-maraká (“chocalho com pedras”), indicando o instrumento preenchido com seixos; maraká pu (“som do maracá”), referente ao ruído característico do objeto em uso ritual. Na tradição lexical brasileira, originou termos como maracatim (tipo de embarcação indígena, lit. “ponta de chocalho”) e maracaboia (“cobra de maracá”), denominação popular da cascavel, aludindo ao som de seu guizo. O radical também comparece em topônimos como Itamaracá e Maracaí.
Na toponímia urbana, o nome sugere referência simbólica à cultura indígena e ao universo ritual, evocando ritmo, som e cerimônia, mais do que elemento natural específico.
Mairiporã. (1948) – O nome é híbrido e tal hibridismo teve como causa o desconhecimento das diferenças entre o Nheengatu e o Guarani por parte de seu criador: mairi, em Nheengatu é cidade e porã é palavra Guarani, significando bonito(a).
Mococa. (1911) – Tal nome foi criado no século XX e, talvez, sob influência da obra de Theodoro Sampaio (1987, p. 284), que apresenta a seguinte etimologia para ele: “Mococa corr. Mô-coga, fazer roça; o roçado; a plantação”.
Morungaba. (1919) – Tal nome foi tomado da obra de Teodoro Sampaio citada anteriormente. Segundo esse autor, aquele nome significaria baliza (o que não tem fundamento), podendo proceder também de “morangaba [...], que exprime beleza, formosura” (SAMPAIO, 1987, p. 286). O IBGE, contudo, informa que o nome significa “colmeia” ou “lugar onde moram as abelhas”, o que é um absurdo.
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| Placa de rua Nhambiquaras representando povos indígenas. |
Nhambiquara. alemeda de Moema, Etnia indígena que vive hoje em 3 pequenos aldemenos: 1. Chapada dos Parecis, próximo ao Rio Juruena, no sudoeste do Mato Grosso; 2. Vale do Guaporé, na divisa de Rondonia com Brasil e 3. Ji-Paraná. Nambiquara é de origem Tupi e pode ser glosado como “orelha furada”, nome atribuido a partir da penetração da Comissão Rondon no interior do Mato Grosso que os índigenas até então referidos como “Cabixi” passaram a ser designados “Nambiquara”, termo pelo qual são conhecidos até hoje.
Narandiba. (1944) – Tentou-se criar, aqui, um nome que traduzisse laranjal. O nome é híbrido e tal hibridismo teve como causa o desconhecimento das diferenças entre o Tupi Antigo e o Guarani por parte de seu criador. Ndiba é forma nasalizada de tyba, termo do Tupi Antigo que significa ocorrência, ajuntamento. No entanto, o termo narã não é Tupi, mas Guarani.
Paissandu. ou Paiçandu, era antigo tanque de águas chamado Zunega, depois Praça das Alagoas. O nome refere-se a fatos da batalha do Paissandu em 1865 no Uruguai, pouco antes da guerra. Paissandu quer dizer, o velho, pai, sandu.
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Referências
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