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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Anambé

Toy Art Anambé


#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
7Anambé
Tupi-Guarani
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
PA131Siasi/Sesai 2012

Os Anambé vivem como os sertanejos da região. Suas casas são do tipo regional, adquirem equipamentos no comércio. Há algumas gerações realizam casamentos com não-índios, integrando os parceiros e os filhos na vida da aldeia. Reagem, no entanto, a qualquer tentativa de transferência do grupo da região do Cairari.

 Nome e língua

A língua Anambé é da família Tupi-Guarani. Nos anos 80, todos os Anambé com mais de 40 anos eram falantes da língua indígena e quase todos os que estavam na faixa de 20 a 30 anos a entendiam, mas usavam correntemente o português.

 População

Em 1940 eram 60 indivíduos. Mas a população decrescia, por motivo da saída de mulheres que se casavam com regionais e sucessivas epidemias de sarampo. A partir de meados da década de 60, a população Anambé começou a se recuperar; além disso, ao contrário do que acontecia anteriormente, os casamentos interétnicos passaram a atrair o cônjuge não-índio para dentro da Terra Indígena.
Território Anambé

Os levantamentos realizados em 1983 e 1984 pelo Cimi e pela Funai, respectivamente, são divergentes, talvez devido à grande mobilidade da população (por exemplo, entre abril e dezembro de 1982, 12 famílias Anambé, num total de 30 a 35 pessoas, foram transferidas para a TI Alto Rio Guamá e de lá retornaram para a região de origem). Segundo o CIMI, havia então 61 pessoas na TI Anambé, entre índios e não-índios e 11 indígenas dispersos nas vizinhanças e cidades da área.

Cacique Anambé
Segundo a Funai, havia 20 Anambé na TI (e mais 12 não índios), nas vizinhanças moraram 4 Anambé casados com não-índios e mais 8 constituintes de suas famílias que deveriam ser os filhos desses casamentos interéticos, famílias essas que estavam se preparando para entrarem na TI; duas mulheres Anambé em Mocajuba, e um filho de mulher Anambé, um Anambé funcionário da Funai em Itaituba, e outros dispersos pelo rio Cairari e Moju. Nenhum dos dois levantamentos permite chegar a um total de índios Anambé. Dados da Funai de 1996 dão um total de 118 habitantes na TI Anambé, sem distinguir índios de não-índios.

 Histórico do contato

Os índios Anambé viviam no passado a oeste do rio Tocantins, nas cabeceiras do rio Pacajá, que desemboca no rio Pará (braço do estuário do Amazonas que corre pelo sul de Marajó), perto de Portel. Segundo relato tomado de um líder Anambé pelo pesquisador Fereira Pena, em 1884, viviam desde muito tempo nas cabeceiras do Pacajá, obedecendo a um líder oriundo do ocidente, sábio e guerreiro.

Os brancos lhes vieram fazer guerra; depois, os jesuítas, que com eles mantinham a paz, começaram a separar as mulheres dos maridos e a levar muitos para Portel, os homens para trabalhar nas roças e remar, as mulheres para lavar roupa e cozinhar. Isso os desgostou muito, levou-os a desobedecer ao chefe e a separarem-se. Índios antropófagos lhes vieram fazer a guerra e eles retiraram-se para as cabeceiras do rio Cururuí, um afluente do Pacajá, formando a aldeia de Tauá, donde depois foram para o lugar onde o diretor de índios quis aldeá-los.

Onde estão os Anambé?

Vivem no alto curso do rio Cairari, um afluente do Moju, que corre paralelo ao baixo rio Tocantins, pela sua margem direita. Para mais informações sobre a TI veja ao lado em "Terras habitadas".

De fato, em 1852, uma parte dos Anambé se aproximou da margem esquerda do Tocantins, pediu proteção e se aldeou junto ao distrito de Baião. Os outros continuaram no alto Pacajá. Estes, em 1874, depois de uma guerra contra os indígenas chamados "Curumbu", ficaram reduzidos a 46 indivíduos; no ano seguinte morreram mais 37 de varíola. Os restantes foram juntar-se aos Anambé que se haviam aldeado junto ao Tocantins. As Anambé passaram a viver então nas proximidades da cidade de Baião, nas ilhas dos Santos e de Tauá. Até o final dos século XIX os Anambé oscilaram entre o Tocantins e o Pacajá e em algum momento atravessaram para a margem oriental do Tocantins, indo para a bacia do rio Moju.

As primeiras informações sobre os Anambé na bacia do Moju ora os confundem com os Turiwara, ora com os Amanayé. Conforme narraram ao antropólogo Napoleão Figueiredo, nas cabeceiras do Moju encontraram com os Gaviões Parkatêjê, que dali os expulsaram, obrigando-os a se deslocar na direção do Cairari. A princípio foram os únicos habitantes do alto Cairari, mas a partir dos meados do século XX começaram a entrar nessa área madeireiros e extratores de balata. A princípio os Anambé não foram engajados no trabalho da madeira, atuando mais como fornecedores de peles, carne de caça e farinha. Nos anos 70, alguns Anambé participavam nas turmas de madeireiros como trabalhadores diaristas, enquanto outros negociavam a madeira com um regatão, que era relacionado à mesma serraria. Mas a sua participação nos trabalhos da madeira era intermitente, e se tornou apenas ocasional na década seguinte.


 Modo de vida


Os Anambé perderam a maioria dos elementos culturais indígenas externos e seu modo de vida se assemelha ao dos sertanejos da região. Suas habitações são do tipo regional, com cobertura de palha ou de cavacos. Salvo pequenos cestos de carga, abanos, peneiras de trançado em espiral, fusos, pilões, ubás, arcos e flechas, todo o equipamento utilizado pelos Anambé é adquirido no comércio. Há umas quatro gerações fazem casamentos interétnicos com os regionais e os cônjuges não-índios e os filhos dessas uniões se integram à vida na aldeia. Nos anos 80, um antigo líder, talvez o único conhecedor das antigas tradições e dos cânticos indígenas tinha uma posição de prestígio, mas a liderança era exercida por um jovem com experiência na vida urbana, escolhido por ter maiores facilidades no trato com os regionais.

Os Anambé contaram a Napoleão Figueiredo que nos anos 40 foram levados até Belém e lá batizados, tendo como padrinho de todos eles o então governador Barata. A partir dos anos 60 passaram a batizar os filhos em Mocajuba, cidade para a qual se deslocam na festa da padroeira. Também mantêm contato com os pentecostais da Vila Erlim, próxima da aldeia. Sua mitologia sofreu influência tanto católica como evangélica e a figura do pajé já desapareceu faz muito tempo.

Os Anambé deixaram de comerciar o óleo de copaíba e o leite de maçaranduba, como faziam nas décadas de 50 e 60. E retiram madeira apenas quando necessitam uma quantia maior de dinheiro. Vendem regularmente os excedentes de suas roças (milho, arroz, farinha de mandioca), e eventualmente carne de caça, seja aos regatões que vão até a aldeia, ou diretamente em Mocajuba. Além da agricultura, outras atividades servem de suporte à subsistência: a caça, feita em grupo pelos homens, com o uso de espingardas, complementada pela apanha de jabutis pelas mulheres e crianças, se exerce sobre uma fauna hoje ameaçada pelos desmatamentos feitos por fazendas e serrarias; a pesca, realizada, com anzóis e linha, arco e flecha, sobretudo na estação seca, quando se recolhem também tracajás; e a coleta de frutos e mel.

 Fontes de informação

ARNAUD, Expedito C.; GALVÃO, Eduardo. Notícias sobre os índios Anambé (Rio Caiari, Pará). Boletim do MPEG: Antropologia, Belém : MPEG, n. 42, 17 p., set. 1969.
CEDI. Anambé. In: RICARDO, Carlos Alberto. Povos Indígenas no Brasil. v. 8, Sudeste do Pará/Tocantins. São Paulo : Cedi, 1985. p. 150-61.
FIGUEIREDO, Napoleão; SILVA, Anaíza Vergolino. Projeto Cairari : diário de campo. Belém : UFPA, 1969.
--------. Projeto Cairari : fototeca. Belém : UFPA, 1969.

GOMES, Jussara Vieira. Grupos indígenas Amanayé e Anambé do Pará : relatório. Boletim do Museu do Índio, Rio de Janeiro : Museu do Índio, n. 7, 72 p., dez. 1997.

Xicrin

Indio Xikrin Toy Art - com trage de festa

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
108XikrinKaiapó, Caiapó, Gorotire, Mekrãgnoti, Kuben-Kran-Krên, Kôkraimôrô, Metyktire, Xikrin, Kararaô, Mebengokre
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
MT, PA8638Funasa 2010



Os Xikrin, grupo de língua Kayapó, enfatizam a audição e a palavra. A fim de aguçar estas qualidades, os Xikrin perfuram, logo na infância, os órgãos correspondentes (orelhas e lábios). Ouvir está diretamente relacionado ao saber, à aquisição do conhecimento. A oratória, por sua vez, é uma prática social muito valorizada, como para os grupos kayapós em geral, que se definem como aqueles que falam bem e bonito – Kaben mei – em oposição a todos os outros povos que não falam sua língua. O dom da oratória é atributo dos homens e envolve discursos inflamados, realizados no centro da aldeia.

 Nome

Todos os grupos kayapó autodenominam-se mebengokré, ou seja,  “gente do buraco d´água” ou “gente da água grande”, referindo-se aos rios Tocantins e Araguaia, cuja travessia foi supostamente a separação do grupo ancestral. As tradições orais kayapó remetem à diferenciação dos povos Jê como tendo ocorrido na área entre os rios Araguaia e Tocantins, no atual estado do Tocantins. Segundo o mito, os ancestrais dos Jê viviam juntos como um só grupo nessa área até descobrirem uma grande árvore de milho, mas, à medida que recolhiam as sementes, começaram a falar línguas diferentes e se separaram nos diversos grupos jê atuais.

Além da autodenominação mebengokré, cada grupo possui um nome próprio de algum líder ou localização de aldeia.  Os Xikrin costumavam denominar-se Put Karôt, tendo o nome Xikrin surgido do modo como outro grupo kayapó, os Irã-ã-mray-re, hoje extintos, os chamavam. É interessante notar que os Xikrin que vivem na região do rio Bacajá reconhecem o grupo que vive na região do rio Catete como Put Karôt, mas não a si mesmos.

Os demais Kayapó se referiam aos Xikrin como Djore, nome de um outro grupo extinto que vivia às margens do Rio vermelho, afluente do Itacaiúnas. Na literatura mais antiga os Xikrin são referidos como UXikring, Chicri e Purucarus ou Purukarôt.

 Língua

Os Xikrin falam a língua Kayapó (ou Mebengokré), da família lingüística Jê, tronco lingüístico Macro-Jê. Reconhecem a semelhança de sua língua com  a dos outros grupos e podem também listar as diferenças. Isso é interessante, pois reconhecem, por um lado, uma unidade e identidade lingüística, e, por outro, as diferenças internas a esse grupo maior. Assim, todos os membros de um grupo kayapó se entendem com facilidade, o que não se repete na comunicação dos Xikrin com os outros grupos de língua Jê.

Na aldeia, entre si, os Xikrin usam apenas a própria língua. Homens jovens e que possuem maior oportunidade de contato com a sociedade envolvente falam melhor o português do que os homens velhos, mulheres e crianças.

Apenas recentemente, lingüistas têm se dedicado a estudar essa língua, atentando para as particularidades da fala Xikrin. O Kayapó tem uma grafia formulada pela Sociedade Internacional de Lingüística (SIL), órgão missionário que atua há décadas entre esses grupos.

 Localização

Os Xikrin vivem nas Terras Indígenas Cateté e Trincheira Bacajá no estado do Pará.
Território Kqyapó Xikrin

A área dos Xikrin do Cateté é banhada pelos rios Itacaiúnas e Cateté e se situa em terras firmes de mata tropical chamada nesta região de mata de cipó, no interior da jurisdição do município de Parauapebas, mas mais próxima do núcleo urbano de Carajás. É rica em mogno e castanheiras. Nas clareiras, há grande concentração de babaçu e nas regiões pantanosas, ao sul, incidência de buriti. A maior aldeia bem como o posto da Funai, situa-se à margem esquerda do rio Cateté, no lugar denominado pelos índios de Pukatingró, onde o rio faz uma curva ampla, com praia e cachoeira rasa. A partir de 1993, iniciou-se a formação de uma nova aldeia, em local denominado pelos índios Djudjê-Kô, com solo fértil para as roças e rico em caça e peixe.
Criança Xicrin vestida para a festa do Tatú

Os Xikrin do Bacajá vivem à margem esquerda do médio rio Bacajá, afluente da margem direita do Xingu, município José Porfírio. A região é coberta de mata densa. Em 1985, houve cisão e uma parte do grupo estabeleceu-se a montante, na aldeia do Trincheira.

Os Xikrin constroem as suas aldeias perto de um rio ou igarapé, mas em terreno seco e bem drenado. O espaço social constitui-se de uma praça central, com um círculo de casas ao redor, e da mata circundante, com pequenas roças circulares. As casas possuem uma localização física certa e obedecem a uma ordem estável, que é mantida quando constroem uma nova aldeia ou acampamento na floresta. No centro da aldeia, está situada a Casa dos Homens, espaço masculino, político, jurídico e ritual.

 Cosmologia

O centro do mundo é representado pelo centro do pátio da aldeia circular, onde se desenvolvem os rituais e a vida pública em geral. O símbolo do centro do mundo e do universo é o maracá, instrumento musical, redondo e em forma de cabeça, ao som do qual os índios cantam e dançam seguindo um traçado circular que acompanha a trajetória solar. Dançando, os índios dizem que remontam ao tempo das origens míticas, recriando assim a energia necessária à continuidade e estabilidade do meio ambiente e dos recursos necessários à sobrevivência, à reprodução continua da vida e das diferentes instituições sociais que garantem o equilíbrio indispensável à vida em comunidade.

Os Xikrin definem espaços naturais distintos: a terra, dividida em clareira e floresta, o céu, o mundo aquático e o mundo subterrâneo. Estes são concebidos com atributos e habitantes distintos e se relacionam entre si de maneira diferenciada. Os espaços naturais são os diferentes domínios que compõem o cosmo. A floresta é a morada de diferentes categorias étnicas inimigas, dos animais terrestres e também das plantas. Ela é o espaço da caça prestigiada, como no caso da anta, jabuti, tatu, queixada. Mas a apropriação indevida, sem regras, do mundo animal, causa a fúria de uma entidade sobrenatural, o dono-controlador dos animais que, por meio do feitiço, regula a ação predatória dos homens. Por outro lado, é da floresta que provêm atributos importantes da sociabilidade Xikrin. Foi neste domínio que, no tempo das origens, os índios se apoderaram do fogo e da linguagem cerimonial. A floresta é vista como um espaço físico compartilhado por animais e inimigos: é um espaço competitivo, agressivo. Nas situações de doenças, é o domínio com o qual não se deve ter contato.
Toy Art da Etnia Xicrin original - saiba como ter a sua contato@blemya.com

A neutralização da agressividade é realizada na clareira, lugar da aldeia e das roças, por meio de espécies animais domesticadas e das plantas cultivadas. A clareira é o lugar das relações de parentesco e aliança, da socialização do indivíduo, enfim, da definição da humanidade Xikrin. No domínio aquático, encontra-se a possibilidade do fortalecimento dos aspectos físicos e psicológicos do indivíduo. A água faz amadurecer rapidamente através de rituais de imersão, sem, porém, alterar a substância do ser. A água é um elemento da criação, contrariamente ao fogo, elemento da transformação. Neste domínio, existe também um dono-controlador. Sua relação com os homens é de solidariedade e, no tempo mítico, marca o início das relações entre os homens e os outros domínios. Foi o dono-controlador do mundo aquático que ensinou aos homens a cura das doenças. As plantas medicinais são do domínio terrestre, mas seu conhecimento e as regras de sua manipulação para o benefício dos homens foram adquiridos no mundo aquático pela mediação de um xamã e de sua relação com o dono-controlador deste domínio. O mundo subterrâneo está relacionado ao sangue, ao comer cru, ao canibalismo, representando a condição verdadeiramente anti-social, em que os homens são presas e não predadores. Ele representa aquilo que os homens não querem ser. No domínio do céu, o Leste é o lugar da humanidade por excelência, o lugar de origem dos Xikrin. Os Xikrin possuem dois mitos que os consagram como habitantes da terra, em oposição ao céu (Koikwa), de onde provêm, e em oposição aos habitantes subterrâneos, que eles conseguiram eliminar para sempre (kuben kamrik).

Do ponto de vista geográfico, reconhecem dois pontos cardeais: Leste (Koikwa-krai) e o Oeste (Koikwa-enhôt). O Leste é uma região bem definida, localizada geograficamente. Trata-se do lugar de origem dos Mëbengôkré, como indica a mitologia. O Oeste é simplesmente um ponto de referência convencional de delimitação do espaço, em oposição ao Leste, mas, por não ser definido, ninguém poderia situá-lo. Segundo os índios, representa o fim do mundo. A região a leste dos rios Araguaia e Tocantins é apresentada como um espaço mítico, limitado por uma imensa teia de aranha que desce do céu até a terra. Do outro lado desta teia de aranha encontra-se a moradia do gavião-real, ok-kaikrit, iniciador do xamã.

 Xamanismo

Na sociedade Xikrin, um indivíduo se torna xamã quando vivencia uma situação-limite, durante a qual transpõe uma grande teia de aranha, atinge o espaço celeste, da luz eterna, e tem sua nuca simbolicamente perfurada por um gavião-real, a maior ave deste ecossistema. O xamã, ser sobre-humano, e cujos poderes são adquiridos “extra-socialmente”, é o mediador entre a sociedade Xikrin e a natureza e entre a sociedade Xikrin e o sobrenatural. O xamã tem o poder de transitar tanto no mundo dos homens como no mundo da natureza. Os humanos, ao longo de suas vidas, acumulam atributos de diferentes domínios cósmicos e se constroem por meio deles. O xamã vivencia, compartilha e se comunica continuamente com estes domínios. Ele detém o papel de intermediador por excelência. O xamã é um ser pleno: vive na sociedade dos homens, compartilha da sociedade dos animais, do sobrenatural e tem a capacidade de manipular os diferentes domínios. Ele pode, entre tantos outros atributos, negociar com os donos-controladores do mundo animal, uma boa caçada ou uma farta pescaria. Ele é iniciado pelo gavião-real, habitante do mundo celeste, adquirindo assim, a capacidade de voar e, voando, possui uma visão cósmica do universo. Diz-se, entre os Xikrin, que o xamã, indivíduo que também manipula doenças e resgata a alma que se perdeu do corpo, consegue “ver” no sentido amplo: enxerga o que é invisível aos homens. O xamã, acreditam os Xikrin, vê excepcionalmente bem e somente ele e as aves possuem esta faculdade desenvolvida.

 Vida cerimonial
Quando uma comunidade conta com um número suficiente de pessoas, recursos humanos, o ciclo de rituais é contínuo. Durante os rituais, os indivíduos tomam conhecimento das relações de parentesco, das relações de amizade formal, das propriedades de cada indivíduo, isto é, de aspectos da organização e reprodução social. O canto, a coreografia e os ornamentos, dos quais os homens se apropriaram no tempo das origens, são reproduzidos no ritual como manifestações da situação atual da humanidade no cosmo.  Durante os preparativos, os homens saem por quinze dias ou mais em busca de carne suficiente para realizar um ritual. Na mata, constroem abrigos simples, onde serão atadas as redes. Isto ocorre perto de um rio, para a pesca, e de uma roça antiga, para a caça e coleta de frutas. Vários fornos de pedra assam, diariamente, as carnes nobres e que serão, depois de prontas, envoltas em folhas de bananeira selvagem e, enterradas, aguardarão o dia de levantar acampamento e retornar à aldeia.

Enquanto os homens caçam, as mulheres ficam na aldeia, preparando a farinha de mandioca, colhendo batata doce e coletando inúmeros cachos de bananas que serão consumidos durante o ritual. As bananas, enterradas para maturar, funcionam, de certa forma, como um relógio natural que indicará o dia do ritual. Os mais importantes são os de nominação masculinas (Bep, Takak) e femininas (Bekwe, Ire, Nhiok, Payn, Koko) e os de iniciação masculina, constituído por cinco fases, cada uma delas relacionadas simbolicamente a um domínio cósmico específico. Estes rituais são por vezes inseridos em outros, como a festa do milho novo ou o merêrêmei, “festa bonita”, que se realiza na época de transição entre a seca e a estação chuvosa; as festas que incorporam novos membros em uma sociedade cerimonial, como a dos tatus – Apieti –; o ritual de casamento ou festa da esteira; os rituais funerários e a pesca ritualizada do timbó.

Outras leituras

Texto de Isabelle Vidal Giannini sobre a Festa de sete de setembro na aldeia Cateté

Há ainda rituais introduzidos recentemente, o Kworo-kango, ou a festa da mandioca, de origem Juruna. Homens e mulheres desenvolvem suas festas separada ou conjuntamente. Os rapazes são submetidos a uma grande variedade de provas iniciatórias: a briga contra um ninho de marimbondos, que simboliza uma aldeia inimiga, corridas e escarificações nas pernas para aumentar a agilidade, duelos com espadas pesadas ou jogos competitivos.  Em certas épocas, o ciclo ritual atinge seu clímax e se desenvolve, durante alguns dias, com grande intensidade e em grande estilo. Na vida cerimonial, encontra-se também um local privilegiado de expressão dos modos como eles refletem sobre relações que vêm mantendo com o mundo dos brancos

 Organização social

O grupo doméstico, constituído por pessoas que vivem sob o mesmo teto, é uma instituição básica. Uma mulher nasce, vive e morre na mesma casa. As casas, assim como as roças, pertencem às mulheres. Após o casamento, o homem vai viver na casa de sua esposa. As mulheres de uma casa desenvolvem atividades em conjunto. Cabe-lhes o trabalho na época do plantio, a colheita diária de tubérculos para a alimentação, o abastecimento de lenha e água, assim como parte da coleta da floresta. São responsáveis pelas tarefas domésticas como processar e cozinhar os alimentos e cuidar dos filhos. Dedicam também grande tempo à pintura corporal, atividade extremamente desenvolvida, fiam o algodão e desempenham papel importante durante os rituais. Ainda que não participem formalmente do Conselho, opinam sobre as discussões coletivas e decidem sobre os assuntos relacionados à nominação e casamentos.

Outras leituras

A Pintura Corporal e a Arte Gráfica, texto de Lux Vidal .

As questões de ordem política são propostas e resolvidas no conselho dos homens, no centro da aldeia, do qual participam todos os homens, desde os mais jovens, testemunhas silenciosas, até os mais idosos, testemunhas mais distantes. A incorporação de um jovem na casa dos homens se dá por volta dos dez anos de idade, por meio de laços de amizade que não têm nada a ver com os laços de parentesco. Desde o momento de sua introdução na casa dos homens até o nascimento de seu primeiro filho um jovem passa por diferentes categorias de idade. O nascimento de um filho marca o momento em que o jovem passa a ser um adulto. A casa dos homens está associada aos grupos masculinos e as atividades tipicamente reservadas aos homens. Nela, diferentes grupos, divididos por categoria de idade, se reúnem, ocupando espaços distintos. Cada categoria conta com um chefe que atende e expressa os anseios de seu grupo. É muito difícil ter um chefe que administre a aldeia inteira sozinho.

A sucessão à chefia da aldeia, entre os Xikrin, se dá dentro de uma mesma família, transmitindo-se de pai para filho e de filho mais velho a filho mais moço. Os homens geralmente trabalham sob a direção de um chefe, divididos em categorias de idade. Mas para ser um chefe, é necessário um aprendizado que leve ao pleno conhecimento dos rituais, cantos, atividade cotidianas, práticas de guerra, mitos e história do grupo. Um chefe não dispõe de meios coercitivos para impor uma decisão às diferentes categorias de idade. É por meio do discurso, da exaltação dos valores morais e dos interesses destes grupos que um chefe consegue propor e ter aceitas as suas idéias.

Um chefe nunca toma uma decisão sozinho, ele não tem o poder para isso. Ele deve estar atento às necessidades, vontades e idéias que circulam no interior de cada grupo de categoria de idade, e logo que ele enxergar um possível consenso, o chefe deve formulá-lo de forma que todos o apóiem, como se a idéia fosse sua. No caso de discórdia, a categoria de idade dos mais velhos é consultada.

A caça e a pesca podem ser atividades individuais ou coletivas. Cabe a eles a confecção da maior parte dos ornamentos corporais, cestaria esteiras, instrumentos musicais, bordunas, arcos e flechas. Em certas ocasiões, os grupos de idade se definem de modo mais visível, como durante a vida nômade, quando cada categoria se dedica a atividades específicas, ou durante certos rituais ou competições esportivas. Muitas vezes eles se dividem em metades (jovens versus casados) e desempenham várias atividades econômicas, políticas e cerimoniais.

Todo indivíduo sabe se relacionar com os outros indivíduos da aldeia por meio da terminologia de parentesco. Os membros de uma mesma família ou de um segmento residencial, incluindo parentes afins, formam unidades de apoio mútuo, no convívio cotidiano e em caso de doença.

As relações de nominação são importantíssimas. Receber um nome faz parte de um longo processo de socialização do indivíduo. No decorrer de sua vida, uma pessoa chega a acumular trinta e cinco nomes, transmitidos pela categoria de nominadores e que inclui várias posições genealógicas. Um nome só pode ser transmitido cerimonialmente para um indivíduo considerado “duro”, com seu corpo formado e sadio. Os nomes, além de relacionarem os homens entre si através dos ancestrais, os relacionam com os diferentes domínios da natureza. A nominação pode ser perigosa para uma criança que ainda não sabe andar ou para uma pessoa doente.

 Histórias de cisões e ocupação territorial
A configuração atual dos grupos Kayapó resulta de um longo processo de mobilidade social e espacial, marcado pela constante formação de facções e cisões políticas. As histórias dessas trajetórias cheias de tensões, conflitos, acusações de feitiçaria e epopéias de líderes, povoam a memória dos Kayapó atuais, sempre contadas e recontadas dramaticamente e detalhadamente pelos mais velhos.  Após sua cisão do grupo ancestral Apinayé,  ocorrida aproximadamente no começo do século XVIII e após ter atravessado o rio Araguaia, os Kayapó cindiram-se no final daquele século. O grupo original permaneceu ocupando a região do Pau d´Arco, afluente do Araguaia e o grupo denominado Pore-kru, ancestral dos atuais Xikrin, rumou em direção ao norte, para a região do rio Parauapebas e Itacaiúnas. Mais tarde, esse grupo cindiu-se em dois: os Kokorekré que ficaram na região do rio Parauapebas e os Put-Karôt, que se deslocaram para a região do rio Cateté, no Alto Itacaiúnas. Os Kokorekre (Kokorekré), que começaram a estabelecer relações de troca com os regionais que subiam o Parauapebas, também foram vitimados por doenças, além de sofrer por volta de 1910, uma pesada matança por parte de uma expedição punitiva de regionais. Com a exploração da borracha, as relações dos Put-Karôt com os regionais deterioraram-se e os índios retiraram-se do Cateté para as cabeceiras do Itacaiúnas. Foi nesta aldeia que um grupo debilitado do Kokorekré se juntou aos Put-Karôt. Por volta de 1926, com medo dos Kayapó-Gorotire, com quem tiveram um longo período de hostilidade, eles migraram para o norte e se instalaram na região do rio Bacajá. Pouco depois, entre 1930 e 1940, um grupo que não se agradara com o lugar, separou-se e voltou para o rio Cateté.

Calcula-se a chegada dos Xikrin na região do Bacajá como tendo ocorrido em 1926 ou 1927. Quando chegaram ao Bacajá, perambularam bastante pelas duas margens do rio, erguendo diversas aldeias e enfrentando, em alguns momentos, os Araweté, os Asurini e os Parakanã. Os confrontos com esses últimos são mais recentes e todos os adultos se lembram deles.

 Contato com não-índios e população

O primeiro contato formal dos Xikrin do Cateté com não-índios foi em agosto de 1952, no Posto Las Casas, do SPI, próximo à vila de Conceição do Araguaia. O contato dos sertanistas do SPI com os Xikrin do Bacajá deu-se no dia 13 de novembro de 1959, quase na foz do Igarapé Golosa com o rio Bacajá. Foram vitimados por epidemias que ocasionaram muitas mortes, e os índios embrenharam-se novamente nas matas.

Em 1961, outra frente do SPI os contatou no Igarapé Carapanã na margem direita do Bacajá, onde possuíam uma grande aldeia. Tempos depois os Xikrin estabeleceram-se junto ao antigo posto do SPI, chamado Francisco Meirelles, abaixo do igarapé dois irmãos. Em 1965, finalmente, foram transferidos para o local da atual aldeia, chamado Flor do Caucho. Não existem dados populacionais confiáveis para esta época. Sabe-se, entretanto, que houve uma grande mortandade. Gripe, bronco-pneumonia e outras doenças atingiram ambos os grupos.

Nas últimas duas décadas, porém, os dados demográficos demonstram que os Xikrin têm tido crescimento populacional constante, devido ao grande número de nascimentos, ao lado do número reduzido de morte de adultos e da redução considerável da mortalidade infantil. Isto se deve ao abandono de certos tabus de controle de natalidade e à assistência do órgão oficial indigenista. Para se ter uma idéia, a população Xikrin que, em 1985, era de 472 indivíduos, 304 na área Cateté e 172 na área Bacajá, contava em 2001 com 1052 indivíduos, 690 no Cateté e 362 no Bacajá.

 Uso dos recursos naturais

O uso dos recursos naturais é extremamente diversificado. Os Xikrin conhecem e distinguem, em detalhes, a fauna e a flora. Eles reconhecem não somente a diversidade biológica (variedade de espécies da fauna e da flora) como também a diversidade ecológica (variedade de ecossistemas). A conservação pela sociedade Xikrin da diversidade biológica e ecológica é de extrema importância para a perpetuação social dos conhecimentos classificatórios e simbólicos e da utilização pragmática do meio ambiente. Os Xikrin definem-se como essencialmente caçadores, apesar de sua dependência dos produtos da roça. As caças mais apreciadas são a anta, a queixada, o veado, o caititu, a paca e a cotia. Pegam jabutis em grandes quantidades e desentocam tatu. Ultimamente, algumas aves entraram no cardápio, o que representa uma novidade.

Várias espécies de peixes fazem parte da alimentação. Pescam no inverno com linha de nylon e anzol. No verão, prevalece a pesca comunitária com timbó. Atualmente percebe-se uma diminuição significativa dos recursos pesqueiros. Os problemas são causados pelo fato de todas as cabeceiras de rios que banham a Terra Xikrin do Cateté estarem fora da área demarcada. Esses rios passam por área de garimpo, grandes extensões de fazenda onde a proteção da mata ciliar não é respeitada, causando seu assoreamento gradativo. Por outro lado, os índios que antigamente eram possuidores de imensos territórios (dimensionado por infinita continuidade), exploravam apenas parte dos seus recursos naturais disponíveis. Hoje, estes recursos não se apresentam mais como inesgotáveis.

O hábito de perambulação pela área, além de diversificar a dieta, permite um manejo muito bem planejado de diversos ecossistemas. Muitos rituais dependem destas perambulações, essenciais para o aprovisionamento de alimento para promover as cerimônias e de outros produtos não encontrados no entorno da aldeia. Por exemplo, as coités para confecção de maracás cerimoniais, somente encontradas nos campos da cabeceira do rio Itacaiúnas, plantas medicinais, fibras, cera de abelha, almécega, penas de aves. Da floresta, coletam para o consumo o palmito, a castanha-do-pará, o coco babaçu e cocos menores, diferentes qualidades de mel, frutas silvestres (açaí, bacaba, frutão, cupuaçu, cacau bravo, etc...) e larva de coco.

Coletam também toda a matéria-prima necessária para a sua cultura material, especialmente madeiras, cipós, palhas, além de conchas, caramujos e sementes diversas. Mas, o que se percebe é que existe uma diminuição quantitativa da matéria-prima utilizada pelos Xikrin no seu cotidiano ou para confecção dos ornamentos e, sendo assim, assistimos à substituição de conchas de itã por botões, sementes diversas por miçangas, unhas de veado e anta por sinos de metal. As mulheres Xikrin passaram a produzir uma maior quantidade de óleo de babaçu, produto trocado por penas de aves com outros Kayapó.

Apesar das mudanças drásticas e rápidas às quais são submetidos, os Xikrin continuam realizando a agricultura de coivara e plantando várias qualidades de batata-doce, inhame, macaxeira, milho, abóbora, mamão, bananas e algodão. O preparo do terreno para o cultivo divide-se em três fases sucessivas: a broca e a derrubada (maio e junho), a queimada e o plantio (outubro). As roças, mesmo após serem abandonadas para o cultivo são fontes de aprovisionamento, durante um longo período de tempo, de diversos produtos, como lenha, batata doce, frutos, jenipapo e urucum (utilizado na pintura corporal), babaçu (para óleo) e plantas medicinais, espécies plantadas ao redor das casas.

Durante estas últimas décadas, mesmo com suas terras demarcadas, as áreas Xikrin têm sido alvo constante de invasões por parte de castanheiros, garimpeiros, fazendeiros ou madeireiros. O contato, as mudanças e adaptações formam uma espiral que, de dentro para fora, se amplia rapidamente causando mais impactos e onde as soluções somente podem ser vistas através de uma nova forma de manejo.

Em 1991, os Xikrin do Cateté, deixaram de ser seduzidos e cooptados por regionais e retomaram o controle de seu território. Por meio de um apoio externo contínuo, eles articularam e ganharam uma ação civil pública contra empresas madeireiras, que atuavam ilegalmente em seu território, e desenvolveram um plano de manejo florestal, cuja função principal é de concatenar atividades tradicionais de subsistência e o uso tradicional dos recursos naturais, com atividades de exploração comercial de produtos florestais, tais como castanha-do-pará e madeira.  Para a defesa dos direitos de seu povo e para facilitar as articulações e parcerias institucionais, os Xikrin do Cateté criaram, em 1995, a Associação Bep-Nói. O seu estatuto, amplamente discutido pela comunidade, respeita a sua complexa organização social (Leia mais sobre o Projeto de Exploração Madeireira na TI Xikrin do Cateté).

Os Xikrin do Bacajá fazem anualmente uma coleta de castanha-do-pará, que vendem a comerciantes em Altamira. Geralmente, essa atividade é auxiliada pela Funai, que fornece novos facões (para a quebra do resistente ouriço onde se encontram as castanhas), munição, redes, mosquiteiros e roupas, e cuida do transporte e da venda, retornando aos índios o lucro. Essa atividade, no entanto, não tem se mostrado muito rentável, apesar da grande extensão de castanhais na reserva Trincheira-Bacajá; o preço da castanha é baixo, e a Funai debita dos lucros os materiais que fornecera para a coleta.

Outras leituras

Artigo Para entender o projeto de exploração madeireira na TI Xikrin, por Isabelle Vidal Giannini publicado no livro Povos Indígenas no Brasil 1996-2000

Mais rentável, embora ilegal, é a extração de madeira, especialmente mogno, mas também cedro. A cada verão, quando se torna possível, pela ausência de chuvas, a retirada das toras, os Xikrin são assediados por madeireiros para explorar o mogno. Esses madeireiros costumam ser sediados em Tucumã, e têm como intermediários pessoas com grande experiência anterior de negociação com comunidades Kayapó. Há alguns anos, madeireiros abriram uma estrada que parte da margem do Bacajá oposta à da aldeia e vai a Tucumã, tendo diversos ramais. A exploração de madeira está cada vez mais próxima da aldeia, e tem causado um grande estrago à floresta. Discutir com os índios, porém, é uma tarefa difícil, já que eles se mostram cientes dos riscos à floresta e à caça, mas são seduzidos pela renda. A madeira é paga em mantimentos, e há indícios de que alguns homens monopolizam a renda monetária, depositando-a em contas bancárias. A Funai e a Polícia Federal têm organizado vários flagrantes a essa atividade, não conseguindo, porém, dar um fim a ela.

 Educação tradicional

O ensino tradicional dá-se por meio da convivência e da observação participante. Os adultos orientam, corrigem e às vezes ensinam de modo mais sistemático, cantos, coreografias e seqüências rituais a turmas de meninos e meninas. Nota-se a importância pedagógica da repetição e da participação nos diferentes acontecimentos. Um indivíduo, com marcada inclinação para desempenhar uma atividade específica, aprende de modo mais contínuo com aquele que é um especialista reconhecido naquela atividade. As meninas aprendem a pintura corporal em casa, com parentes adultas.  Os mitos são contados pelos velhos, sob forma de conto, de drama ou de discurso político. Existem punições, ou melhor, algum tipo de pressão por parte de parentes e da comunidade com relação a comportamentos desviantes, especialmente através do ridículo ou de um ligeiro ostracismo. O trabalho bem feito ou o comportamento considerado adequado é publicamente louvado e admirado.

Outras leituras

Ser criança, crescer e aprender como um Xikrin, texto escrito pela antropóloga Clarice Cohn

A educação procede por etapas que, grosso modo, correspondem às categorias de idade e à divisão sexual de atividades. Devido a aptidões pessoais, alguns indivíduos são especialistas para atividades como a de  xamã, cantador ou artesão. Aceitar tal função é ter a reconhecida capacidade de desempenhá-la. O pretendente a xamã precisa passar por uma doença grave, sonhar bastante e ser instruído por outro xamã mais velho. Os cantadores herdam sua função de seus nominadores. Aqueles que possuem alguma habilidade artesanal mais pronunciada procuram a companhia dos velhos e bons artesãos para aprender com eles.

 Nota sobre as fontes

O texto acima é uma tentativa de síntese das fontes de informações existentes sobre os Xikrin. Na bibliografia etnológica, a monografia Morte e Vida de uma Sociedade Indígena Brasileira, de Lux Vidal, publicada em 1977, é referência obrigatória para quem quer estudar a sociedade Xikrin. Ela descreve de forma detalhada esta sociedade enfatizando a organização social, o sistema de categorias de idade, as relações de parentesco, de amizade formal, papéis cerimoniais, as oposições entre centro/periferia, homem/mulher, natureza/cultura. Realiza uma análise sobre as relações entre nominadores e nominados, transmissão de prerrogativas, assim como a organização social por meio de um estudo de rituais de imposição de nomes. Entre os anos de 1978-1986, Vidal escreveu artigos importantes sobre o significado da ornamentação corporal. Dentre eles, “Pintura e adornos corporais”, publicado na  SUMA Etnológica Brasileira, organizado por Berta Ribeiro, e  “A pintura corporal e a arte gráfica entre os Kayapó-Xikrin do Cateté”,  publicado na coletânea Grafismo Indígena, organizada pela própria autora. A autora também escreveu um artigo sobre as categorias de idade como sistema de classificação e controle demográfico de grupos entre os Xikrin do Cateté e de como são manipulados em diferentes contextos. Este artigo pode ser encontrado na Revista do Museu Paulista, vol. XXIII. O assunto da morte e da saudade, sentimento tão presente entre os Xikrin, foi abordado pela autora em um artigo denominado “A morte entre os índios Kayapó”,  publicado no livro A Morte e os Mortos na Sociedade Brasileira, organizado por José de Souza Martins.

Como referência das décadas de 1960 e 1970, temos ainda a obra de padre Caron (1971) sobre os índios Xikrin, escrita sob forma de diário, registro de sua atuação missionária, no período de 1964 a 1970. Além das notas de Protásio Frikel contendo plantas e detalhes da construção da casa Xikrin, na época do contato, assim como descrições dos equipamentos e as técnicas de subsistência utilizados pelos mesmos. Horace Barnner, em seu artigo publicado em 1961, no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, aborda a vida dos Xikrin em seu acampamento e suas relações com os regionais.

Em 1991, Isabelle Giannini escreveu sua dissertação de mestrado intitulada A ave resgatada: a impossibilidade da leveza do ser, cujo foco centrou-se no estudo da etnoclassificação da avifauna pelos Xikrin do Cateté e do simbolismo das aves nos vários campos da vida social em que são significativas. Em 2000, Fabíola Andéas da Silva defendeu uma tese de doutorado intitulada As tecnologias e seus significados: um estudo da cerâmica Assurini do Xingu e da cestaria dos Kayapó Xikrin sob uma perspectiva etno-arqueológica. A autora busca demonstrar que os processos produtivos da cultura material não são, exclusivamente, um indicador da adaptabilidade ou da eficiência do homem na resolução dos problemas originados da sua relação com o mundo material, mas sim uma construção social.

Em artigos publicados em Povos Indígenas no Brasil (1991/1995 e 1996/2000), Giannini aborda questões mais atuais sobre o modelo predatório e ilegal de exploração de madeira e a defesa do manejo sustentável pelos Xikrin do Cateté. Estas mesmas publicações contêm artigos sobre a exploração de madeira e o garimpo na área indígena Xikrin do Bacajá, assinados pelo antropólogo William Fisher. Este autor escreveu, em 1991, a dissertação Dualism and its discontents: social organization na village fissioning among the Xikrin Kayapó of Central-Brazil, e, em 2000, publicou o livro Rainforest exchanges: industry and community on amazonian frontier. Este último aborda as relações entre a sociedade Xikrin do Bacajá e o seu meio ambiente. Clarice Cohn em sua recente dissertação de mestrado A criança indígena: a concepção Xikrin de infância e aprendizado investiga o modo como os Xikrin do Bacajá concebem a infância e o aprendizado. Para tanto, parte de uma descrição da experiência das crianças, na vida cotidiana e nos rituais, e das ocasiões e modos de ensino e aprendizado, de maneira a perceber o que neles há de específico.

 Fontes de informação

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Arte plumária Indígena no Brasil

Arte plumária Indígena no Brasil
Uma das expressões plásticas mais tradicionais e autenticas e impactantes das culturas nativas do Brasil. A definição usual de arte plumária diz respeito aos objetos confeccionados com penas e plumas de aves, muitas vezes associadas a outros materiais.

É uma prática que tem grande antiguidade, há pinturas rupestres dos século X, que foram primeiramente relatadas por Candido Rondom, encontradas ao longo do rio Erepecuru próximo as cachoeiras de Armazem, Zoada e Resplendor, onde pode se ver etnias antigas usando adornos plumários. 

Pinturas rupestres dos século X, que foram primeiramente relatadas por Candido Rondom, encontradas ao longo do rio Erepecuru próximo as cachoeiras de Armazem, Zoada e Resplendor, onde pode se ver etnias antigas usando adornos plumários.
Muitas tradições indígenas utilizam a arte plumária, que se multiplica em originalidade e unicidade pelo numero de etnias e tribos espalhadas por todo território brasileiro.

Embora cada grupo apresente uma técnica e estilo específico a tribo dos Urubus-Kaapor é uma das mais evoluídas na arte de confecção de adornos plumários.


Coifa vegetal Kayapó-Mekranoti (Lori-lori), Diadema Kayapó, Capacete Palikúr e Brincos da etnia Waurá

Nas palavras de Darcy Ribeiro e Bertha Ribeiro,

"É na plumária que encontramos a atividade mais eminentemente artística dos nossos índios, aquela em que revelam os mais elaborados impulsos estéticos e mais vigorosas características de criação própria e singular. E é natural que assim seja, porque a plumagem dos pássaros, com sua variedade de formas e riqueza de colorido, constitui o material mais precioso e mais acabado, por assim dizer, que a natureza oferece aos índios para se exprimirem artisticamente. o seu maior interesse estético, por outro lado, está voltado para o embelezamento do próprio corpo. Da combinação daqueles recursos e desta tendência, resultaria a elaboração de uma técnica requintada que, associando penas e plumas a diversos outros materiais, permitiria criar obras de arte capazes de competir em beleza com os mesmos pássaros".
Coroa radial dos indios Tukano - penas caudais de arara formam uma triplice de pontas

De acordo com a legislação brasileira os indígenas têm o direito de caçar a fauna silvestre com fins exclusivos de alimentação e confecção de objetos cerimoniais, mas peças com produtos ou subprodutos da fauna silvestre, categoria onde entram os objetos plumários, não podem ser comercializadas. A proibição está em vigor desde 1998, e só abre exceções para a pesquisa acadêmica e a preservação em museus. Não obstante, o comércio já atinge grandes proporções e o controle é difícil.Ao mesmo tempo, a combinação de restrições e propaganda governamental causa uma situação de paradoxo. Na apresentação do livro Povos Indígenas no Brasil 2001/2005, os autores disseram:

"Vale destacar a imagem do cocar Kayapó que aparece na lombada deste volume, confeccionado com a técnica de praxe, porém com canudinhos de plástico no lugar das tradicionais penas de arara, papagaio e mutum. Proibidos de comercializar artesanato com matérias-primas oriundas de animais silvestres, essa recente e criativa solução Kayapó simboliza a contradição de um país campeão mundial do desmatamento e bem colocado no topo da lista do tráfico e da extinção de aves, cuja diplomacia costuma exibir no exterior a arte plumária indígena como símbolo primeiro da identidade nacional".

Capacete da etnia Palikur - Rio Urucuá, afluente do Uaçá - Amapá
Emplumação de garça maguari, arara-vermelha, raça comum, tucano, japú e arara-canindé.
estrutura em taquara, raquís de madeira, com amarrações em linha de algodão, cerol e tingimento em pigmentos naturais

Técnicas de confecção

Na produção, geralmente as penas são amarradas umas às outras e muitas delas são associados a outros materiais, tal qual fibras vegetais, madeiras, couro de animais, folhas, taquaras. No tocante à cor, a arte plumária designa uma arte muito colorida, donde várias tribos do Brasil, além de utilizarem as penas nas cores do próprio pássaro, utilizam técnicas de tingimento, conhecida como “tapiragem”, ou seja, a transformação da cor da pena, com o intuito de se aproximar da coloração amarelo-alaranjado.

As muitas formação de amarração - o Molho de penas, amarração de pena com nó simples e a trama de plumas feita pelos talentosíssimos índios Urubus-Ka'apor
De tal modo, eles utilizam essa arte repleta de cores e matizes, sejam com funções socioculturais, baseadas nos momentos ritualísticos e cerimoniais, de forma a indicar a hierarquia social, gênero, idade; ou simplesmente como objetos utilitários (cestos, armas, instrumentos) e de adorno corporal (máscaras, cocares, mantos, colares, coroas, pulseiras, braceletes, brincos, etc.).

A fieira de penas em cordéis horizontais é uma das principais técnicas de amarração de penas. Acima vemos na técnica A, a ponta extrema da pena é encaixada num pequeno talhe em sua própria base; na técnica B, a armação simples, feita com a pena dobrada e amarrada.
Para melhor descrevemos as peças e quais penas são usadas, é importante conhecermos os diferentes formatos de penas que constituem a asa das aves.

Diferentes tipos de penas podem ser encontradas nas asas das aves, aumentando a complexidade dos arranjos. da esquerda para a direita vemos as rémiges primarias, rémiges secundarias, rémiges escapulares, falsas rémiges, tectrizes e bastardas.


Pariko Bororo

Nesses trezentos anos de contato, os Bororo, por serem um dos povos indígenas vivos mais pesquisados,

Percebe-se então, nesse universo social, que há dezenas de formas diferentes de manufaturar um Pariko, e neste comentário abordaremos um Pariko genérico sem associá-lo as metades, clãs ou sub-clãs. Seguindo novamente as descrições de Dorta (1982).

Um Pariko pode ser dividido em quatro camadas vistas a seguir

 1- A primeira camada é composta de penas retrizes de araras –- podendo também ser inserida retriz de outras aves –- dispostas em semicirculo decrescente e com as pontas aparadas, onde recebem colagem de plumas brancas de pato selvagem. Dizem os Bororo que essa distribuição da armação decrescente das retrizes acompanha a distribuição natural como se encontram nas aves utilizadas. Alguns Parikos não tem as pontas cortadas e nem recebem a emplumação.

2 - A segunda camada é composta de penas de diversas aves, podendo ser retrizes ou tectrizes aparadas nas pontas e combinadas com outros elementos decorativos como lascas de taquara revestidas de plumas ou de acúleos de ouriço, estiletes de madeira ou nervuras de buriti. 

 3- A terceira camada é formada de penas aparadas na sua parte terminal e recobre os cálamos das outras duas camadas. Alguns Parikos dispensam esta camada.

 4- A última parte a qual denominaremos de suporte-base é flexível e tem a forma de um arco e é confeccionado com nervuras de babaçu e revestidas com tiras de folíolo de babaçu. 

5- Os cordéis-atilho são manufaturados de seda de tucum e resinados para maior durabilidade.

Como já foi dito, através de um Pariko, pode-se identificar o sub-clã, o clã e a metade do seu usuário. Na sociedade Bororo, essas divisões apropriam de seres espirituais, da fauna, da flora, de objetos minerais, dos mitos, dos pontos geográficos, de corpos celestes e chegando até as minúcias do universo existente. 
Baseando nas pesquisas realizadas por Dorta, será feita uma síntese de algumas situações:

            A construção de um Pariko obedece à forma da flora e fauna aquática, tendo no peixe pacu um dos modelos, ou como das folhas-do-brejo e de outras folhas aquáticas. Essa circunstância é identificadora, apesar de não ser a principal.

            Das três camadas, a pesquisadora salienta que é a segunda camada, por possuir um maior numero de matéria-prima, que os códigos identificatórios têm mais realce.

            Também são significativas para a identificação de um Pariko, as cores das penas, suas distribuições e combinações com outros de seus elementos.

Outro caráter identificador é a colação das plumas no ápice das tectrizes,devendo observar sua distribuição no seu perímetro.
Este é um resumo desse magnífico adorno, que dá ao seu possuidor, status de grandeza, poder e beleza.

Arte plumária Karajá

Para compreender a plumária Karajá é preciso entender a organização do de sua cosmologia. Existem três mundos miticos:

O Mundo das Águas, local de origem dos Karajá, onde está a aldeia dos
 Berahatxi Mahãdu povo do fundo das águas peixes (peixe cuiú-cuiú, pirarucu); 

O Mundo da Superfície, que é habitado pelos Karajá(podem ser tanto animais da floresta - veado, onça, raposa); e, 

O Mundo do Céu, que é o nível celeste alcançado somente pelos xamãs (hari) durante as viagens espirituais e depois da morte. o plano celeste é governado por Xiburè, é habitado pelos Biuludu (habitantes do Céu) e dentre estes há os Ijasò do céu.. 

Para os Karajá não há uma distribuição dos animais nos planos cosmológicos como nós pensaríamos, os pássaros não estão sempre ligados ao Mundo do Céu ou os peixes ao Mundo das Águas. 

O Urubu-Rei. Portando, não há entre os Karajá uma relação funcional ou utilitarista de classificação do mundo, como já alertou Lévi-
Strauss (2010) ao falar do “pensamento selvagem”. Trata
-se de uma relação complexa entre os níveis cosmológicos que são mediados  pelos xamãs a fim de manter o equilíbrio do cosmo.  

A maior parte dos adornos de plumária é usada pelos mais jovens, a medida que a pessoa envelhece menos ela os usa. Ao mesmo tempo esses adornos estão, quase que em sua totalidade, relacionados aos rituais; estão presentes: na “dança dos Aruanã”.


Exemplos da arte plumária Karajá
O Leque de occipício A. conta a historia do heroi mitico Kanakiwe, que pressionou o Urubu Rei (representado pela harpia), a presentear sua tribo com tal representação do disco solar.

Feito com penas rêmiges de harpia (Harpya harpya); da garça branca (Casmerodius albus); penas de voo de arara Canindé (Ara ararauna); retriz de japu (Psarocolius decumanus); coberteiras de asa, provavelmente de arara-canga.

A estrutura e montada em estilete de estipe de palmeira de babaçu, penas são coladas com cera de abelha e amarradas a um suporte grosso de cordel de fios de algodão.
Os Brincos B são de uso masculino, principalmente em cerimônias, feitos com coberteiras inferiores da asa e plumas dorsais da arara-canga (ara macao) e da arara-vermelha (Ara chloroptera), o suporte é de pecíolo de tucum.
O leque de occipício C é feito com penas do de japu (Psarocolius decumanus) e da arara canga.

A coroa vertical D, usada por mulheres é adornada com plumas de da arara-canga (ara macao) e da arara-vermelha (Ara chloroptera).

Arte Plumária Urubu Ka’apor

Os índios Urubus Ka’apor do maranhão se destacam, hoje em dia, como os mais autênticos representantes da tradição plumária dos antigos Tupi que habitavam a costa por ocasião da descoberta. Pelo virtuosismo da execução e delicadeza das formas, em que, usando plumas e penas de dezenas de aves recompõem a morfologia dos pássaros, os adornos plumários Ka’apor foram definidos como “joias de penas”.

Distinguem-se entre essa etnia os adereços femininos e masculinos. É apanágio masculino o uso do acangatar, diadema de penas amarelas do Japu (Ostinops decumanus), que representa o sol, dado a eles por Maíra, o criador. A parafernália completa masculina, usada nos cerimoniais, principalmente no de  nominação das crianças, é composto por:
Tembetá, Colar, Acangatar e Colar apito Urubu Ka'apor

1 – Tembetá - ornitoforma, compõe-se de uma pena base de cauda de arara canga, que, na parte inferior, recebe uma incrustação de pele e respectivas plumas de tons azuis e negro. Em sentido diagonal, dispostos em maneira de asas, aparecem fios, destacados das penas mais longas ( da arara). Na parte superior do tembetá aparecem penas azuis em mosaico.

2 - Colar - apito de cúbito de ave. Ladeado por feixes de penas caudais de arara. É utilizado sobre o peito com um pingente que pende sobre o dorso (também ornitofomo).

3 - 0 Braçadeiras - plumas alaranjadas de papo de tucano com uma representação bastante realista de flores.

4 - Brincos, pulseiras e testeira - esta última é revestida internamente por uma fina camada de látex para aderir à pele - confeccionados com penas de saí.


O principal elemento feminino é sem duvida os reconhecíveis colares emplumados femininos, com cordão de amarrações de plumas de papo de tucano, o distinto azul claro das penas caudais e peitorais de anambé azul (Cotinga cayana) e emblemas centrais em forma de quadrados com penas vermelhas do saurá (Phoenicircus carnifex). 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Anacé

Toy Art Anacé

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
1Anacé

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
CE1281Siasi/Sesai 2012



Anacé é um povo indígena que habita o estado do Ceará nos municípios de Caucaia e São Gonçalo do Amarante. 

Aldeias

Em São Gonçalo do Amarante: Mangabeira, Pau-Branco, Salgado, Tabuleiro Grande, Boqueirão, Currupião, Baixa das Carnaúbas, Maceió do Rafael, Torém, Área Verde, Lagoa Amarela, Jereraú, Tocos, Chave, Oiticica, Tapuio, Siupé, Bolsos.

Em Caucaia: Matões, Japuara e Santa Rosa.

Movimento Indígena

Durante a Assembléia dos Povos Indígenas no Ceará de 2006, realizada na aldeia Nazário - Crateús, o povo Anacé, junto aos Tubiba-Tapuia e Gavião-Boa Vista de Monsenhor Tabosa, integraram-se ao movimento indígena organizado no Ceará.
Território Anacé

O povo Anacé "habita tradicionalmente um território situado em São Gonçalo do Amarante e Caucaia, municípios da Região Metropolitana de Fortaleza. Sua emergência étnica tem estreita ligação com a instalação, na mesma área, de uma série de empreendimentos que integram o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP)” (Brissac e Nóbrega, 2010).

Segundo Santana (2010) os Anacé aparecem “na literatura desde o século XVII, quando o padre Antônio Vieira cita este povo em seu relato da missão na serra de Ibiapaba. O historiador Carlos Studart Filho, em sua obra “Notas históricas sobre indígenas cearenses”, documenta que os Anacé moravam junto à costa,  eram guerreiros e estavam indispostos a submeter-se ao novo reordenamento imposto pela Coroa portuguesa. Em 1694, Fernão Carrilho sitiou parte dos Anacé a oito léguas ao Norte da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, onde permanecem até hoje." (Santana et al, 2010)

Entre os dias 20 e 23 de setembro de 2007, a comunidade organizou, na aldeia Matões em Caucaia, a I Asssembléia do Povo Indígena Anacé. Contando com a participação de representantes de etnias de todo o Ceará. O encontro teve como tema: Terra e Impacto Ambiental e discutiu os transtornos e os impactos sócio-ambientais causados pelos empreendimentos instalados na terra indígena.

"Em 1863, o Governo Provincial decretou não haver mais índios no Ceará, alegando que os indígenas foram mortos ou fugiram, dessa forma, os territórios indígenas podiam ser usurpados. Mas o que ocorreu na verdade, foi que as populações indígenas, como estratégia de sobrevivência, optaram por ocultar sua identidade, sobretudo nos aspectos mais exógenos. Deixaram de falar a língua nativa e adotaram alguns elementos do catolicismo popular que se assemelhavam aos seus costumes religiosos.” (Santana et al, 2010)

“Esse povo, assim como tantos povos indígenas do Nordeste, têm elegido o toré como “prática performática” para o fortalecimento de sua luta em meio ao conflitivo processo de implantação do CIPP. No entanto, além dessa manifestação cultural, que, em certo sentido, é voltada para o exterior, os índios Anacé têm outras práticas que podemos considerar voltadas  para dentro. É neste ponto em que se situam os ritos realizados pelos especialistas de cura Anacé e a “corrente de índios” ou “corrente dos encantados”. (Brissac e Nóbrega, 2010)

Fontes de informação

SANTANA, Iara Vanessa Fraga de. NETO, Pedro Vicente de Assis. AGUIAR, Rafaela Silveira de. SOUSA Valdênia Lourenço de. A Luta Anacé frente aos “imPACtos” industriais, 2010.
BRISSAC, Sérgio Góes Telles. NÓBREGA, Luciana Nogueira Nóbrega. Benzedeiras Anacé: a relevância dos ritos de cura na emergência étnica de um povo indígena do Ceará. 2010.