domingo, 21 de fevereiro de 2016

Arara Shawãdawa

Toy Art Arara Shawãdawa

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
19Arara ShawãdanaArara do Acre, ShawanauaPano

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AC545Siasi/Sesai 2012



Assim como os demais grupos indígenas no Acre, os Arara Shawãdawa sofreram os efeitos das correrias e do sistema de produção dos seringais a partir das últimas décadas do século XIX, tendo sido explorados, expropriados e cerceados em sua reprodução física e cultural. Nos últimos anos eles têm se empenhado em reverter esse processo, por meio da revalorização de sua língua e tradições, bem como da reivindicação de seus direitos territoriais junto ao Estado brasileiro. Conseguiram a ampliação de sua terra, porém até hoje ela não foi homologada pela presidência da República.

A região atualmente ocupada pelos Arara era território dos grupos Pano e Aruak desde o período pré-cabralino, mas a partir de meados do século XIX passou a ser ocupada também por exploradores e comerciantes vindos de Belém, Manaus e de centros urbanos localizados ao longo do rio Solimões (Aquino & Iglesias, 1999). Entretanto, a exploração e ocupação efetiva da região do Alto Juruá ocorreu apenas nas duas últimas décadas do século XIX, após vários embates com os grupos indígenas locais. Neste período, a região foi povoada principalmente por migrantes oriundos do nordeste brasileiro, os quais, fugindo da seca de 1877, estabeleceram várias colocações e estradas de seringa com o intuito de extrair o látex da Hevea brasiliensis.

Em fins da última década do século XIX, o Alto Juruá já estava povoado por brasileiros, quando peruanos “caucheiros”, explorando o caucho (Castilloa ellastica) e outros produtos florestais ocuparam a região. A ocupação dos caucheiros peruanos foi itinerante e de curta duração, encerrando-se no início do século XX, enquanto a dos nordestinos foi maciça e duradoura (Castello Branco, 1930: 640).

Conforme consta na história oral dos Arara, e nas fontes historiográficas sobre o Alto Juruá, somente no início do século XX o grupo entrou em contato com agentes da sociedade nacional. No ano de 1905, quando estava sendo aberta uma estrada que ligava Cocamera, no Tarauacá, a Cruzeiro do Sul, Felizardo Cerqueira e Ângelo Ferreira conseguiram, juntamente com índios Yawanawa, Rununawa e Iskunawa, contatar os Arara que estavam localizados na região do igarapé Forquilha, afluente da margem esquerda do Riozinho da Liberdade (Tastevin, 1926: 49). Nesse período, os Arara que habitavam próximos a esse igarapé residiam com índios Rununawa, sendo todos liderados pelo célebre tuxaua Tescon, quem era casado com a filha de um tuxaua Arara.

Referências a Tescon liderando os Arara são uma constante nas fontes escritas sobre o Alto Juruá, como a do tenente do exército Luiz Sombra, que em 1907 manteve contato com os “xauánauás (araras)” no Riozinho da Liberdade. Nesse mesmo ano, o engenheiro Nunes de Oliveira visitou malocas de vários índios na região, encontrando-se com Tescon nas proximidades do igarapé Forquilha. Em 1911, Tescon e os demais indígenas por ele liderados permaneciam no Riozinho da Liberdade quando o engenheiro Máximo Linhares, como ajudante do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN), percorreu os vales dos rios Juruá e Tarauacá. Máximo Linhares encontrou Arara, Ararapinas, Contanauás, Caxinauás, Jaminauás e Tuxinauás no rio Humaitá, afluente do alto rio Muru; Caxinauás, Jaminauás, Curinas, Catuquinas, Aninauás, Ararauás e Capanauás no Alto “Embira” (Envira); e, malocas de Caxinauás e Araras, na cabeceira do Forquilha (Castello Branco, 1950: 19-23).

Depois de 1912 esteve no Alto Juruá o padre francês Constantino Tastevin, quem relatou as constantes guerras intertribais travadas pelos Arara no início do século XX, além de ter feito uma distinção entre os Arara do Tauari e os do Forquilha, dando a entender estarem os Arara divididos em mais de um grupo, ou em diferentes aldeias de um mesmo grupo. Ainda nos relatos de Tastevin, nota-se as migrações empreendidas pelos Arara ao longo dos rios Tejo, Bagé, Liberdade e Amahuaca (Riozinho Cruzeiro do Vale), sendo possível constatar o combate que resultou na morte de Tescon devido a um conflito com os Arara (Tastevin, 1928: 208-209).

Em 1914, Tescon foi assassinado por índios Arara, resultando na dispersão do grupo. De acordo com a memória Arara, devido a Tescon ter batido em sua esposa Arara, associado com ameaças de Tescon contra os parentes de sua esposa, levou estes últimos a empreenderem uma guerra contra o grupo de Tescon na região do Riozinho da Liberdade, resultando na morte dele. Depois desse confronto, várias outras guerras ocorreram por parte dos índios liderados por Tescon, com o intuito de vingar sua morte, o que levou os Arara a migrarem para as proximidades dos rios Bagé, Tejo, Gregório e Riozinho Cruzeiro do Vale. Os Arara se estabeleceram nas margens do Riozinho Cruzeiro do Vale e do rio Valparaíso provavelmente após a morte de Tescon, em 1914, quando realizaram várias migrações, até serem localizados na década de 1920 nos seringais Cruzeiro do Vale e Humaitá. Mesmo estando a região dividida em seringais, o grupo não se mantinha fixo em uma única localidade, pois continuavam se deslocando pelos rios Valparaíso, Riozinho Cruzeiro do Vale, Riozinho da Liberdade e Bagé.

Nesse período, uma parte dos Arara, também denominados na historiografia por Ararauás e Ararapinas, encontrava-se residindo nas margens dos rios Humaitá, afluente do Muru, do Turunaia, do Tauari e do Embira (atual Envira). Entretanto, não é possível afirmar com base nas informações orais e escritas que esses Arara uniram-se posteriormente àqueles que residiram no igarapé Forquilha. De acordo com a memória oral dos Arara eles estiveram na região do Riozinho da Liberdade e depois de várias migrações estabeleceram-se no Riozinho Cruzeiro do Vale. Durante essas migrações, muitas foram as guerras intertribais travadas pelos Arara, as quais acabaram após a inserção dos Arara na empresa seringalista.

Para ter os Arara como mão-de-obra, os “patrões” patrocinaram várias “correrias”, utilizando alguns dos “antigos” (ancestrais) Arara como agentes do processo de inserção do grupo nas atividades produtivas dos seringais. Estes antigos encontram-se fortemente presentes na memória Arara, e são referências da identidade do grupo e do território imemorialmente ocupado. As informações relativas aos “antigos”, em geral, estão vinculadas às correrias, às guerras intertribais, ao parentesco, à organização social, aos costumes tradicionais, às práticas de secessão e às migrações do grupo por um vasto território que compreendia regiões da bacia dos rios Liberdade, Gregório, Bagé, Cruzeiro do Vale, Tejo, Humaitá e Envira.

Ao longo da segunda metade do século XX, os Arara estiveram sob o julgo dos patrões, realizando constantes migrações em busca de melhores condições de vida pelos seringais da região incidentes em seu antigo território, entre eles o Valparaíso, o Russas, o Nilo, o Humaitá e o Concórdia. Devido a doenças e a represálias dos patrões, alguns Arara que residiam próximos ao rio Bajé migraram, nas décadas de 1970-80, para a região do Riozinho Cruzeiro do Vale e do rio Valparaíso, onde encontravam-se várias famílias Arara. Nesse período, passaram a reivindicar seus direitos territoriais e conseguiram que, em 1985, fosse identificada e delimitada a Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá (para informações, veja ao lado em Terras habitadas).

Após garantirem uma parte do seu território, diversas famílias que estavam sob o jugo dos patrões, espalhadas pelas colocações dos rios Liberdade e Bagé, preferiram abandonar as colocações para residirem com seus parentes na Terra Indígena, ou em áreas próximas a essa. Quando, em 1994, estiveram na área os antropólogos do GT da Portaria n° 1.204/93 não havia mais nenhuma família Arara no Riozinho da Liberdade, mas existiam várias residindo fora dos limites da Terra Indígena, na região do igarapé Grande, afluente do rio Valparaíso, além de muitas outras na cidade de Cruzeiro do Sul. Com o intuito de inserir uma parcela do território não contemplada anteriormente, os Arara passaram a reivindicar, ao longo da década de 1990, a ampliação da Terra Indígena ocupada pelo grupo, o que somente veio a ser atendido no ano de 2000, com a realização dos estudos antropológicos de identificação e delimitação da terra.

Em 19/12/2001 foi publicadoa no Diário Oficial da União a aprovação dos estudos de identificação da terra pela Funai e, em 04/12/2002, a portaria declaratória do Ministro da Justiça de posse permanente aos índios.

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