domingo, 7 de fevereiro de 2016

Arte plumária Indígena no Brasil

Arte plumária Indígena no Brasil
Uma das expressões plásticas mais tradicionais e autenticas e impactantes das culturas nativas do Brasil. A definição usual de arte plumária diz respeito aos objetos confeccionados com penas e plumas de aves, muitas vezes associadas a outros materiais.

É uma prática que tem grande antiguidade, há pinturas rupestres dos século X, que foram primeiramente relatadas por Candido Rondom, encontradas ao longo do rio Erepecuru próximo as cachoeiras de Armazem, Zoada e Resplendor, onde pode se ver etnias antigas usando adornos plumários. 

Pinturas rupestres dos século X, que foram primeiramente relatadas por Candido Rondom, encontradas ao longo do rio Erepecuru próximo as cachoeiras de Armazem, Zoada e Resplendor, onde pode se ver etnias antigas usando adornos plumários.
Muitas tradições indígenas utilizam a arte plumária, que se multiplica em originalidade e unicidade pelo numero de etnias e tribos espalhadas por todo território brasileiro.

Embora cada grupo apresente uma técnica e estilo específico a tribo dos Urubus-Kaapor é uma das mais evoluídas na arte de confecção de adornos plumários.


Coifa vegetal Kayapó-Mekranoti (Lori-lori), Diadema Kayapó, Capacete Palikúr e Brincos da etnia Waurá

Nas palavras de Darcy Ribeiro e Bertha Ribeiro,

"É na plumária que encontramos a atividade mais eminentemente artística dos nossos índios, aquela em que revelam os mais elaborados impulsos estéticos e mais vigorosas características de criação própria e singular. E é natural que assim seja, porque a plumagem dos pássaros, com sua variedade de formas e riqueza de colorido, constitui o material mais precioso e mais acabado, por assim dizer, que a natureza oferece aos índios para se exprimirem artisticamente. o seu maior interesse estético, por outro lado, está voltado para o embelezamento do próprio corpo. Da combinação daqueles recursos e desta tendência, resultaria a elaboração de uma técnica requintada que, associando penas e plumas a diversos outros materiais, permitiria criar obras de arte capazes de competir em beleza com os mesmos pássaros".
Coroa radial dos indios Tukano - penas caudais de arara formam uma triplice de pontas

De acordo com a legislação brasileira os indígenas têm o direito de caçar a fauna silvestre com fins exclusivos de alimentação e confecção de objetos cerimoniais, mas peças com produtos ou subprodutos da fauna silvestre, categoria onde entram os objetos plumários, não podem ser comercializadas. A proibição está em vigor desde 1998, e só abre exceções para a pesquisa acadêmica e a preservação em museus. Não obstante, o comércio já atinge grandes proporções e o controle é difícil.Ao mesmo tempo, a combinação de restrições e propaganda governamental causa uma situação de paradoxo. Na apresentação do livro Povos Indígenas no Brasil 2001/2005, os autores disseram:

"Vale destacar a imagem do cocar Kayapó que aparece na lombada deste volume, confeccionado com a técnica de praxe, porém com canudinhos de plástico no lugar das tradicionais penas de arara, papagaio e mutum. Proibidos de comercializar artesanato com matérias-primas oriundas de animais silvestres, essa recente e criativa solução Kayapó simboliza a contradição de um país campeão mundial do desmatamento e bem colocado no topo da lista do tráfico e da extinção de aves, cuja diplomacia costuma exibir no exterior a arte plumária indígena como símbolo primeiro da identidade nacional".

Capacete da etnia Palikur - Rio Urucuá, afluente do Uaçá - Amapá
Emplumação de garça maguari, arara-vermelha, raça comum, tucano, japú e arara-canindé.
estrutura em taquara, raquís de madeira, com amarrações em linha de algodão, cerol e tingimento em pigmentos naturais

Técnicas de confecção

Na produção, geralmente as penas são amarradas umas às outras e muitas delas são associados a outros materiais, tal qual fibras vegetais, madeiras, couro de animais, folhas, taquaras. No tocante à cor, a arte plumária designa uma arte muito colorida, donde várias tribos do Brasil, além de utilizarem as penas nas cores do próprio pássaro, utilizam técnicas de tingimento, conhecida como “tapiragem”, ou seja, a transformação da cor da pena, com o intuito de se aproximar da coloração amarelo-alaranjado.

As muitas formação de amarração - o Molho de penas, amarração de pena com nó simples e a trama de plumas feita pelos talentosíssimos índios Urubus-Ka'apor
De tal modo, eles utilizam essa arte repleta de cores e matizes, sejam com funções socioculturais, baseadas nos momentos ritualísticos e cerimoniais, de forma a indicar a hierarquia social, gênero, idade; ou simplesmente como objetos utilitários (cestos, armas, instrumentos) e de adorno corporal (máscaras, cocares, mantos, colares, coroas, pulseiras, braceletes, brincos, etc.).

A fieira de penas em cordéis horizontais é uma das principais técnicas de amarração de penas. Acima vemos na técnica A, a ponta extrema da pena é encaixada num pequeno talhe em sua própria base; na técnica B, a armação simples, feita com a pena dobrada e amarrada.
Para melhor descrevemos as peças e quais penas são usadas, é importante conhecermos os diferentes formatos de penas que constituem a asa das aves.

Diferentes tipos de penas podem ser encontradas nas asas das aves, aumentando a complexidade dos arranjos. da esquerda para a direita vemos as rémiges primarias, rémiges secundarias, rémiges escapulares, falsas rémiges, tectrizes e bastardas.


Pariko Bororo

Nesses trezentos anos de contato, os Bororo, por serem um dos povos indígenas vivos mais pesquisados,

Percebe-se então, nesse universo social, que há dezenas de formas diferentes de manufaturar um Pariko, e neste comentário abordaremos um Pariko genérico sem associá-lo as metades, clãs ou sub-clãs. Seguindo novamente as descrições de Dorta (1982).

Um Pariko pode ser dividido em quatro camadas vistas a seguir

 1- A primeira camada é composta de penas retrizes de araras –- podendo também ser inserida retriz de outras aves –- dispostas em semicirculo decrescente e com as pontas aparadas, onde recebem colagem de plumas brancas de pato selvagem. Dizem os Bororo que essa distribuição da armação decrescente das retrizes acompanha a distribuição natural como se encontram nas aves utilizadas. Alguns Parikos não tem as pontas cortadas e nem recebem a emplumação.

2 - A segunda camada é composta de penas de diversas aves, podendo ser retrizes ou tectrizes aparadas nas pontas e combinadas com outros elementos decorativos como lascas de taquara revestidas de plumas ou de acúleos de ouriço, estiletes de madeira ou nervuras de buriti. 

 3- A terceira camada é formada de penas aparadas na sua parte terminal e recobre os cálamos das outras duas camadas. Alguns Parikos dispensam esta camada.

 4- A última parte a qual denominaremos de suporte-base é flexível e tem a forma de um arco e é confeccionado com nervuras de babaçu e revestidas com tiras de folíolo de babaçu. 

5- Os cordéis-atilho são manufaturados de seda de tucum e resinados para maior durabilidade.

Como já foi dito, através de um Pariko, pode-se identificar o sub-clã, o clã e a metade do seu usuário. Na sociedade Bororo, essas divisões apropriam de seres espirituais, da fauna, da flora, de objetos minerais, dos mitos, dos pontos geográficos, de corpos celestes e chegando até as minúcias do universo existente. 
Baseando nas pesquisas realizadas por Dorta, será feita uma síntese de algumas situações:

            A construção de um Pariko obedece à forma da flora e fauna aquática, tendo no peixe pacu um dos modelos, ou como das folhas-do-brejo e de outras folhas aquáticas. Essa circunstância é identificadora, apesar de não ser a principal.

            Das três camadas, a pesquisadora salienta que é a segunda camada, por possuir um maior numero de matéria-prima, que os códigos identificatórios têm mais realce.

            Também são significativas para a identificação de um Pariko, as cores das penas, suas distribuições e combinações com outros de seus elementos.

Outro caráter identificador é a colação das plumas no ápice das tectrizes,devendo observar sua distribuição no seu perímetro.
Este é um resumo desse magnífico adorno, que dá ao seu possuidor, status de grandeza, poder e beleza.

Arte plumária Karajá

Para compreender a plumária Karajá é preciso entender a organização do de sua cosmologia. Existem três mundos miticos:

O Mundo das Águas, local de origem dos Karajá, onde está a aldeia dos
 Berahatxi Mahãdu povo do fundo das águas peixes (peixe cuiú-cuiú, pirarucu); 

O Mundo da Superfície, que é habitado pelos Karajá(podem ser tanto animais da floresta - veado, onça, raposa); e, 

O Mundo do Céu, que é o nível celeste alcançado somente pelos xamãs (hari) durante as viagens espirituais e depois da morte. o plano celeste é governado por Xiburè, é habitado pelos Biuludu (habitantes do Céu) e dentre estes há os Ijasò do céu.. 

Para os Karajá não há uma distribuição dos animais nos planos cosmológicos como nós pensaríamos, os pássaros não estão sempre ligados ao Mundo do Céu ou os peixes ao Mundo das Águas. 

O Urubu-Rei. Portando, não há entre os Karajá uma relação funcional ou utilitarista de classificação do mundo, como já alertou Lévi-
Strauss (2010) ao falar do “pensamento selvagem”. Trata
-se de uma relação complexa entre os níveis cosmológicos que são mediados  pelos xamãs a fim de manter o equilíbrio do cosmo.  

A maior parte dos adornos de plumária é usada pelos mais jovens, a medida que a pessoa envelhece menos ela os usa. Ao mesmo tempo esses adornos estão, quase que em sua totalidade, relacionados aos rituais; estão presentes: na “dança dos Aruanã”.


Exemplos da arte plumária Karajá
O Leque de occipício A. conta a historia do heroi mitico Kanakiwe, que pressionou o Urubu Rei (representado pela harpia), a presentear sua tribo com tal representação do disco solar.

Feito com penas rêmiges de harpia (Harpya harpya); da garça branca (Casmerodius albus); penas de voo de arara Canindé (Ara ararauna); retriz de japu (Psarocolius decumanus); coberteiras de asa, provavelmente de arara-canga.

A estrutura e montada em estilete de estipe de palmeira de babaçu, penas são coladas com cera de abelha e amarradas a um suporte grosso de cordel de fios de algodão.
Os Brincos B são de uso masculino, principalmente em cerimônias, feitos com coberteiras inferiores da asa e plumas dorsais da arara-canga (ara macao) e da arara-vermelha (Ara chloroptera), o suporte é de pecíolo de tucum.
O leque de occipício C é feito com penas do de japu (Psarocolius decumanus) e da arara canga.

A coroa vertical D, usada por mulheres é adornada com plumas de da arara-canga (ara macao) e da arara-vermelha (Ara chloroptera).

Arte Plumária Urubu Ka’apor

Os índios Urubus Ka’apor do maranhão se destacam, hoje em dia, como os mais autênticos representantes da tradição plumária dos antigos Tupi que habitavam a costa por ocasião da descoberta. Pelo virtuosismo da execução e delicadeza das formas, em que, usando plumas e penas de dezenas de aves recompõem a morfologia dos pássaros, os adornos plumários Ka’apor foram definidos como “joias de penas”.

Distinguem-se entre essa etnia os adereços femininos e masculinos. É apanágio masculino o uso do acangatar, diadema de penas amarelas do Japu (Ostinops decumanus), que representa o sol, dado a eles por Maíra, o criador. A parafernália completa masculina, usada nos cerimoniais, principalmente no de  nominação das crianças, é composto por:
Tembetá, Colar, Acangatar e Colar apito Urubu Ka'apor

1 – Tembetá - ornitoforma, compõe-se de uma pena base de cauda de arara canga, que, na parte inferior, recebe uma incrustação de pele e respectivas plumas de tons azuis e negro. Em sentido diagonal, dispostos em maneira de asas, aparecem fios, destacados das penas mais longas ( da arara). Na parte superior do tembetá aparecem penas azuis em mosaico.

2 - Colar - apito de cúbito de ave. Ladeado por feixes de penas caudais de arara. É utilizado sobre o peito com um pingente que pende sobre o dorso (também ornitofomo).

3 - 0 Braçadeiras - plumas alaranjadas de papo de tucano com uma representação bastante realista de flores.

4 - Brincos, pulseiras e testeira - esta última é revestida internamente por uma fina camada de látex para aderir à pele - confeccionados com penas de saí.


O principal elemento feminino é sem duvida os reconhecíveis colares emplumados femininos, com cordão de amarrações de plumas de papo de tucano, o distinto azul claro das penas caudais e peitorais de anambé azul (Cotinga cayana) e emblemas centrais em forma de quadrados com penas vermelhas do saurá (Phoenicircus carnifex). 

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