domingo, 21 de fevereiro de 2016

Yawanawá

Toy art Yawanawá

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
235YawanawáIawanawáPano

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
Bolivia6301993
AC541Funasa 2010
Peru3241993





Os iauanauás ou yawanawá são um povo indígena que habita a Área Indígena Rio Gregório, no município de Tarauacá, no Oeste do estado do Acre, no Brasil. São, aproximadamente, 700 pessoas.

O nome "Yawanawá" significa, literalmente, "Povo do Queixada", a Terra Indígena do Rio Gregório foi demarcada na década de 1980. Em 1993, a tribo realizou um acordo comercial com a empresa estadunidense Aveda para o fornecimento de urucum a ser utilizado na fabricação de cosméticos. Graças ao acordo, a tribo teve condições econômicas de resgatar sua cultura tradicional, que estava se perdendo. A Terra Indígena do Rio Gregório foi ampliada para 182 mil hectares em 2007 pela Fundação Nacional do Índio.

Pintura feminina Yawanawá, no festival anual  da aldeia Nova Esperança, na Terra Indígena do Rio Gregório, na fronteira do Acre com o Peru.


As principais atividades produtivas são a caça, pesca e agricultura de subsistência com o plantio de milho, mandioca, arroz e banana principalmente. Os Yawanawá têm se dedicado também à produção de urucum (bixa orellana) destinado à fabricação de cosméticos, à produção de óleos nativos como o de andiroba e à produção artesanal de móveis a partir de madeiras de árvores mortas.

Formação

A formação étnica do povo Yawanawá conta com outros povos (ou clãs) da família linguística Pano (também chamados, de modo genérico, "Náwa"). São eles: Rununáwa ("povo-serpente"), Xawanáwa ("povo-arara"), Saináwa ("povo do grito, da palavra ou da canção"), Uxunáwa ("povo da garça branca"), Escunáwa ("povo do japó") e Catuquina, entre eles denominados Camãnawa ("povo da onça ou do cachorro", dependendo da fonte). Destes povos, os Escunáwa, Catuquina e Xawanáua possuem território próprio, sendo que os Escunáwa históricos passaram a ser denominados Xanenáua (ou Shanenawa) e também, erroneamente, Catuquina. Os demais acabaram sendo absorvidos pelos povos existentes. Entre os Yawanawá, contudo, há conhecimento de quais famílias pertencem a determinado povo (ou clã).

Localização

Os Yawanawa habitam a parte sul da Terra Indígena Rio Gregório, compartilhando-a com os Katukina da aldeia de Sete Estrelas. Essa TI, localizada no município de Tarauacá, foi a primeira a ser demarcada no Acre e ocupa a cabeceira deste afluente do Juruá.
Território Yawanawa na Terra Indígena do Rio Gregório

Xamanismo

Ainda que atualmente o aspecto mais destacável do xamanismo yawanawa seja a cura, em tempos passados suas funções estavam mais diversificadas e atendia a outros aspectos da cultura como a guerra e a caça. A respeito da cura, existem várias técnicas praticadas pelos especialistas yawanawa -  o canto de cura, o assopro...- entre as quais se destaca na atualidade a reza, chamada shuãnka. Durante as sessões de cura, o xinaya - nome que recebe o rezador -  ingere ayahuasca e reza sobre um pote cheio de caiçuma de mandioca que posteriormente beberá o doente. Um aspecto interessante desta prática é que o diagnóstico da doença se estabelece a partir do sonho que teve o paciente antes de adoecer.

Da mesma forma que existem diferentes técnicas xamânicas, há também diversas denominações para designar a cada especialista (yuvehu, kushuintia, shuintia). A iniciação xamânica consiste em quatro processos paralelos: a realização de certas provas (chupar o coração de uma sucuri, derrubar uma colmeia de abelhas); o cumprimento de resguardos estritos que implicam a abstinência sexual e de certos alimentos; a ingestão de certas substâncias alucinógenas (ayahuasca, pimenta, datura, rapé de tabaco, rarë — planta não identificada-, caldo de tabaco); e o aprendizado dos conteúdos específicos de cada técnica, isto é, os cantos de cura e as rezas.

O poder xamânico é ambivalente já que outorga simultaneamente a capacidade de curar e de provocar doenças. As acusações de feitiçaria e envenenamento entre os Yawanawa são tanto intergrupais como intragrupais, provocando em ocasiões tensões sociais que podem derivar em fissões. Em 1999 a comunidade contava com dois rezadores e cinco especialistas em remédios vegetais.

Rituais

As festas têm uma especial importância na constituição das relações sóciopolíticas que os Yawanawa mantêm com outros grupos e entre eles mesmos. Saiti (sai significa gritar) é a palavra Yawanawa que designa genericamente a festa. Mariri, que não é uma palavra propriamente Yawanawa, utiliza-se atualmente com o mesmo significado e é empregada também por outros grupos da região. O uma aki (festa da caiçuma) prolonga-se durante vários dias e focaliza normalmente as relações intergrupais já que costumam participar nele outras comunidades. Este ritual desenvolve várias seqüências, algumas das quais podem aparecer isoladas em festas menores: brincadeiras, ingestão e vômito de caiçuma, encenações guerreiras, danças e cantos.

Existem dois tipos principais de brincadeiras: aquele em que homens e mulheres disputam pedaços de cana, mamão ou melancia (mehina "tomar do outro"); e aquele em que se imitam animais (kanë "virar", "se transformar"). Durante a celebração deste ritual, observam-se, por um lado, rígidas normas de parentesco, cada qual brinca com primos e cunhados de sexo oposto, ou seja, aqueles com os quais as relações sexuais são preferenciais. Quando as festas reúnem vários grupos dissolve-se a oposição entre eles enfatizando-se aquela entre homens e mulheres, e promovendo as alianças através de uniões matrimoniais.

O povo Yawanawa tem como costume inalar o rapé (também chamado de Paricá) no final da tarde, após o trabalho para resfriar o corpo e relaxar, ou antes do ritual xamânico da Ayahuasca, seguido de um banho de rio. O rapé tem energia predominante da terra. Por ser uma energia densa, quando sob o efeito forte do rapé, a forma mais simples e rápida de diminuir o efeito é banhar-se com água fria.

A palavra rapé vem do francês “râper” (raspar). É um pó constituído por substâncias naturais, consideradas plantas de poder: o Tabaco Xamânico é cultivado pelo próprio povo (o feitio é cerimonial, com cantos e orações em suas fases: plantio e colheita), cinzas de cascas de árvores medicinais, Pau-pereira, Canela de Velho, Murici, Cumaru, ervas aromáticas e entre outras variações.

Possuem profundos efeitos nos estado de equilíbrio energético, físico e principalmente psicológico, um poderoso alterador de consciência (enteogêno), pode expandir muito a consciência e a mediunidade xamã. É elaborado da forma tradicional, em conformidade com as tradições ancestrais.
Existem basicamente dois utensílios utilizados no costume inalar o rapé (Paricá) - ó Tepí, utilizado pelo xamã para assoprar a medicina no membro da tribo e o Kuripe, utilizado pelo próprio usuário. Pode ser utilizado por meio dos quatro elementos: 1-Fogo: é o tabaco queimado em cachimbos e apenas baforado, sem tragá-lo. Utilizado por meios de ritualizações e rezas. Considera-se que a fumaça lançada ao ar carrega a oração até o Grande Espírito; 2-Terra: é o tabaco seco mascado e cuspido; 3-Água: preparado pela sua infusão em água a dias e inalado via nasal ou oral(de acordo com o ritual); e o 4-Ar, usado no ritualístico do rapé (aspirado via nasal)

Se usado inadequadamente o rapé pode ter efeitos colaterais danosos, quando isso acontece o pajé tratas os membros da tribo com o Kampô (vacina do sapo), seguida de dieta (sem açúcar, sexo e rapé). Segundo os Yawanawa, o kampô que limpa toda a energia do rapé e renova a energia sutil.

A caiçuma de mandioca — bebida fermentada com a saliva das mulheres — joga um papel importante neste ritual, sendo elaborada e oferecida aos homens pelas mulheres, os quais devem vomitá-la sobre elas. O processo se dá de uma forma cruzada: mulheres Yawanawa brincam com os homens de outros grupos, enquanto os homens Yawanawa recebem a caiçuma das visitantes.
A Caiçuma, é o nome dado ao Cauim dos Yawanawás - bebida de mandioca que usa a saliva de indias virgens (amilase) para promover a sacarificação dos amidos e posteriormente, fermentada com leveduras endógenas, preparadas exclusivamente pelas mulheres. Aqui vemos o preparo na aldeia Nova Esperança, no Acre.

O mariri, celebrado durante a noite, consiste numa série de danças e cantigas que têm um tom jocoso e metafórico. Durante o ritual, algumas pessoas, majoritariamente homens adultos, bebem ayahuasca (uni).
No ritual de Uni os xamãs tomam a Ayahuasca, bebida feita com a mistura das folhas da Chacrona (Psychotria viridis) rica em DMT - Dimetiltriptamina, um composto psicodisléptico que libera grande quantidade de neurotransmissores no cérebro, com os cipós de Jagube (Banisteropsis Caapi) que contem três alcalóides, a harmina, harmalina e a tetrahidroharmina, que funcionam bloqueando a enzima monoasmina oxidase (IMAO), uma combinação que faz as fendas sinapticas ficarem enxarcadas com neurotransmissores, que não são degradados, permitindo que o xamã fique horas sob os efeitos da "medicina".

Existe também o ritual de inverno yuina yunua (mandar por caça) em que após uma petição metafórica das mulheres — solicitam as frutas que os animais que querem comem — os homens organizam uma caçada especial, trocando com as mulheres a seu regresso a carne por pamonha.

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