sábado, 20 de fevereiro de 2016

Zoró

Toy Art Zoró

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
240ZoróPangyjejMondé

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
MT625Associação Povo Indígena Zoró Pangyjej 2010



Os Zoró, e os demais povos de língua Tupi-Mondé, são habitantes seculares da região noroeste de Mato Grosso e sul de Rondônia. No século XX, progressivamente, este extenso território indígena foi invadido por seringais e empresas de mineração. A inauguração da rodovia Cuiabá-Porto Velho, em 1961, lançou colonizadoras, agropecuárias e posseiros na disputa pelas terras indígenas. Face ao acirramento dos conflitos, organizaram-se várias expedições de “pacificação”. Oficialmente contatados em 1977, os Zoró foram os últimos dos Tupi-Mondé a se aproximar das frentes de expansão regional (veja "Histórico da pacificação"). Os sertanistas da Funai estimavam sua população entre 800 a 1000 pessoas. Um ano depois do contato, este número reduzira-se à metade. A invasão de suas terras por posseiros e madeireiras ganhou força nas décadas seguintes, ocasionando epidemias e depopulação. A retirada dos invasores da área Zoró, no início dos anos noventa, contudo, não interrompeu a extração ilegal de madeira. Nos últimos anos, a Associação Pangyjej (APIZ) vem assumindo iniciativas para a proteção da Terra Indígena Zoró e seus recursos naturais, além de apoio à educação escolar e aos projetos produtivos, como a coleta de castanha.
Dança ritaulística Zoró

Os registros históricos mais antigos não distinguem os Zoró dos demais povos da família lingüística Tupi-Mondé, em geral referidos como “Cinta-Larga” ou “Cinturão-Largo” (além deles, os atuais Cinta-Larga, os Suruí e os Gavião), que até meados do século XX habitavam as florestas tropicais densas, com seus enclaves de formações abertas e cerrados, que caracterizam as bacias dos rios Aripuanã e Roosevelt, a noroeste de Mato Grosso e sudeste de Rondônia. Todos portavam algum tipo de cinto e construíam malocas oblongas muito semelhantes. Seringueiros, caçadores e garimpeiros, entretanto, dirigiam-lhes a alcunha de “Cabeças-Secas”, talvez devido aos cabelos raspados, como usavam os Tupis-Mondé por ocasião de doenças ou funerais.

Os sertanistas da Funai, por sua vez, obtiveram dos Suruí (que se autodenominam Paiter), seus mais tenazes inimigos à época, a designação que hoje identifica os “Zoró”. Segundo o jornalista Cesarion Praxedes, que visitou em 1977 o acampamento da Frente de Atração às margens do rio Branco (afluente da margem esquerda do rio Roosevelt):
oca típica dos Zorós

Zoró é o nome que ficou da denominação monshoro, utilizada pelos suruís para designar seus vizinhos e inimigos (...). Monshoro é uma palavra depreciativa que os suruís não explicam direito o significado. Com o tempo, foi abreviada para shoro e, por fim, zoró"
(Praxedes, 1977a)
O médico Jean Chiappino (1975), que em 1972 permaneceu alguns meses na Área Indígena Sete de Setembro (atual TI Sete de Setembro), ouviu os Suruí chamarem “Mojur” aos seus inimigos situados ao norte. De acordo com a indigenista Inês Hargreaves (1992), os Suruí endereçam-lhes estes dois apelativos, ngu sura (“boca ou fala ruim”) e lad up (“gente vermelha”).

A si próprios os Zoró designam-se por Pangyjej. Todavia, assimilaram a denominação “Zoró”, que rapidamente se difundiu no contexto de suas relações com a sociedade nacional; utilizando-na, inclusive, como sobrenome em registros de nascimento e outros documentos pessoais.

Localização

Os Zoró vivem na Terra Indígena Zoró, demarcada e homologada, no município de Rondolândia (desmembrado em 1998 do município de Aripuanã), em Mato Grosso, em área próxima à divisa com Rondônia.
Terra Indígena Zoró, no município de Rondolândia 

A região dos afluentes da margem direita do alto rio Madeira, desde muito tempo, é o habitat dos povos de línguas Tupi-Mondé. As pesquisas etno-lingüísticas estimam em dois a três séculos a origem do processo de diversificação de suas línguas, quando alguns grupos “proto-tupi-mondé”, eventualmente retomando áreas já ocupadas por outros grupos da mesma família, teriam se deslocado a montante ao longo dos rios Aripuanã e Roosevelt (Brunelli, 1989).
Aldeia escola da Tribo Zoró

Então, um estado de guerra incessante governava as relações destes povos entre si, e servia-lhes de mecanismo para a definição de seus limites territoriais. Os Zoró relataram ao antropólogo Gilio Brunelli (1987a) que seus ancestrais habitavam as imediações da embocadura do rio Aripuanã e, nas primeiras décadas do século XX, abriram caminho entre os Arara Karo e outros povos agricultores estabelecidos a montante, aproximando-se aos poucos do território que hoje ocupam. Nesta migração, os Zoró enfrentaram grupos Cinta-Larga acima da confluência do rio Branco com o rio Roosevelt, impondo-se após escaramuças acirradas.

A movimentação cessou por volta da década de 1930, quando os Zoró se chocaram com grupos Cinta-Larga e Suruí, mais numerosos, a oeste e ao sul. Em meados do século passado, portanto, os Zoró ocupavam um território contínuo, desde a margem direita do rio Roosevelt até os córregos que formam o rio Madeirinha, tendo como confrontantes os Cinta-Larga a leste, os Suruí ao sul, os Gavião a sudoeste e oeste e os Arara Karo a noroeste.

 Em 1976, com base nos levantamentos aéreos, os sertanistas da Funai estimaram a população zoró em oitocentas pessoas, distribuída em mais de dez aldeias. Um ano depois, não alcançava nem a metade desse número – caso seja verdadeira a informação de que apenas cerca de quatrocentas foram vacinadas pela equipe da Funai em 1977. Tuberculose, gripe, diarréia e malária golpearam epidemicamente os Zoró, antes e depois de sua primeira visita aos peões da Fazenda Castanhal (Brunelli e Cloutier, 1986).

Após o contato, os Zoró se deslocaram para a Área Igarapé Lourdes (atual TI Igarapé Lourdes), dos Gavião, aturdidos pelo ataque inesperado de Suruí a um acampamento – uma estadia curta, mas marcante: ali conheceram os religiosos fundamentalistas norte-americanos da Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB) e, além disso, contraíram malária e hepatite que vitimaram vários deles (Brunelli, 1987a; Forseth & Lovøld, 1984). Em maio de 1980, novamente buscaram refúgio na Área Igarapé Lourdes, onde os missionários dispunham de remédios e prestaram o atendimento de que careciam (Brunelli, 1987a; Cloutier, 1988). Desde os primeiros contatos com os peões da fazenda Castanhal, em 1976, até fins de 1979, ocorreram cerca de 44 óbitos, metade dos quais de pessoas com trinta anos ou mais (Forseth & Lovøld, 1984; Brunelli, 1987a).

Alguns Zoró casaram-se entre os Gavião, e assentaram definitivamente suas famílias na Terra Indígena Igarapé Lourdes. Um ano depois, contudo, a maioria retornaria ao território tradicional, concentrando-se no posto da Funai, onde o pequeno ambulatório contava com a presença eventual de um auxiliar de saúde (Brunelli, 1989). Assim, em 1984, após uma série de surtos epidêmicos, a população zoró somava pouco mais de 200 pessoas.

Marcas, artefatos e festas

Como marca distintiva ou identitária, os Zoró exibiam a tatuagem zoli, apenas um risco azulado, que contornava o rosto. Os adultos, ainda, perfuravam o septo nasal, para adorná-lo com uma pena de arara. No lábio inferior, uma outra perfuração para o tembetá, metiga. E os homens, para ocasiões mais formais, portavam cocares de penas de gavião e arara, andarap, encaixadas num aro duplo de taquara ajustado na cabeça.

Estes e outros artefatos eram fabricados pelos homens no bekã (um acampamento, perto da aldeia, que servia de oficina), onde também ensinavam suas habilidades aos mais jovens. Era nesta oficina onde se concentravam os convidados ao chegar para as festas: ali faziam suas pinturas corporais, afinavam os instrumentos e reparavam os enfeites.

Tradicionalmente, os Zoró realizavam suas festas no período das chuvas, por ocasião da colheita do milho. Para as festas principais (Gojanej, Zaga Puj, Gat Pi e Bebej) os xamãs atendiam solicitações que recebiam dos espíritos correspondentes. Em geral, cada aldeia realizava apenas uma delas a cada ano, prolongando-a por até três meses. A festa mais importante era Gojanej, que celebrava a visita do espírito-das-águas: o xamã incorporava o espírito malula (“tatu-canastra”), a quem os participantes deviam agradar, com presentes (flechas etc.), servir a Macaloba (cauim dos Zorós) e beijus de milho.
A Macaloba é o Cauim dos Zorós, feita com mandióca ou cará, sacarificadas pela saliva das índias virgens e depois fermentada com leveduras endógenas  - por interferência de pastores evangélicos, a etnia não tem feito mais essa bebida, tida como "desaconselhada" pela religião catequizante.

Cada família, também, apresentava um jacaré vivo no pátio que, depois de abatido no interior da casa, era servido aos convidados. Na festa Zaga Puj os xamãs invocavam os espíritos que protegem a caça, a extração de mel e a coleta de frutas – como retribuição aos espíritos, as famílias expunham, em varais no entorno da aldeia, os produtos cultivados, como mandioca, cará, algodão, entre outros. Já na festa Bebej (“porco-queixada”), o xamã comunicava-se com o dono-dos-porcos, em busca de uma informação valiosa para os caçadores, a localização dos bandos de queixadas. Por fim, a festa Gat Pi (“caminho do sol”), que estava direcionada aos espíritos que habitam o mundo celeste (Lisboa, 2008).

Lingua Zoró

Os Zoró falam uma língua da família Mondé, da qual também fazem parte as línguas Cinta-Larga, Gavião, Salamãi (Sanamaiká ou Mondé), Suruí, Aruá e Aruaxi (Rodrigues, 1986); e, provavelmente, também as línguas Kepkiriwat, de um povo que a Comissão Rondon encontrou em 1913 no vale do rio Pimenta Bueno, um dos formadores do rio Ji-Paraná (Rondon, 1916; Rondon & Faria, 1948; Lévi-Strauss, 1994) e Arara do Guariba (Dal Poz, 1995).

Para o linguista Denny Moore (2005), as línguas Cinta-Larga, Gavião e Zoró seriam, tão-somente, variantes dialetais, pois são mutuamente compreensíveis.

A denominação desta família lingüística deve-se a um pequeno grupo de 25 índios “Mundé” que o antropólogo Lévi-Strauss visitou em 1938, no alto rio Pimenta Bueno, atual estado de Rondônia (Lévi-Strauss, 1955). Anos depois, a missionária Wanda Hanke encontrou-os no alto Guaporé, para onde três famílias haviam sido removidas, e recolheu uma lista de palavras e dados etnográficos superficiais (Hanke, 1950).

Veja um texto em Zoró e sua comparação com o Português.

Em Zoró

"PAMBARE MATUÉ

2014 kawu mi tuj Pangyjej má a kala indjaja ta mene kaj apere wepea gula terea. Ebu APIZ má Kanindé ej ta gala in- djaja ta man ta sep manga ta kabia. Ma’ej má ena te tu pere ambakata we manga ena tea. Gulua tumá berepana ki tukaj tuwebugu ki ana te panza we manga mene kajá. Tu ma pemaki mi ki jalaj pare mi kia mene mi tumá tu pere wepea we manga neme kaja. PNGATI – Política Nacional de Gestão Territorial e Ambien- tal de Terras Indígenas sande gala indjaja ta mene peturu tumá tu pere wepea we kajá.Tu makuba mene kaj tu má tu pere wepea tu kala indjaja ta mene kaja. Tuma pemaki tamawá mene kaj tu má gulua tu pere wepea. Tu ta mene kyje sut ka pia mene ka tumena enate we mangá.

Tu makuba mene kaj tu má tu pere wepea tu kala indjaja ta mene kaja. Tuma pemaki tamawá mene kaj tu má gulua tu pere wepea. Tu ta mene kyje sut ka pia mene ka tumena enate we mangá.
Wujirej jande we maki mãj má amakubá gulua tereá. Pan- dérej má gyja ta makubá etigia. Zapuj kyj ikini pa mate ki iandyt ikini pa mene tigi ki gala katap ikini mate ki mawe ej ikini mate kia ta má tamakubá. Alej jali apygej makubá ki epi
tasa wulunde mãj makubá kia mene ka tamena tama kubá".

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Em Português

"APRESENTAÇÃO

O ano de 2014 destaca um importante marco nas con- quistas do povo Pangyjej Zoró, dado ao fato da construção do PGTA – Plano de Gestão Ambiental e Territorial desen- volvido pela APIZ e a Kanindé, sendo coordenado por equipes de lideranças e comunidades Pangyjej Zoró. Além desses, contou-se também com parcerias da FUNAI - Fundação Nacional do Índio/ CTL – Coordenação Técni- ca Local de Rondolândia/MT, Conselho Escolar das Escolas Indígenas Zoró, Escolas Zoró: Estadual e Municipal. A aplicação das atividades se deu em forma de construção coletiva, em oficinas, reuniões de sensibilização e divul- gação, assembleia geral. Visando motivar uma reflexão em torno de conhecimentos científicos e culturais relaciona- dos as potencialidades da terra e também seus desafios de gestão. Ademais, refletir sobre as políticas públicas de gestão territorial que permeiam os direitos e conquistas dos povos indígenas, tendo como exemplo a PNGATI – Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas.

Contudo, para além das contribuições na formação na área de gestão, as ações do PGTA atuou significativamente no foco do fortalecimento da organização política, resultan- do na reafirmação da luta para manutenção de suas iden- tidades etno-culturais e suas formas tradicionais de vida, resguardando sobretudo a integridade física de suas terras.
O envolvimento dos jovens nas atividades oportunizou diferentes descobertas enquanto participavam das expe- dições em locais sagrados, identificando limites territoriais, cabeceiras de rios, territórios tradicionais, com roteiros e históricos cuidadosamente orientados pelos anciãos, atu- antes orgulhosamente nos repasses orais de seus conhe- cimentos, bem como nas orientações sobre o bem viver indígena na perspectiva dos Zoró, respaldando com isto a garantia da sobrevivência das gerações futuras".

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