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quinta-feira, 2 de julho de 2020

Tupinambá Antigo

Toy Art Tupinambá antigo
#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
35ATupinambá

UF / País

RJ, SP, BA



Os Tupi-Guarani tornaram-se conhecidos historicamente por terem sido os primeiros a fazer contato com os europeus, no que seria o início do período colonial, e também pelo imenso território ocupado por esses grupos então: no litoral Atlântico desde o cabo de São Roque, ao norte, até o Trópico de Capricórnio, ao sul, assim como extensas áreas do planalto meridional e entorno.
Tupinambá - Aquarela sobre pergaminho mostra índios brasileiros, o tupinambá pode ser visto com o lindo manto de penas, feito com fibras naturais, penas vermelhas de guarás e azuis de ararunas

Dados linguísticos, resultantes de análises léxico-estatísticas, são unânimes em apontar o sudoeste da Amazônia, na bacia do alto rio Madeira, como o centro de dispersão dos povos Tupi.

Os poucos dados arqueológicos existentes para essa região  parecem corroborar esta hipótese. Entretanto, não há documentação que ateste a presença de grupos Tupi-Guarani na bacia do alto Madeira para mais de alguns séculos. Os únicos Tupi-Guarani do sudoeste amazônico, os Kagwahiva de Rondônia e os Guarani das terras baixas bolivianas, migraram durante o período colonial para essa região, respectivamente da bacia do Tapajós da região do Chaco.

A GRANDE EXPANSÃO TUPI

O antropólogo brasileiro Roger Bastide deu o nome de “A Grande Expansão Tupi” para descrever o processo histórico de deslocamento de grupos de povos Tupi, ocupando praticamente todo o território brasileiro entre os séculos XIII e XVI, formando diferentes culturas ao longo deste caminho.

Bastide nasceu em 1º de abril de 1898 em Nîmes e faleceu em 10 de abril de 1974, aos 76 anos, em Masison Laffitte. Ele realizou um estudo detalhado das culturas indígenas e afro-brasileiras que, junto com outros pesquisadores, desde meados do século XIX, buscaram compreender os processos e mecanismos que permitiram que os grupos de língua tupi-guarani ocupassem vastas áreas de as terras baixas da América do Sul.

Tal pesquisa foi iniciada por von Martius, mas foi von den Steinen quem observou semelhanças linguísticas e culturais que possibilitaram a unificação dos diferentes grupos Tupinambá e Guarani (Noelli 1996, 1998, 2008).

Foi também von den Steinen o primeiro estudioso a apontar o sudeste amazônico - no caso, o alto Xingu - como o centro de dispersão dos povos Tupi-Guarani “Será, portanto, de importância decisiva para o problema da emigração tupi saber se nas cabeceiras do Xingu, no Planalto Central, onde mais ou menos se encontra o ponto geográfico central da irradiação tupi, ainda existam tribos tupi. Admitindo que ali ainda elas existam, será necessário saber quais dialetos tupi se aproximam principalmente dessas tribos incólumes de qualquer civilização até hoje, através de sua linguagem, se colocam numa categoria próxima dos primeiros tupinambás, encontrados antigamente pelos descobridores”.

Uma das sínteses clássicas dos dados históricos desses grupos cultural e linguisticamente relacionados foi a produzida por Alfred Métraux para o Handbook of South American Indians vol. III de 1948. A designação Tupinambá, utilizada por Métraux, cobria todos os índios falantes de línguas da família Tupi-Guarani, desde a boca do Amazonas até Cananeia, nas proximidades do Trópico de Capricórnio, assim como alguns grupos que habitavam áreas próximas ao litoral.

Um dos primeiros comentários de Métraux foi que, por mais próxima que fosse a relação entre esses grupos, havia paradoxalmente uma ligação de animosidade entre um grupo e outro. Animosidade que era colocada em prática durante os intermináveis conflitos entre os grupos que, por sua vez, terminavam em um clímax ritualístico: os derrotados sendo servidos como prato principal. A economia desses grupos era baseada na agricultura, e que a mandioca era a principal planta cultivada. Além da agricultura, eles viviam da coleta, da caça e da pesca. As aldeias eram, segundo o autor, localizadas em topos de morro, com quatro a oito casas dispostas em torno de uma praça central, cada uma comportando até 200 pessoas. Algumas aldeias possuíam valas e paliçadas para defesa. As casas comunais eram ocupadas por pessoas relacionadas por sangue ou casamento. Cada casa comunal tinha um chefe. Acima de todos, estava o chefe da aldeia (Métraux 1948).

Dentro de cada dos Tupis-Antigos eram encontradas redes para dormir, bancos de madeira, cestaria e cerâmica. Outros objetos eram os ornamentos de pena, o estojo peniano, contas, colares, arcos e flechas e os barcos. Em muitos casos, a relação dos Tupinambá com as canoas que produziam foi central para a interpretação das dinâmicas desses grupos. Na visão de Métraux, as canoas serviriam para pescar, para atacar inimigos e, por que não, para se deslocar (e expandir) rapidamente.

Sítios arqueológicos localizados na Amazônia

Os trinta e sete sítios arqueológicos localizados no baixo Tocantins foram agrupados em três fases cerâmicas: Tauarí, Tucuruí e Tauá:

- A fase Tauarí foi definida a partir de seis sítios arqueológicos, localizados da foz do rio Itacaiúnas até próximo do trecho encachoeirado do rio. A cerâmica apresenta pequeno percentual de decoração, 87%, tendo como características gerais o predomínio de tempero mineral, seguido pelo cariapé e/ou cariapé e carvão;

- A fase Tucuruí é caracterizada a partir de vinte e um sítios arqueológicos, localizados entre a corredeira de Itaboca e a cidade de Tucuruí. A coleção cerâmica é composta de 88,45% de fragmentos sem decoração. O tempero é predominantemente mineral, com ocorrência de cariapé. As técnicas plásticas de decoração incluem o inciso, o modelado (geométricos ou biomorfos), raspado, ponteado, escovado, entalhado, roletado, corrugado, acanalado, ungulado e serrungulado;

- A última fase é a Tauá, caracterizada a partir de cinco sítios arqueológicos localizados entre a cidade de Tucuruí e a vila de Nazaré dos Patos. A cerâmica tem como características gerais o predomínio de tempero mineral, seguido por cariapé. A decoração plástica compreende nas técnicas de inciso, modelado, corrugado, ponteado, escovado, entalhado, acanalado, roletado, digitado e raspado. As técnicas de pintura são como as da fase Tucuruí.
Araújo Costa e Simões (ops. cit.) associam as três fases à tradição Tupiguarani. Também definem essas ocorrências do sudeste do Pará como tradição Itacaiúnas:
“Estas três fase e outras da mesopotâmia Xingu-Tocantins, como Carapanã, Itacaiúnas, Pau d’Arco, Pacajá, Marabá e as ainda não nominadas da área do Projeto Carajás, formam uma tradição regional distinta, a qual se resolveu denominar tradição Itacaiúnas. A fase Tauarí é a que mais se identifica com a fase-tipo Itacaiúnas enquanto Tucuruí e Tauá apresentam maiores afinidades com a fase Carapanã,” (Simões e Araújo Costa, 1983, p 15).

Achados Recentes

Restos mortais de Indigenas Tupi foram encontrados dentro de artefato de cerâmica com desenhos tradicionais em rituais de sepultamento da etnia -  Foto: Bruno Concha/Secom - reprodução CNN

No começo de 2022, uma equipe de arqueologia na Bahia fez uma descoberta extraordinária: encontraram uma urna cerâmica pré-colonial que pode ser a sepultura de um indivíduo tupi-guarani. 

Segundo arqueólogos que trabalham na obra da Avenida Sete de Setembro, desenhos no interior do vasilhame de cerâmica comprovam sua data e origem Tupi

O artefato foi desenterrado durante escavações na avenida Sete de Setembro, em Salvador, próximo ao relógio de São Pedro. No interior do vasilhame, havia um corpo sepultado, sugerindo que possivelmente se tratava de um homem indígena que viveu entre os séculos XIV e XVI na região. Essa importante descoberta, juntamente com mais de 12 mil outros artefatos históricos encontrados no local, será estudada no Centro de Antropologia e Arqueologia de Paulo Afonso, em Salvador, contribuindo para a compreensão da história e presença dos indígenas nessa área.

Como eles se movimentavam pelo Brasil

Existem modelos propostos por estudiosos que oferecem diferentes interpretações sobre como os povos indígenas se moveram e se expandiram na América do Sul, considerando fatores como geografia, linguagem e cultura. Cada modelo aborda aspectos únicos do processo de expansão e migração:

1 - O Modelo Hidrográfico:
Proposto por Erland Nordenskiöld, enfatiza as bacias hidrográficas da América do Sul como importantes rotas de expansão, rodovias de alta velocidade para movimentações de grupos indígenas, permitindo grandes movimentos populacionais;

2 - O Modelo Linguistico de Schmitz:
Pedro Inácio Schmitz baseia seu modelo na origem amazônica dos Tupi, seguindo um modelo linguístico, sugerindo que esses grupos se originaram na Amazônia e se expandiram para outras regiões, devido à facilidades de comunicação;

3 - Modelo “Cardíaco” de Lathrap:
Donald Lathrap propõe uma semelhança com o sistema circulatório de uma região central, o coração (região do Xingu), que grupos Tupi, como os Tupinambá e os Guarani, expandiram como o sangue no corpo humano, a partir deste núcleo por meio de rotas fluviais, como as artérias e vasos sanguíneos, como vias de expansão;

4- Modelo de Brochado:
Proposto por José Joaquim Justiniano Proenza Brochado, associa grupos Tupi a diferentes áreas geográficas com base em evidências culturais, linguísticas e arqueológicas, através de um grafo denominado “grande jacaré amazônico”, em que a parte superior da mandíbula daria origem ao movimento Guarani, e a mandíbula daria origem ao movimento Tupi;

A seguir veremos cada um deles detalhadamente:

Modelo Hidrografico

Essa visão era coerente com o panorama proposto por Nordenskiöld (1930), que via nas três grandes bacias hidrográficas na América do Sul:

Bacia dos principais rios da América do Sul

-Bacia Amazónica – Brasil, Bolívia, Perú, Colombia, Equador, Venezuela e Guiana
-Bacia do Orinoco – Venezuela e colombia
-Bacia do Paraná – Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia

Uma rede de conexões que teria permitido grandes movimentos populacionais pelo continente. Panorama que seria adaptado por Lowie e Steward para o Handbook of South American Indians, sintetizando o conceito de Floresta Tropical.

Modelo de Brochado

O Modelo de Brochado, proposto por Jose Joaquim Justiniano Proenza Brochado ( grduado em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul 1963, especialização em Arqueologia pelo Museo y Facultad de Ciencias Naturales Universidad Nacional de La Plata, 1973) e doutorado em Antropologia pela University of Illinois(1981)., é uma abordagem que tenta explicar a expansão e migração dos povos Tupi na América do Sul com base em dados etnográficos, linguísticos e arqueológicos. Ele descreve duas subtradições Tupi e as associa com duas levas de migração Tupi, representadas graficamente pelo "grande jacaré amazônico". Este modelo é considerado uma das obras mais completas sobre a arqueologia Tupi.

Entretanto, existem críticas a esse modelo, particularmente em relação à associação da Tradição Policroma Amazônica com os falantes de línguas do tronco Tupi, que carece de evidências etnográficas ou históricas sólidas.

É importante reparar que o Modelo Hidrográfico, mencionado no texto, enfatiza a importância das bacias hidrográficas na América do Sul, especialmente as bacias do Amazonas, Orinoco e Paraná, como redes de conexões que permitiram grandes movimentos populacionais pelo continente. Isso sugere que os rios desempenharam um papel crucial na mobilidade e na ocupação de territórios por grupos indígenas.

Ambos os modelos representam abordagens teóricas para entender a migração e expansão dos povos indígenas na América do Sul, e cada um enfatiza fatores diferentes que influenciaram esses movimentos ao longo da história pré-colonial.

Modelo do Grande Caiman (cayman, pinça ou jacaré) proposto por Brochado no qual o maxilar é a origem Guarani e a parte superior da mandíbula é Tupi

Quanto às criticas, tanto de etnólogos quanto de lingüistas, a respeito deste modelo de Brochado, a principal delas refere-se à associação da Tradição Policroma Amazônica com os falantes de línguas do tronco Tupi. 

Não existe nenhuma evidência, etnográfica ou histórica que permita esta associação (HECKENBERGER ET AL, 1998, URBAN, 1996). Apesar dos apontamentos de Lima (2005) sobre a relação dos campos decorativos entre as cerâmicas Marajoara/Guarita e Tupiguarani, Schaan (2007) após enumerar diferenças entre ambas afirma:

“(...) Poderímos ir adiante enumerando diferenças. Percebe-se claramente diferenças marcantes entre estas duas populações, o que nos leva a considerar as poucas semelhanças encontradas na cerâmica como pouco significativas” (Schaan, 2007, p 12)

O Modelo de Shmitz

Na década de 1990, diversos modelos são retomados, mas sem grandes modificações. Pedro Inácio Schmitz de 1991 (mapa 3) reitera sua posição adotada em 1985, baseado no modelo lingüístico de Migliazza para a origem amazônica dos Tupi.

O "Modelo Cardíaco" de Lathrap
O modelo de dispersão mais aceito, com origem no alto Xingu, usando das trilhas ancestrais para se espalharem pelo Brasil, posto que não usavam da navegação para este fim 

Donald Lathrap da universidade da California propós em 1970, em seu tratado não publicado, um modelo de expansao que, tal como um sistema circulatorio, tinha um epicentro de circulação, às margens do rio Madeira em gerião Xinguana. 

Ele oferecia uma proposta para a compreensão da história de longa duração dos grupos indígenas nas terras baixas da América do Sul, com destaque para os Tupinambá e para os Guarani. 

Nesse modelo, tais antigas populações do tronco Tupi teriam se expandido a partir da Amazônia central. Nesta região, assim como por quase toda a calha do rio Amazonas e por alguns dos seus principais afluentes, esses antigos grupos Tupi produziriam vestígios materiais ligados à Tradição Polícroma Amazônica (TPA). 

Nesta perspectiva, e do ponto de vista arqueológico, as Subtradições Tupinambá e Guarani seriam identificadas ao longo do litoral atlântico, nas áreas de mata atlântica, nos vales do sul do Brasil e no entorno deste, e em algumas outras regiões (Noelli 1996, 1998, 2008). Tais agrupamentos possuiriam uma cultura material semelhante, o que permite falar em uma Tradição Tupi-Guarani.2 Além disso, nesta visão, o eixo desse processo teria seguido vias fluviais ou costeiras.

Quem eram os Tupinambás

Graças aos livros de Lerry Thevet e Hans Stadens, sabemos como era a sociedade dos Tupis (Tupinambás, Tupiniquins, etc. ). Esses relatos começam com a aventura de Hans Staden, no ano 1553, que ao realizar uma caçada sozinho em Bertioga, foi capturado por indígenas que o trataram com muita violência - Staden logo percebeu que a intenção dos indígenas era a de devorá-lo em um sofisticado banquete, servido com o mais fino Cauim.

Apos passar por vários momentos de terror, Staden sobreviveu ao contato com os canibais, voltou a Europa, quando escreveu sobre essas verdadeiras desventuras quase inacreditáveis no ano de 1556, fazendo do Brasil e seu provo um dos lugares mais incríveis e assustadores do mundo de sua época.
Artefatos dos Tupinambá, a muçurana, a corda que o prisioneiro carregava dentro da aldeia enrolada na cintura - o numero de nós representava o numero de luas até a data de seu sacrificio, o enduape, ornamento com penas gigantes, provavelmente de emas, que era usado nas costas e a ibirapema, budurna, especie de maça utilizada para dar o golpe ritual na nuca do refém.

A veracidade dos relatos de Staden são autenticados no ano seguinte no livro do francês André Thevet, de religião católica e posteriormente pelo calvinista Jean de Léry. Thevet teve sua experiência obtida ao fazer parte do grupo denominado França Antártica no Brasil, que após passar dez semanas vivendo na Baía da Guanabara, regressou à França por estar doente. No ano seguinte, publicou a obra intitulada ‘As singularidades da França Antártica (1557)’: uma fonte relevante por ser uma das primeiras obras a fazer menção ao Brasil em pleno descobrimento, no entanto, escrito com ênfase no fantástico ao transparecer a presença do imaginário medieval.

Já Jean de Léry que veio para o Brasil em 1558, juntamente com um grupo de quatorze pastores calvinistas, e cinco donzelas para habitar a França Antártica fez um realto bem mais acurado. No decorrer de sua estadia os conflitos ideológicos entre católicos e protestantes, fez que ele tivesse uma visão muito mais critica ao trabalho de Thevet, que após dezenove anos do seu retorno, publicou seu diário denominado ‘Viagem à terra do Brasil (1577)’, uma obra muito mais elaborada que tinha o declarado intuito de desmentir equívocos e mentiras contidas no livro de Thevet.

Essas três importantes obras ilustradas que renasceram na decada de 1920 Totem e tabu, de Freud, o manifesto Cannibale, de Francis Picábia, lançado em 1920, e o livro L’Anthropophagie rituelle des Tupinambás, de Alfred Métraux, que inspiraram os modernistas de 1922, Tarsila, Oswald e Mario de Andrade, fizeram que nós conhecêssemos a cultura, idioma e hábitos dos povos Tupis com rigor científico em estado de arte.

Banquetes que demandavam por refinada etiqueta, como as européias e éticas de guerra, com rituais semelhantes aos dos Samurais japoneses

O Brasil daquela época era ocupado por tribos irmãs e beligerantes, a guerra era uma atividade constante, Potiguares eram inimigos de Tabajaras, que por sua vez eram inimigos de Caetés, rivais dos Tupinambás, os quais, guerreavam constantemente contra os Tupiniquins. Essas guerras eram regidas por códigos atentamente observados e seguidos a risca por todos esses ‘primos’, falantes de variações do mesmo idioma, o Tupi Antigo.

O ato da guerra era sagrado e tinha como o momento culminante do embate, o apogeu ritualístico definitivo e verdadeira consagração da vitoria, a Antropofagia. Os ARAPURUS (comedores de gente) tinham rituais muito bem coreografados e a dinâmica do ritual canibalístico era muito elaborada, existem relatos de outros atos canibilísticos ao redor do mundo, mas foi aqui, nos litorais brasileiros que essa pratica teve a sua aplicação mais requintada.

1 – A guerra

Enquanto os portugueses estavam preocupados com a exploração dos recursos da nova colônia, os povos indígenas estavam totalmente dedicados aos atos de guerra intertribais. No ano de 1565 os portugueses resolveram tomar uma posição mais forte e uma batalha foi travada entre portugueses, aliados ao Tupiniquins contra os franceses, aliados dos Tupinambás. Poucos anos mais tarde a maior parte dos franceses foi expulsa da região da Gauanbara, que tinha Villegagnon, um cavaleiro católico de Malta como líder, junto aos Tupinambás da resistência. Essa derrota só foi possível com a ajuda dos Tamoios, sob a liderança de Aimberê, dando origem assim ao Rio de Janeiro.

O executor perguntava: -“Ere-îuká-pe oré anama, oré iru abé?” (mataste nossos companheiros e nossos parentes, o prisioneiro então relatava seus feitos heróicos: - “Pá, Xe r-atã, a-iuká, opabe a-‘u. Xe anama xe r-eõ-nama resé xe r-epyk-y-ne. Xe anama e’i-katu pe îukabo” (Sim, eu sou forte, matei-os e comi-os todos, minha família, por minha morte vingar-me-á, minha família irá matar vos).Prisioneiro dos Tupinambas amarrado pela cintura com a MUÇURANA em ritual de sacrifício, O executor, vestindo um lindo manto de GUARÁ, empunha a IBIRAPEMA
Em meio a essa guerra toda, guerreiros de tribos inimigas eram capturados e ai então os Abá-Porus faziam a festa

2-O Prisioneiro de Guerra

No exato momento em que o inimigo era capturado, o guerreiro responsável pela captura virava seu dono, e passava a ter responsabilidade direta sobre seu cativo até o final de todo o processo, que culminaria com com sua canibalização. Os prisioneiros eram amarrados pelos pés e mãos, o que impossibilitava sua caminhada, para se locomoverem, eles tinham que dar ‘pulinhos’, situação que se ridicularizava bastante o capturado.

Aos pulos os prisioneiros eram conduzidos até a aldeia dos vencedores, ao passar pela entrada principal, eram recebidos com animosidade e ainda mais humilhação, os residentes jogavam restos de comida e pedriscos e se dava o seguinte dialogo:

O captor dava a ordem ao prisioneiro: -“Enhe'eng tembi'u” (Fale, comida); O prisioneiro então respondia: “Aîur-ne pe rembi'urama” (Estou chegando eu, sua comida);
As pessoas da tribo, jogando pedriscos e restos de comida no prisioneiro completavam: “Opererek îandé rembi'u oîkóbo” (Aí vem chegando nossa comida).

Nos próximos dias, o prisioneiro recebia o tratamento equivalente ao de um primo distante, era hospedado na oca do captor, era bem alimentado, a zombaria cessava 'em parte' e o anfitrião oferecia, alimento, rede e até mesmo sua filha ou sua esposa para que este se satisfizesse sexualmente. Nos primeiros dias, ele recebia também uma longa corda com nós para ser usada ao redor do corpo e pescoço, chamada de MUÇURANA. A Muçurana tinha uma quantidade de nós que representava o numero de ciclos lunares até sua execução. O prisioneiro jamais tentava fugir, pois isso seria a maior vergonha para ele e sua tribo. Na bizarra hipótese da fuga do prisioneiro, as pessoas de sua própria tribo não o aceitariam de volta e o conduziam vergonhosamente a aldeia dos captores para seu destino que já estava determinado pelo condigo de conduta da tradição oral mais antigo que se conhecia.

Os Tupis, tal qual os samurais prezavam a morte digna, o tumulo mais honroso para um guerreiro era o estomago de seu inimigo - Ter suas entranhas devoradas por vermes e insetos era repugnante e desprezível.

3- O Banquete

No dia anterior ao banquete, todos bebiam o Cauim, bebida fermentada de mandioca produzida exclusivamente pelas mulheres pelo processo de mastigação e cusparada (a amilase salivar transformava amido em açúcar, que por sua vez era fermentado por leveduras exógenas, criando assim uma bebida de graduação alcoólica não superior a 8,5%), e tinha inicio uma grande festa.
Capa de penas de guará e de papagaio, pertencia à tribo de índios Tupinambá. Após a chegada do europeu em 1500, grande parte destas preciosidades foram saqueadas. O destacado Manto Tupinambá, que já foi confundido com o manto de um imperador azteca e foi levado daqui pelo governador holandês de Pernambuco, no século 17. Hoje pertence ao Museu Nacional de Arte da Dinamarca.
Na manhã seguinte, o prisioneiro tomava um banho e depois era ornado com penas, casacas de ovos, e outros adereços, eram também feitas pinturas vermelhas de urucum e pretas de jenipapo. Uma pantomima sempre acontecia nesses rituais - permitia-se que o prisioneiro fugisse até a entrada da aldeia quando era recapturado, numa encenação ritualística, e voltava amarrado com a Muçurana pela cintura, trazido por dois guerreiros, um de cada lado da corda e trazido para frente do executor enquanto a tribo toda gritava e se alvoroçava, aumentando assim o clima da festividade ao seu êxtase.

O Executor que também havia se banhado e submetido a uma pajelança com ervas e unguentos, após a longa cauinagem da madrugada, trajava-se de forma ritualística, com plumas pinturas e um maravilhoso MANTO GUARÁ vermelho feito com pele de lobo-guará, ornado com plumas de arara e tucano. Um dos momentos mais acalorados da festa era quando o executor se colocava na frente do prisioneiro, o absoluto silencio se fazia e acontecia outro dialogo:

O executor perguntava: -“Ere-îuká-pe oré anama, oré iru abé?” (mataste nossos companheiros e nossos parentes?)
O prisioneiro então relatava seus feitos heróicos: - “Pá, Xe r-atã, a-iuká, opabe a-‘u. Xe anama xe r-eõ-nama resé xe r-epyk-y-ne. Xe anama e’i-katu pe îukabo” (Sim, eu sou forte, matei-os e comi-os todos, minha família, por minha morte vingar-me-á, minha família irá matar vos).

Após o dialogo, o executor empunhava uma pesada arma, assemelhada a uma enorme maça, com um peso na ponta, ornada com plumas, que previamente fora preparada com orações e libações, chamada ‘IBIRAPEMA’, a manejava com destreza em movimentos marciais coreografados, encaminhava-se para traz do prisioneiro e acertava a base do crânio com muita força.

A morte era rápida, o crânio era despedaçado em sua base.

As mulheres mais velhas rapidamente colocavam um embolo em seu anus para evitar que os fluidos saíssem, recolhiam seus miolos e demais fragmentos espalhados pelo chão e tentavam recolher a maior parte possível de sangue. O corpo permanecia de pé, amparado pelas Muçuranas, fazendo com que seu sangue não fosse espalhado pelo chão, havia uma propósito muito nobre para todo esse sangue.

O sangue colocado em vasos de barro cozido e era bebido ainda quente por todos, as mulheres passavam em seus seios e davam o peito aos bebês, seu corpo era colocado com muito respeito dentro de um caldeirão já com água fervente, para facilitar a retirada da pele, ai então o corpo era desmembrado, cortado pelo dorso e levado para a defumação (moqueágem). Após alguns minutos o corpo era virado, abria-se o ventre e os miúdos eram misturados a farinha e o mingau era dado para as crianças, só os grandes guerreiros podiam comer um mingau preparado com a pele ao redor do crânio, e os órgãos sexuais eram devorados pelas mulheres. A língua e os miolos eram comidos por pré-adolescentes de 12 a 16 anos de idade.

Logo apos a execução, o executor era arranhado pelo líder tribal com dente de onça, de forma que a escarificação já cicatrizada servia-lhe como honraria – Quanto mais escarificado, melhor guerreiro era. Todo esse ritual era acompanhado de musica de flauta feita com os ossos dos prisioneiros abatidos anteriormente.

Ao final de 4 horas, o ritual acabava e os habitantes da tribo se recolhiam aos aposentos para dormir, a final de contas, ficaram acordados a noite toda para o grande evento.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Povos Indígenas Brasileiros Antigos



Temos no Brasil hoje um pouco mais de um milhão de indígenas, divididos em 305 grupos étnicos, falando 274 línguas diferentes, porem, na época do descobrimento a realidade era outra - Estima-se que havia 5 milhões de habitantes, pertencentes a 1.300 grupos linguisticos, mas a colonização portuguesa foi predatória no que diz respeito a nossos povos ancestrais.

O esforço de colonização sempre menosprezou o povo ancestral local, a Constituição Federal do Brasil de 1824 não contemplava a existência dos povos indígenas, considerando, assim, que a sociedade brasileira era homogênea, desde 1500 o extermínio, as doenças trazidas pelos europeus e a escravidão, dizimou nossa gente, segundo Darcy Ribeiro, no ano de 1957 a população indígena no Brasil chegou ao assustador numero de 80.000 pessoas, como eles não  dominavam a escrita e como a base de conhecimento ancestral era mantida apenas na tradição oral, tendo nos anciãos seus registros cultuarias e históricas, a perda foi inevitavelmente enorme.

Em 1910, foi criado o Serviço de Proteção ao Índio, sendo, portanto, o órgão federal responsável pela política indigenista. Já em 1967, foi criado a Fundação Nacional do Índio (Funai), cuja função está relacionada à delimitação, à demarcação, à regularização e ao registro das terras indígenas. É também de responsabilidade do órgão coordenar e implementar as políticas de proteção aos povos indígenas.
e mudanças na Constituição Federal de 1988, passou a considerar a pluralidade étnica como direito, evidenciando a questão da proteção às comunidades indígenas e estabelecendo prazo para que suas terras fossem demarcadas. Essas políticas mudaram o cenário para melhor, de acordo com o Instituto Socioambiental, os povos indígenas têm crescido em média 3,5% ao ano.

Num esforço para resgatar esse conhecimento e resguardar suas historias, a seguir, elenco as principais etnias antigas do Brasil, muitas delas se extinguiram, outras modificaram-se e se readaptaram aos dias de hoje.

#_______ NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
1-AAimoré

UF / País

BA/ES

2-ABacairís
Karib


UF / País

MG

3-ABotocudosKrenak


UF / País

BA/ES/MG

4-ACaeté
Tupi-Guarani

UF / País

BA, PE, SE

5-ACaiapósKayapós



UF / País

PA/MG/AM

6-ACaingangsKaingang


UF / País

PR, RS, SC, SP

7-ACajabíKaiabiTupi-Guarani


UF / País

MT

8-ACamaiuráKamayuráTupi-Guarani


UF / País

MT
9-ACambebaKambemba, OmáguaTupi-Guarani


UF / País

AM e Perú

10-ACarijós
Tupi-guarani

UF / País

PR

11-ACarirís
Kariri


UF / País

CE, AL

12-ACharruaCharrua



UF / País

RS, SC e Argentina

13-AGoitacás


UF / País

ES, RJ

14-AGuaiaquís

UF / País




15-AGuarulhos


UF / País

SP

16-AGuianas


UF / País




17-AHumaitá


UF / País




18Ibicui


UF / País




19-AItaparíca


UF / País




20-AIucpás
Karib

UF / País




21-AKuhikugo

UF / País




22-AMaipuré

UF / País




23-AMarajoara

UF / País

PA

24-AMinuano


UF / País




25-APausema


UF / País




26-APotiguaraPitaguary
Tupi-Guarani


UF / País

CE, PB

27-ASeridó


UF / País




28-ATabajara
Tupi-Guarani


UF / País

CE

29-ATamoio
Tupi-Guarani

UF / País

Bertioga SP  e Cabo Frio RJ

30-ATemiminóTupi-guarani

UF / País

RJ, ES

31-ATeneteara
Tupi-guarani

UF / País

SC, SP

32-ATimbiraApinajé


UF / País

TO

33-ATremembé
Tupi-Guarani


UF / País

Ba, PE


34-ATupinambáTupi-Guarani


UF / País

RJ, SP, BA

35-ATupiniquim
Tupi-Guarani


UF / País

SP

36-AXoklengs




UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
SC

37-BTecunas


UF / País





Origens

Todos os seres humanos são descendentes dos mesmos antepassados que habitaram a África, local onde o Homo sapiens surgiu entre 100 e 200 mil anos antes do presente (AP).

As primeiras a saírem de lá o fizeram, acredita-se, há cerca de 50-60 mil anos, e a partir de então passaram a se espalhar pelo resto do mundo. Sua primeira irradiação foi para o Oriente Médio, a única ligação terrestre da África com o restante do mundo, e dali as correntes migratórias se dispersaram: alguns seguiram para o oeste, atingindo a Europa, enquanto que outra parcela rumou para o leste, atingindo a Ásia. O isolamento prolongado entre essas populações acabou por transformá-las, dando-lhes diferentes características físicas e hábitos de vida, adaptando-se a novos ambientes

"Modelo de Berígia", proposto por Greenberg et alii, bastante aceito na comunidade científica
Os povos das Américas (ameríndios) são descendentes do grupo que seguiu para o leste e que povoou a Ásia. Sua penetração na América foi explicada por várias teorias, e atualmente a mais aceita diz que a passagem foi feita através do estreito de Bering, em data ainda controversa, mas durante a Idade do Gelo. Naquele tempo, com o declínio da temperatura mundial, o gelo do mundo se expandiu, rebaixando o nível do mar e expondo terra seca entre a península de Chukotka, no extremo nordeste da Ásia, e a península de Seward, na América do Norte, criando uma ligação transitável entre os dois pontos. Com o fim da Idade do Gelo o nível do mar subiu, inundando a ligação dos dois continentes, impedindo novas migrações e separando as populações que ficaram na Ásia das que migraram para a América. Como não havia alternativa, essas pessoas continuaram se deslocando, ao longo de milhares de anos, rumo ao sul, povoando a América Central e a América do Sul.

O mapa acima ilustra a hipótese da colonização em três ondas migratórias com populações de diferentes regiões da Ásia, o chamado "Modelo de Berígia", proposto por Greenberg et alii, bastante aceito na comunidade científica, embora não consensual. Em marrom, o mapa atual; em ocre, a terra variavelmente exposta na glaciação, e a área em branco é o gelo terrestre entre 36 e 16 mil anos AP. Antes de c. 43 mil anos AP os nômades chegaram ao extremo leste da Ásia. Entraram na Beríngia e ali teriam ficado até c. 16 mil anos AP, bloqueados pelo gelo de progredir mais para o leste. O gelo avançou e recuou várias vezes neste período glacial, fazendo variar o nível do mar e alternativamente vedando ou abrindo acessos a pé seco. Ali o mar era raso e a exposição máxima de terra seca ocorreu entre 23 e 19 mil anos, abrindo um istmo de mais de mil quilômetros de largura. A inundação final da passagem aconteceu entre 12 e 11,3 mil anos AP. Exatamente como e quando as passagens foram aproveitadas pelas populações nômades, em que número elas passaram, e que linhagens genéticas traziam, são as grandes incógnitas.

Ocupação Pré-Histórica

Os arqueólogos denominam por fase um complexo cultural onde os elementos são intimamente associados. Por tradição, os arqueólogos entendem as práticas e técnicas padrão dos antigos para a confecção, por exemplo, da indústria lítica e da pintura rupestre. Uma subtradição é uma divisão dentro da tradição, normalmente porque houve uma diferenciação do padrão original em dois ou mais padrões novos.

No final do período pleistocênico a temperatura variou amplamente em fases de expansão e contração das geleiras. Acredita-se que as temperaturas eram mais frias no pleistoceno do que no holoceno, quando sofreram um aumento considerável. No começo do período arcaico médio, o nível do mar se encontrava 10 metros abaixo do atual. Muitas regiões do país, como o Piauí, por exemplo, eram muito mais úmidas do que o são hoje.

Nordeste e Centro Sul

A idade paleolítica brasileira é normalmente situada entre 12 mil e 4-2 mil anos antes do presente, quando do surgimento e difusão da prática agricultora na região. Antes disso, os homens viviam de caça, pesca e coleta, fato comprovado por achados arqueológicos e representações em pinturas pré-cabralinas. Nesta época, os arqueólogos constataram a existência de diferentes tipos de indústria lítica em diversas regiões do Brasil. No nordeste, vários sítios arqueológicos indicam o desenvolvimento da pedra lascada, contendo lesmas (artefato lítico em forma de lesma utilizado para raspar suportes de madeira), lascas, furadores e fogões para assar caça. A pintura rupestre era realizada nesses primeiros sítios.

Na região nordeste, as técnicas de trabalho com o material lítico se tornam cada vez mais diversificadas e complexas com o passar do tempo. O número de fogões, por exemplo, aumenta conforme as datações se aproximam do ano 8 mil antes do presente. Fogueiras também são encontradas.

As pinturas rupestres dessa região têm se revelado profundamente instigantes. Na Toca do baixão da Perna 1, por exemplo, (na área arqueológica de São Raimundo Nonato) foram encontradas pinturas rupestres que datam de 10500 anos atrás. No sítio do boqueirão da Pedra Furada, inúmeras pinturas rupestres em pigmento vermelho foram encontradas. Os autores identificam a tradição de pintura desta área como tradição nordeste. Além da tradição nordeste, foram identificadas subtradições como a Várzea Grande (sudeste do Piauí) e a Seridó (Rio Grande do Norte). As figuras mais abundantes representam seres humanos, plantas e animais, mas também são encontrados grafismos puramente abstratos. Algumas paredes de caverna representam cenas de caça e celebrações rituais. De acordo com alguns arqueólogos, os temas de violência na pintura rupestre antiga estariam vinculados ao desenvolvimento técnico obtido nos anos subsequentes, responsável por promover estratégias de caça mais eficientes. A tradição nordeste se encerra há cerca de 5 mil.

Na região central e nordeste, uma importante tradição cultural foi identificada pelos estudiosos: a tradição Itaparica (Goiás, Minas Gerais, Pernambuco, Piauí). Essa tradição teria desenvolvido ferramentas líticas lascadas como lesmas, furadores e facas, mas poucas pontas de projéteis. Os povos dessas regiões teriam mudado sua forma de vida cerca de 6 500 anos atrás, quando teriam passado a se alimentar de moluscos e frutos. No centro do país, uma tradição de pintura rupestre denominada Planalto teria se desenvolvido.
Mapa do Brasil com as etnias em 1500

As datas mais antigas no Sul são atribuídas à tradição Ibicuí (entre 13 000 e 8 500 anos), composta de artefatos simples, encontrados na Bacia do Uruguai.  A fase Uruguai, que sucede a primeira cronologicamente, data de 11 555 a 8 640 A.P. e é composta por raspadores, facas bifaciais e pontas de projéteis.Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul foram localizados artefatos (facas, raspadores, pontas de flecha foliáceas) de 8500 a 6500 anos atrás, estabelecidos como tradição Vinitu. A tradição Humaitá, mais recente (entre 6500 e 2000 anos atrás) se estende de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Os homens dessa tradição produziram raspadores, furadores e, inclusive, zoólitos (estátuas de pedra assumindo formas animais). Outra tradição identificada no sul foi chamada de Umbu; esta teria sido responsável pela confecção de fogões e pontas de projéteis.

Os principais sítios arqueológicos do litoral são os sambaquis, montes de conchas de moluscos (com os quais se alimentavam as populações antigas) formados por ação humana.Normalmente são encontrados junto dos sambaquis esqueletos dos antigos americanos, peças líticas, restos de alimentos, etc. Grande parte dos sambaquis brasileiros se encontram cobertos pelo mar, devido às mudanças climáticas ocorridas durante o pleistoceno tardio e o holoceno. Os sambaquis existem em quase todo o litoral brasileiro. Na época de sua descoberta, no século XIX, foram comparados com estruturas semelhantes existentes na Escandinávia. Os sambaquis são associados à tradição Itaipu. Os povos que habitavam o litoral são normalmente definidos como pescadores seminômades.

Arcaico recente do sul à região nordeste (4 000 A.P. até 1500 d.C.)

O aparecimento de plantas cultivadas em Minas Gerais data de 4 mil anos atrás.Em São Raimundo Nonato, a agricultura parece ter sido praticada desde há pelo menos 2 090 anos. Embora a cerâmica amazônica seja mais antiga que a agricultura, o mesmo fenômeno não ocorre no resto do país, onde a cerâmica mais antiga data de 3 mil anos atrás (na área de São Raimundo Nonato). Arqueólogos brasileiros consideram que o surgimento da cerâmica nas regiões em questão está ligado ao sedentarismo e à agricultura, uma vez que a cerâmica é de difícil transporte e, normalmente, teve a função de armazenar víveres. A tradição Taquara-Itaré é talvez a mais estudada tradição de cerâmica do país.

Período pré-cerâmico (Amazônia) (12 000 - 3 000 A.P.)

As datações mais antigas da região amazônica atribuem aos primeiros habitantes da região datas como 12 500 a.C. É provável que o território já houvesse sido colonizado anteriormente, mas apenas o avanço da pesquisa na Amazônia poderá confirmar essa hipótese. Os arqueólogos identificam um desenvolvimento da técnica de lascar pedras, começando pelo lascamento por percussão e seguindo para o lascamento por pressão. As mudanças nas técnicas de lascamento são associadas a diferentes modalidades de caça, uma voltada para os animais de grande porte, e outra para os animais de pequeno porte. Nada, contudo, é certo sobre o estilo de caça dos antigos povos amazônicos. Os estudiosos acreditam que esses povos se alimentavam de moluscos (observação baseada na descoberta de sítios como os sambaquis), pequenos animais e frutos. Os sambaquis continuam sendo os principais sítios arqueológicos desse período na Amazônia.

Agricultura Amazônica 

Novas pesquisas em Rondônia atribuem uma antiguidade muito maior à prática da agricultura na Amazônia. De acordo com o arqueólogo Eduardo Bespalez, a agricultura amazônica pode chegar a 8000 anos, uma data próxima dos primeiros registros de agricultura no mundo. Além disso, o sítio arqueológico de Garbin reforça a tese de Ana Roosevelt de que a cerâmica não esteve associada, nas suas origens, à agricultura. Os arqueólogos brasileiros encontraram apenas indústria lítica associada à terra preta (principal indício da prática de agricultura na região). As novas descobertas podem jogar luz sobre os mistérios que envolvem desde o significado de sociedades complexas na Amazônia até as origens da Floresta Amazônica, possivelmente antropogênica.  De acordo com o arqueólogo Marcos Pereira Magalhães, "A Cultura Neotropical Amazônica é o resultado de um acontecimento histórico regional de longa duração, derivada da Cultura Tropical desenvolvida por sociedades de caçadores-coletores integradas social, cultural e economicamente aos recursos da floresta tropical neotropical, com a qual interagiam objetiva e subjetivamente."

Período cerâmico incipiente: 3 000 - 1 000 a.C.

Durante essa época os povos amazônicos adotaram um estilo de vida similar ao estilo de vida adotado por muitas tribos do território atualmente. Assim, os indígenas teriam vivido em estado de relativa fixação, realizando a horticultura de raízes. Esses grupos desenvolveram a primeira cerâmica elaborada da América, com temas geométricos e zoomórficos, pinturas em tinta branca e vermelha.Os vasos assumiram formatos ovais e circulares. Os grupos de estilos cerâmicos mais conhecidos são chamados de Hachurado Zonado e Saldóide Barrancóide. O último é relacionado a incisões e pinturas em vermelho e branco, enquanto o primeiro à preferência pelo hachurado zonado. Cerâmicas do estilo Saldoide, encontradas no baixo e médio Orenoco, parecem terem sido criadas entre 2 800 x a 800 a.C. Os estilos Hachurados Zonados de Tutoshcainyo e Ananatuba datam, respectivamente, de cerca de 2 000-800 a.C. e 1 500-500 a.C. Muitos estudiosos admitiram que essa cerâmica tenha sido influenciado pelos complexos culturais andinos, embora hoje já se admita que os indígenas da Amazônia tenham desenvolvido essa cerâmica elaborada na própria região baixa, tendo provavelmente influenciado os Andes posteriormente.

Essas sociedades praticavam, além da horticultura, caça e pesca. O consumo de mariscos foi reduzido, e esses povos passaram a se instalar nas várzeas e margens dos rios. Assadeiras de cerâmica grossa foram identificadas nesses territórios, de forma que alguns arqueólogos aventam a hipótese da presença da mandioca. Sítios desses complexos culturais foram encontrados na bacia do Ucaiali, na ilha de Marajó, no Orenoco e no Amazonas.

Cacicados complexos da Amazônia: 1 000 a.C. – 1500 d.C.

O aumento demográfico das populações amazônicas na época da Pré-História tardia, combinado a outros fatores, suscitou grandes transformações entre as sociedades indígenas da Amazônia. Segundo arqueólogos, as sociedades que habitavam regiões da bacia amazônica passaram a se organizar de forma cada vez mais elaborada entre o ano 1 000 a.C. e o ano 1000 d.C..  Os arqueólogos definem estas sociedades como “cacicados complexos”.  Essas sociedades tornaram-se cada vez mais hierarquizadas (provavelmente contendo nobres, "plebeus" e servos cativos), constituíram chefias centralizadas na figura do cacique, e adotaram posturas belicosas e expansionistas. O cacique, além de dominar amplos territórios, organizava continuamente seus guerreiros visando conquistar novos territórios. A cerâmica dessas sociedades era altamente elaborada, demonstrando um domínio de técnicas complexas de produção. Havia urnas funerárias elaboradas (associadas ao culto dos chefes mortos), comércio e os indícios arqueológicos apontam uma densidade demográfica de escala urbana nessas civilizações.  Acredita-se que a monocultura era praticada, além da caça e da pesca intensivas, a produção intensiva de raízes e o armazenamento de alimentos. Segundo a pesquisadora Anna Roosevelt, "O desenvolvimento da agricultura intensiva nos tempos pré-históricos parece ter estado correlacionado à rápida expansão das populações das sociedades complexas. Sugestivamente, os deslocamentos e o despovoamento do período histórico aparentemente fizeram com que estas economias retornassem aos padrões de cultivo menos intensivo de raízes e à captura de animais (...)."

Crônicas do início do período colonial são hoje empregadas na reconstrução das antigas civilizações brasileiras. Muitos cronistas estrangeiros descreveram elementos indígenas do período dos cacicados complexos. A dissolução dessas organizações sociais normalmente é relacionada à conquista, que teria abalado sua estrutura demográfica.

A cerâmica produzida por estas civilizações é classificada em dois grupos principais: o Horizonte Policrômico e o Horizonte Inciso Ponteado. Entre os sítios arqueológicos que apresentaram vestígios agrupados sob o Horizonte Policrômico estão: os Marajoaras (foz do Amazonas) e o Guarita (Médio Amazonas), entre outros localizados fora da Amazônia brasileira. Entre os sítios arqueológicos associados ao Horizonte Inciso Ponteado encontram-se: Santarém (Baixo Amazonas) e Itacoatiara (Médio Amazonas). O primeiro horizonte é caracterizado pelas pinturas brancas, pretas e vermelhas, pelos temas geométricos e pelas incisões. O segundo horizonte é caracterizado pelas incisões profundas e pela técnica de ponteação. Acredita-se que o Horizonte Inciso Ponteado estivesse associado aos antepassados dos povos de língua caribe, enquanto o Horizonte Policrômico teria sido produzido pelos antepassados dos povos de língua tupi.

Os grandes sítios amazônicos da época dos cacicados complexos parecem ter tido regiões especializadas para o enterro, o culto, o trabalho e a guerra. A ocupação pré-histórica tardia do território era sedentarizada. A entrada do milho e de outras sementes na região, assim como sua popularização entre os americanos, data do primeiro milênio antes de Cristo.

Kuhikugu (1 500 - 400 A.P.)

Uma das civilizações amazônicas conhecidas por ter desenvolvido grandes cidades e vilas durante o período Pré-Colombiano foi a de Kuhikugu. O sítio arqueológico de Kuhikugu, descoberto pelo arqueólogo Michael Heckenberger, se localiza dentro do Parque Nacional do Xingu (região do Alto Xingu), e provou ter sido um grande complexo urbano que pode ter abrigado até 50 000 habitantes. Construído provavelmente pelos antepassados dos atuais povos Kuikuro, o sítio abriga construções complexas como estradas, fortificações e trincheiras para proteção. Como a descoberta é recente, estudos sobre as formas de vida dessas populações ainda são necessários, embora os estudiosos acreditem que esse povo cultivava a mandioca. O desaparecimento dessa civilização, assim como de outras grandes civilizações amazônicas, é relacionado à entrada de doenças europeias no continente, responsáveis por dizimar as populações locais, por volta do ano 1500 de nossa era. As características naturais da Floresta Amazônica (mata densa etc.) explicariam porque os antigos europeus não travaram conhecimento com esta civilização brasileira.

Monte de Teso dos Bichos (400 a.C. - 1300 d.C.)

O Monte de Teso dos Bichos, localizado na Ilha de Marajó, é o local onde floresceu uma das mais elaboradas civilizações da Amazônia pré-cabralina, ocupando 2,5 hectares. Com uma população estimada em 500 mil pessoas, os habitantes dessa civilização pertenciam a uma sociedade de tuxauas, senhores da foz do Amazonas. Havia divisão do trabalho entre homens e mulheres, uma dieta rica em proteína animal e vegetal e refrescos fermentados (como o aluá).

Uma das características marcantes das sociedades complexas da Ilha de Marajó são os "tesos", aterros artificiais de grande porte construídos para a colocação de habitações, provavelmente visando evitar inundações. Os tesos marajoaras são considerados estruturas monumentais e, por esse motivo, são essenciais para a interpretação do passado marajoara. Em outubro de 2009, um grupo de geólogos alegou que os "tesos" poderiam ser construções naturais, hipótese que invalidaria parcialmente as interpretações acerca da existência de sociedades complexas na Amazônia.No entanto, arqueólogos de renome como André Prouss e Anna Curtenius Roosevelt, questionaram a competência da equipe de geológos e afirmaram que apenas arqueólogos possuem os instrumentos técnicos para verificar indícios de atividade humana.

Principais sítios arqueológicos

O sítio Alice Boer se localiza em Ipeúna, município próximo a Rio Claro, em São Paulo. Foi escavado por iniciativa da arqueólogos Maria Beltrão a serviço do Museu Nacional a partir de 1964. Os primeiros brasileiros da região parecem ser muito antigos e produziram artefatos como pontas de projéteis, raspadores e lesmas. Uma amostra de carvão deste sítio forneceu a data de 14200 anos.

Abismo da Ponta de Flecha

O sítio Ponta de Flecha foi escavado entre 1981 e 1982 por C. Barreto e E. Robrahn. Os achados do sítio – entre eles pontas de flecha e ossos – datam tanto da época pleistocênica quanto holocênica. Os ossos de animais encontrados foram marcados por instrumentos líticos humanos.

Pedra Pintada

A professora de antropologia da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, Anna Roosevelt (bisneta do presidente norte-americano Theodore Roosevelt) coordenou, em 1996, uma equipe que pesquisou a Caverna da Pedra Pintada, em Monte Alegre, Pará, na margem esquerda do Rio Amazonas, a poucos quilômetros do que é hoje Santarém.

Os brasileiros pré-históricos daquela região sustentaram-se com uma economia estável e produziram uma cultura e tecnologias bastante superiores às de seus primos da América do Norte. Os paleoíndios moraram em cavernas confortáveis e protegidas, tinham uma dieta mais saudável e produziram cerâmicas, pinturas rupestres e pontas de flechas. Eles eram caçadores de pequenos animais e coletores de frutas. No auge de sua civilização, chegaram a abrigar cerca de 300 000 indivíduos.

Foram encontradas pontas de lança e cacos de cerâmica datados de 10 000 a 6 000 anos. Os resultados concluíram que os paleoíndios (os primeiros habitantes das Américas) viveram na região amazônica de 11,2 a 10 000 anos atrás. São provas convincentes de que a ocupação humana na América se deu há mais de 20 000 anos.

Ainda assim, as descobertas de Roosevelt ainda não refutaram totalmente a hipótese da chegada dos primeiros habitantes da América pelo Estreito de Bering. O movimento migratório teria ocorrido em levas sucessivas. As populações amazônicas, cujos sinais encontrou na caverna da Pedra Pintada, provavelmente migraram para o sul sem ter tido contato com os caçadores de mamutes americanos.

Pedra Furada

O sítio arqueológico de Pedra Furada, localizado em São Raimundo Nonato, no Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, foi encontrado na década de 60. Ele vem sendo estudado, desde os anos 70, por Niède Guidon, uma arqueóloga franco-brasileira. Os achados (pedras lascadas e vestígios de fogueiras) datam de aproximadamente 11.000 anos. Segundo a equipe, não é impossível que os achados possam ter até 48.000 anos. A tese de Guidon vai bem mais longe - cerca de 100 mil anos - e pressupõe que o homem não teria chegado à América vindo da Ásia por terra (via estreito de Bering como se acredita até hoje) e sim, pelo mar, já se utilizando de embarcações. Contudo, as descobertas de São Raimundo Nonato permanecem controversas e ainda não refutam totalmente a Teoria Clóvis.

O sítio também abriga o Museu do Homem Americano. Painéis iluminados e auto explicativos contam a história da presença do homem na América com desenhos, mapas e textos. O espaço também guarda urnas funerárias em argila e réplicas de dois esqueletos humanos encontrados em cavernas da região. Um deles, uma índia de cerca de 30 anos de idade foi encontrado praticamente completo e data de 9,7 mil anos.

Também na região foram encontrados desenhos na Toca do Boqueirão, também em Pedra Furada, que parecem representar uma cena de ataque dos terríveis felinos que já habitaram o continente. As concepções dos atuais índios que habitam a região nordeste do país, a exemplo dos cariris, apesar de bastante modificadas, ainda podem se constituir num elemento útil para decifrar tais representações com uma estratégia conjetural. Uma interpretação sobre os desenhos da figura humana desses povos revela uma surpreendente complexidade que pode muito bem corresponder a um mapa das sensações corporais e/ou uma concepção de corpo e espírito. Os encantados são descritos pelos cariris, em geral, como homens descomunais, ferozes e implacáveis, de feição rude e olhos esbugalhados, verdadeiramente assustadores, segundo o antropólogo Nascimento, que estudou em sua tese para Mestrado na Universidade Federal da Bahia os rituais e identificação étnica dos índios do nordeste a partir das concepções de um grupo remanescente - os cariris de Mirandela, (Bahia) em 1994.ela foi fundida em raimundo nonato.

Lagoa Santa

No Brasil, além dos restos do Piauí, existe também um antiquíssimo conjunto achado na região de Lagoa Santa (Minas Gerais), possivelmente os representantes do antigo grupo linguístico Macro Jê -, cujos descendentes mais próximos hoje seriam os índios cariris e botocudos.
A reconstrução dos traços faciais de Luzia constatou uma enorme semelhança com os negroides, desbancando a teoria de Clovis, possivelmente povoadores que partiram da Austrália e da Oceania, navegaram em pequenas embarcações pelas ilhas da Polinésia e chegaram até a América do Sul

Em 1974, na Lapa Vermelha IV uma descoberta estarrecedora mudou o rumo de nossa historia, durante a escavação da equipe de Annette Laming-Emperaire, foi descoberto um esqueleto humano datado em 11,5 mil anos, o mais antigo da América, posteriormente apelidado de Luzia.

Alem da idade do crânio, a reconstrução dos traços faciais constatou uma enorme semelhança com os negroides, desbancando a teoria de Clovis que tinha como base um povo mongoloide originário do norte da Asia. Isso confirmo a teoria de que o continente americano foi ocupado por mais de um fluxo migratório, tendo chegado ao continente americano via navegações transoceânicas, possivelmente povoadores que partiram da Austrália e da Oceania, navegaram em pequenas embarcações pelas ilhas da Polinésia e chegaram até a América do Sul.

Origem do nome 'Luzia'

Formalmente, o esqueleto se chama "Lapa Vermelha IV Hominídeo 1".[8] "Luzia" é um apelido dado pelo biólogo Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Ele se inspirou em Lucy, o célebre fóssil de Australopithecus afarensis de 3,5 milhões de anos achado na Etiópia no ano de 1974.

Período pré-cabralino recente

Enquanto a maior parte da pesquisa sobre o Brasil mais antigo analisava principalmente os vestígios materiais deixados por esses povos, o Brasil pré-cabralino recente costuma ser estudado através das línguas nativas. Com efeito, o estudo sobre as línguas nativas permite compreender inúmeros aspectos das culturas pré-cabralinas, além de seus parentescos históricos e de suas migrações. Quando os cronistas europeus descreveram os antigos povos brasileiros, utilizaram sobretudo denominações linguísticas e, graças ao trabalho missionário de alguns jesuítas, temos hoje conhecimento das antigas línguas brasílicas (que deram origem às línguas indígenas modernas).

Resta-nos, contudo, a tarefa de associar os achados antigos aos povos recentes, que conhecemos principalmente a partir de grupos linguísticos. Um estudo desse tipo não foi realizado no Brasil ainda. Apenas um grupo pré-cabralino recente foi associado suficientemente aos achados antigos: os grupos da família linguística Tupi-Guarani. Estes, na época da chegada dos europeus, dominavam o atual litoral brasileiro, conhecido por "Pindorama". Outra fonte importante para a reconstrução da história recente dos povos pré-cabralinos é a mitologia indígena. Sabe-se hoje ser possível estabelecer relações entre os elementos dos mitos e acontecimentos que consideramos "históricos". As fontes mitológicas tem sido empregadas para estudar movimentos migratórios,as relações estabelecidas entre os povos brasileiros e, por exemplo, o Império Inca, etc.

Quando os europeus passaram a ocupar a costa oriental da América do Sul, encontraram etnias vinculadas a quatro principais grupos linguísticos: os arauaque, os tupi-guaranis, os jês e os caraíbas. Devemos tomar cuidado para não confundir grupo linguístico com grupos étnicos. Dentro de um mesmo grupo linguístico havia numerosas e diferentes unidades identitárias possuindo dialetos, práticas culturais e filosofias próprias. Nosso conhecimento dos povos indígenas por meio das crônicas europeias é limitado por diversas razões.

A primeira delas, é que a imagem europeia sobre os povos pré-cabralinos foi marcada por um processo de enquadramento da América em categorias europeias, de forma que as crônicas nos fornecem informações mais valiosas para o estudo dos próprios europeus modernos do que para o estudo dos nativos. A segunda delas, é que as crônicas foram escritas numa época de transformação, uma vez que a entrada dos europeus trouxe doenças e influências novas para o mundo indígena, modificando consideravelmente a antiga realidade em que viviam. Por fim, as crônicas acompanham o avanço da "fronteira" europeia na América, de forma que grande parte dos povos indígenas só chegaram a ser conhecidos pelos ocidentais no século XIX, após terem modificado muitos de seus costumes; é interessante notar que muitas tribos indígenas no Brasil continuam isoladas do mundo ocidental até hoje.

Tupis

Ídolo de Iguape, encontrado pelo pesquisador Ricardo Krone em 1906. A descoberta ocorreu durante uma de suas pesquisas no sambaqui do Morro Grande, na Estação Ecológica da Juréia-Itatins. Sua idade, calculada pelo carbono 14, revelou que possuía mais de 2 500 anos
Um dos grandes grupos linguísticos do Brasil, e que parece ter se expandido imensamente sobre o território brasileiro antes de 1500, é o grupo tupi. A principal família linguística dentro desse grupo maior é a tupi-guarani. Esses povos devem ter primeiramente habitado a região das cabeceiras dos rios Madeira,Tapajós e Xingu. A expansão tupi-guarani aconteceu há 3 mil e 2 mil anos, pouco depois de esse grupo ter se diferenciado de outros na região entre o Xingu e o Madeira, formando novos subgrupos linguísticos, como os cocamas, omáguas, guaiaquis e xirinós. Os povos de línguas cocama e omágua dirigiram-se ao rio amazonas, enquanto os guaiaquis chegaram ao Paraguai e os xirinós à Bolívia. Tapirapés e tenetearas deslocaram-se em direção ao nordeste. Os povos de línguas pauserna, cajabi e camaiurá deslocaram-se até a região extremo sul do Brasil.
Urna funerária encontrada na região de Santa Cruz baixo Tocantins (Subtradição Tupinambá da Amazônia) Foto Marlon Prado acervo FCCM 

Os povos de língua oiampi chegaram até a região das Guianas. A última fase de dispersão dos povos tupi-guaranis ocorreu por volta do ano 1000. Os falantes de línguas associadas à família tupi-guarani estariam já instalados no sul do Brasil (guaranis etc.), na bacia amazônica e também no litoral do Brasil (potiguares, tupinambás, tupiniquins). Os dados linguísticos nos permitem avaliar essas sociedades como expansivas e em constante movimento. Graças a uma impressionante rede de caminhos fluviais, os povos desse grupo linguístico puderam se difundir e, ao mesmo tempo, manter contato uns com os outros. O uso de canoas (ygara em tupi antigo) para navegar rios permitia o enviamento de missões militares e diplomáticas de uma região para outra.

Muitos artefatos arqueológicos do período cerâmico são filiados a esses antigos povos de matriz linguística tupi-guarani. Os sítios arqueológicos associados a essas populações constituíam-se em aldeias extensas, normalmente localizadas em regiões de planalto ou em terraços. Nesses sítios arqueológicos, de largura média entre 10 000 e 2 000 metros quadrados, a cerâmica antiga é abundante. As unidades habitacionais são cabanas, que podiam alcançar até 60 metros quadrados de diâmetro. Dentro dessas cabanas, foram localizados fogueiras e fornos para cozimento.

As áreas dos sítios são definidas em espaço cerimonial, público e residencial. O espaço dos vivos é separado daquele dos mortos (muitos cemitérios antigos foram localizados). A arqueologia identificou sepultamentos em urnas e outros em terra. Artefatos líticos são encontrados junto dos sepultamentos, provavelmente objetos de uso pessoal. A cerâmica gupi-guarani (particularmente abundante no Paraná) é caracterizada pelos desenhos policrômicos de traços lineares.

A cronologia para a história dos povos tupis-guaranis se baseia em teorias arqueológicas, na glotocronologia e na datação de cerâmicas identificadas aos tupis-guaranis. Como vimos pela história dos tupis-guaranis a partir de suas línguas, o movimento de expansão ocorreu entre 3 mil e 2 mil anos atrás a partir da região amazônica; a maior parte dos artefatos arqueológicos desses povos são datados entre o ano 500 e o ano 1500. A época da expansão para o litoral é constatada pela maior concentração de artefatos nessa região entre os séculos XI e XIII.

Macro-Jê

As línguas associadas à matriz linguística macro-jê devem ter sofrido diferenciação por volta de 6 mil anos atrás. Sua expansão inicia-se há 3 mil anos, pela Região Centro-Oeste do Brasil. O grupo Jê propriamente dito é possivelmente originário das regiões das nascentes dos rios São Francisco e Araguaia. Grande parte dos povos de língua Jê se afastaram dos caingangues e xoclengues, seguindo para o sul da região central brasileira. Alguns grupos devem ter se separado destes últimos e seguido até a região amazônica há pelo menos mil anos. Os povos Jês preferiam se instalar em regiões de Planalto (como a original região do Planalto brasileiro), como nos permite constatar o estudo de suas línguas Entre as línguas do tronco Macro-Jê encontram-se: caiapós, Xerentes, Timbiras, etc.

Caraíbas

Os povos de língua caraíbas também passaram por um processo de expansão há 3 mil anos, aproximadamente. Essa família linguística é talvez originária da atual região das guianas e do extremo norte do Brasil. Os iucpas e os carijonas, ramificações dessa família linguística, teriam se diferenciado e migrado para a Colômbia, enquanto os bacairis teriam seguido para o centro do Brasil. O empréstimo de termos tupi nas línguas caribes (e vice-versa) aponta para a existência de redes complexas de comércio e tráfico de pessoas entre tais povos.

Aruaque e outros

As línguas de matriz aruaque concentram-se hoje na região sudoeste da Bacia amazônica. A principal família linguística associada a esse grupo é a Maipure, dividida em quatro subgrupos regionais. Existe grande polêmica em relação às origens, às migrações e aos descendentes desses povos, além de suas relações com outros grupos linguísticos do Brasil Antigo. Outros grupos linguísticos menores, sem parentescos com os outros maiores, existem no Brasil: mura, chapcura, pano, ianomami, etc.


Pindorama

Na véspera da chegada dos europeus à América em 1500, calcula-se que o atual território do Brasil (a costa oriental da América do Sul) fosse habitado por dois milhões de indígenas, do norte ao sul.

Segundo Luís da Câmara Cascudo, os tupis foram o primeiro agrupamento "indígena que teve contacto com o colonizador". A influência tupi se deu na alimentação, no idioma, nos processos agrícolas, de caça e pesca, nas superstições, costumes, folclore, etc. Os povos do grupo Tupi-Guarani habitavam a região chamada por eles de "Pindorama" (terra das palmeiras), atual região oriental da América do Sul, que habitava o imaginário Tupi-Guarani como terra mítica, uma terra livre dos males. Os arqueólogos acreditam que o mito acerca de "Pindorama" tenha se formado na época das antigas migrações, quando os tupi-guaranis se dirigiram para o litoral brasileiro.

Sabemos os nomes de alguns dos principais grupos que habitavam Pindorama na véspera da chegada europeia (entre eles alguns de origens não tupi): os potiguaras, os tremembés, os tabajaras, os caetés, os tupiniquins, os tupinambás, os aimorés, os goitacás, os tamoios, os carijós e os temiminós. Os potiguaras habitavam a região entre o Rio Acaraú e o Rio Paraíba e controlavam a navegação fluvial. Durante a conquista, aliaram-se aos franceses, sendo que alguns relatos falam de casamentos entre potiguaras e franceses, envolvendo acordos bélicos antiportugueses. Os Tabajaras habitavam a margem meridional do rio Paraíba, na região atual do litoral pernambucano. Foram importantes aliados dos portugueses durante a conquista. Os Caetés habitavam a região de Pernambuco desde Olinda, "a Marim dos Caetés", até onde encontra-se hoje o estado de Alagoas, desmembrado de Pernambuco. Tornaram-se célebres na História do Brasil por terem devorado o Bispo Sardinha.

Os Tremembés habitavam a margem ocidental do rio Acaraú. Os tamoios habitavam a Baía da Guanabara; seus líderes, Cunhambebe e Aimberê, aliaram-se com os franceses no combate aos portugueses. Os carijós habitavam o litoral sul do país. Os tupiniquins habitavam a atual região do Estado de São Paulo, e os Tupinambá a região sudeste do Brasil. Nosso conhecimento do tupi antigo é principalmente baseado na língua dos Tupinambás (embora esses não constituíssem os "principais tupis", como alguns autores apontam).

Os povos tupis viviam em aldeias que reuniam de 600 a 700 habitantes. Algumas aldeias eram fortificadas em razão das guerras inter-tribais. Nenhuma autoridade aparecia com força absoluta ou consideravelmente forte sobre os outros integrantes da sociedade, embora houvesse "hierarquias" em função do gênero, do mérito guerreiro e dos poderes xamânicos. Os Pajés (Payes em tupi antigo, intermediários entre o mundo religioso e o mundo dos homens) e os Caciques (morubixaba em tupi antigo, chefes guerreiros) ocupavam, em geral, o papel de autoridades das tribos. A subsistência baseava-se na caça e na horticultura. Os homens acreditavam nos bons e nos maus espíritos (tupã, anhang, etc.), que influenciavam os acontecimentos no cosmos. Cada homem trazia um maracá, no qual acreditavam habitar um espírito protetor de cada indivíduo. Acredita-se que apenas os filhos dos homens mais importantes da tribo fossem enterrados nas urnas funerárias. Os acontecimentos religiosos tinham alcance amplo, e reuniam diferentes etnias. Os antigos indígenas foram responsáveis por inúmeras manifestações artísticas, como peças de cerâmica, danças, canções/poesia (registradas por Léry) e, a que mais impressionou os ocidentais, a plumária extremamente sofisticada e rica.  A Literatura Tupi aparece com a chegada da escrita europeia, quando missionários passam a escrever em tupi para converter os nativos, e as crônicas transcrevem canções indígenas.

Toponímias

A permanência de nomes tupis (tupi antigo, nhe'enga tupi ou língua geral) para nomear diversas regiões do Brasil atual é um indicador da influência da língua indígena na cultura brasileira. Os historiadores de Brasil Colonial concordam que até o século XVIII o tupi era provavelmente a língua mais falada em algumas regiões da América Portuguesa. Nomes de regiões, rios e cidades brasileiras têm suas raízes no período de Pindorama, e no período colonial. Alguns exemplos:

Guaratinquetá = gûyrá-tinga-etá = Muitas Garças
Jacareí = îakaré 'y = Rio dos Jacarés
Piraguá = Pira Kûá = Baía dos Peixes
Araraquara = Arara Kûara = Toca das Araras

O Brasil pré-cabralino e a Europa

Do lado europeu, a descoberta do Brasil foi precedida por vários tratados entre Portugal e Espanha, estabelecendo limites e dividindo o mundo já descoberto do mundo ainda por descobrir.

Destes acordos assinados à distância da terra atribuída, o Tratado de Tordesilhas (1494) é o mais importante, por definir as porções do globo que caberiam a Portugal no período em que o Brasil foi colônia portuguesa. Estabeleciam suas cláusulas que as terras a leste de um mediano imaginário que passaria a 370 léguas marítimas a oeste das ilhas de Cabo Verde pertenceriam ao rei de Portugal, enquanto as terras a oeste seriam posse dos reis de Castela (atualmente Espanha). No atual território do Brasil, a linha atravessava de norte a sul, da atual cidade de Belém do Pará à atual Laguna, em Santa Catarina. Quando soube do tratado, o rei de França Francisco I teria indagado qual era "a cláusula do testamento de Adão" que dividia o planeta entre os reis de Portugal e Espanha e o excluía da partilha.

Muitos estudiosos afirmam que o descobridor do Brasil foi o navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón, que no dia 26 de janeiro de 1500 desembarcou no Cabo de Santo Agostinho, litoral sul de Pernambuco — esta considerada a mais antiga viagem comprovada ao território brasileiro.


Ver também

Civilizações andinas
Era pré-colombiana
Mesoamérica

Referências
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Estudos etnológicos, que partem de dados obtidos entre comunidades indígenas brasileiras em alguns casos, apontam para a virtual inexistência de um poder político separado do grupo nas sociedades ditas simples(isto é, sociedades sem Estado), de forma que o "chefe" é meramente um representante da coletividade do grupo e não possui poder efetivo. Nesse caso, o surgimento de sociedades mais ou menos hierarquizadas na época da conquista pode estar relacionada ao próprio impacto da chegada dos portugueses, se acreditarmos que as comunidades indígenas brasileiras se organizavam como "sociedades simples" no período imediatamente posterior à colonização. A dinâmica interna da história pré-cabralina também pode ser invocada para explicar determinadas transformações. Cf. análises do trabalho de Pierre Clastres «A Socialidade contra o Estado: a antropologia de Pierre Clastres» (PDF)«Reflexões sobre a contribuição de Pierre Clastres à Antropologia Política» (PDF)
«arqueologia brasileira»
«Academia Brasil-Europa»
LIMA, Oliveira. Descobrimento do Brasil. in: Livro do Centenário (1500-1900) (v. III). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1902.
 «Neste dia, em 1500, o Brasil era descoberto... por espanhóis». Aventuras na História. Consultado em 14 de fevereiro de 2019
 «Pinzón ou Cabral: quem chegou primeiro ao Brasil?». G1. Consultado em 6 de março de 2015

Bibliografia

Arqueologia Brasileira - ANDRÉ PROUS - 2ª ed. (2002), 1ª ed. (1992) Brasília: Editora da UNB, ISBN 85-230-0316-9
O Brasil Antes Dos Brasileiros: A Pré-História do Nosso País - ANDRÉ PROUS - (2006) - Editora: Jorge Zahar Editor Ltda., ISBN 8-571-10920-6
Bones, Discovering the First Americans, por Elaine Dewar, Carroll & Graf Publishers, New York, 2002, hardcover - ISBN 0-7867-0979-0
História do Brasil por Claudio Vicentini - ISBN 8526232029
FIGUEIRA, Divalte Garcia. História. São Paulo. Ed. Ática. 2006.

Ligações externas

A pré-historia do Brasil registrada
Arquelogia Brasileira pelo Itaú Cultural
Matéria sobre Anna Roosevelt na Veja
O Homem de Lagoa Santa
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